Laura Diaz e Loïc
Koutana tacam
gasolina em tudo

por Douglas Vieira

Diálogos culturais: a dupla que incendeia o palco nos shows do Teto Preto conversa sobre a força da música como elemento de resistência

Foi no underground paulistano, na festa Mamba Negra, que surgiu o grupo Teto Preto. Com um som pesado e performances extremamente físicas, de entrega mesmo, eles reivindicam um lugar e um olhar urgente para muitas causas de resistência, em especial, a ocupação de espaços pelo universo LGBTQ+.

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O grupo traz à frente a cantora e performer Laura Diaz e o bailarino e multiartista francês de origem africana Loïc Koutana, acompanhados de Pedro Zopelar, Savio de Queiroz e William Bica. Juntos, chegaram aos palcos da Europa e se espalham pelo mundo, mas, diante do momento atual do Brasil e de tudo que carregam dentro das músicas do disco Pedra Preta, se realizam artisticamente de fato no contato com os brasileiros e, principalmente, quando estão fora do eixo Rio-São Paulo.

Pouco antes de estrearem no Pará, no festival Se Rasgum, em Belém, Laura e Loïc conversaram com a Trip sobre a força da música como resistência.

Trip. Qual a importância de vir para cá como artista?

Laura Diaz. Nosso show aqui no Se Rasgum é muito importante para gente, é a nossa primeira vez no norte do Brasil e, pessoalmente, também é a minha primeira vez no norte. Do sudeste, a sensação que eu tenho é que os gringos têm a oportunidade de conhecer o nosso país inteiro e a gente não tem, a gente não tem mobilidade no país. Quem é do sudeste não consegue sair do sudeste e quem é do norte não consegui vir para baixo, e a gente tem todos esses Brasis quase que divididos mesmo, de uma maneira muito violenta e histórica. Então, para mim, é muito forte, muito significativo e estou muito emocionada mesmo de ter a oportunidade de tocar para essa galera. Nos shows do Teto pelo mundo todo a gente está conseguindo criar quase que um rito de transformação do luto em luta. A gente teve muitas pessoas subindo no palco, muitas travestis, muitas gays, muita sapatão, muitos homens trans, todos se juntando a nós no palco, na ocupação desse palco e hoje não seria diferente — a gente conheceu pela internet, pelo Instagram, já tem falado há algum tempo com as travestis, com algumas artistas de Belém do Pará e essas demônias vão acompanhar a gente e tomar o nosso palco no show. 

Loïc Koutana. Pra mim, o meu primeiro contato com o Brasil foi com o norte: meu namorado, meu marido atual, é de Manaus, então cheguei primeiro lá e foi depois que conheci São Paulo e Rio. Meu primeiro contato com a realidade do Brasil foi essa, o Brasil daqui. Começar a tocar no mundo inteiro com o Teto Preto foi legal, bacana, mas, na real, a gente tem que espalhar o discurso aqui, que é aqui que a resistência tem que existir, reexistir. Sou homem, preto, viado, do Congo e da Costa do Marfim, então, para mim, faz muito mais sentido quando performo no palco e depois, no Instagram, jovens me escrevem e falam que se sentem muito representados através da nossa dança e do nosso show. Para mim, é mais importante tocar no norte do Brasil do que tocar na Austrália, ou em qualquer outro lugar, falando sinceramente. 

Mesmo pensando em São Paulo e Rio, sem pensar na Europa, tem um peso muito diferente  tocar aqui?

Laura. Nossa, é muito mais pesado tocar aqui, porque é uma responsabilidade muito maior musicalmente. Quanto mais a gente sobe lá de São Paulo, a gente vai vendo como as pessoas são muito mais vanguardistas em termos musicais, culturais e artísticos. No Recife, isso é muito claro; a gente tocou três vezes lá e é sempre um show muito quente, muito foda, muito forte. O Recife também, de alguma maneira, foi a primeira cidade que abraçou a gente, abraçou o nosso som quando a gente nem existia direito, a primeira vez no Rec-Beat, que também é um festival muito importante, que a gente gosta muito, respeita e que realmente bota fé numa galera que não existe ainda, tipo a gente. E acho que aqui no Se Rasga [brinca com o nome do festival paraense] a gente também vê essa oportunidade com outras atrações. Isso é o que mais interessa para gente, estar nos lugares em que a música está sendo criada, discutida, em que ela está se renovando. A galera virou pra mim em Recife e falou: "Porra, que legal que vocês estão vindo do sudeste até aqui. E aqui é meio pequeno o show". E eu pensava: "Eu to mó nervosa pra esse show, quero dar o máximo de mim". A gente, no Teto Preto, tem uma coisa muito apaixonada pelo que a gente faz e pelos espetáculos, nunca estamos tranquilos. Esse ano, quando tocamos para os gringos, a gente tava com raiva, não estava nervoso. Eles chegavam: "E aí, vocês estão nervosos de pegar este palco enorme, na França, não sei o quê, com um monte de gente crica..." E a gente: "Não, eu não estou nervosa, eu estou pronta, meu bem". 

Loïc. É engraçado que, quando a gente foi tocar na Polônia, foi tipo "eu vou arregaçar essa porra". Em dez dias na Polônia, eu vi três pretos lá, então, foi muito de resistir, sabe? A primeira vez que, saindo do aeroporto, eu senti que o meu corpo estava afundando e que eu precisava resistir através da arte. No momento do nosso show, a gente foi com tudo. Mas, quando a gente está no Brasil tocando, principalmente aqui, em um lugar como Belém do Pará, estou sendo muito diferente. Não é sobre raiva, não é sobre demonstrar isso... 

Laura. É sobre compartilhar com a galera todas essas oportunidades que a gente teve. É muito especial esse show de hoje porque é o nosso penúltimo show no ano e é, de alguma maneira, o fechamento dessa turnê toda e dessa primeira experiência que a gente teve com o mundo. A gente acabou indo para vários países sem esperar, então, a  gente chega hoje no palco e quer mostrar que a gente fez a nossa lição de casa para as pessoas, quer dividir com essas gatas, dividir com essas bichas, com essas travestis, todas as coisas. O corpo da gente está mais atento, estamos bem mais ensaiados e está quente. É um prazer quase parecido com mostrar para os pais: "Olha, viu, eu estava fazendo alguma coisa". A gente chega pra galera do Brasil para dividir e mostrar tudo pelo o que a gente tem passado esse ano e colocar essa energia na galera, porque é muito por essa energia que veio do Brasil que a gente conseguiu ir para fora.

E nesse momento tão difícil, com notícias difíceis toda hora, social, ambiental... O que você sentiu hoje quando chegou, pensando no que contou do que sentiu quando desembarcou na Polônia?

Loïc. Quando a gente chegou da tour na Europa, parecia que as coisas estavam piorando, mas, na real, sempre tem uma coisa pesada e difícil de lidar. Quando a gente estava lançando nosso álbum, me lembro, foi em um show no Rio, quatro dias depois do assassinato da Marielle Franco. Então, nosso trabalho sempre foi sobre resistência.

Laura. E, na noite que a gente lançou o nosso disco Pedra Preta, fazia sete anos que eu tinha sido presa lutando contra a presença da polícia militar no campus da USP. É bem isso que o Loïc falou, pelo menos lá em São Paulo, com o movimento da Mamba Negra e com as outras festas independentes, isso tudo é uma cena que foi criada pela necessidade. A gente não tinha onde existir, os nossos corpos, apesar de eu ser branca, a gente sendo bicha, queer, performer, sendo mina, sendo travesti, a gente não tinha espaço na noite de São Paulo, que é controlado por brancos heterossexuais ricos, business makers, Ale Youssef, Facundo Guerra... Esses lugares sempre foram um espaço de luta, a gente criou espaços para trabalhar, para poder ser artista, para o dinheiro circular entre as nossas, e esse momento do Bolsonaro é uma bosta sem dimensão. Mas acontece que as bichas e as minas já estão se preparando para o pau comer há muito tempo, desde o momento PT, desculpa, mas o PT tava me tacando na cadeia e tacando outras militantes mais radicalizadas na cadeia. A gente já está preparada para o pior e para o terror. 

Loïc. A gente gravou o nosso clipe de Pedra Preta no dia seguinte da eleição. 

Laura. Foi na segunda-feira depois do domingo em que o Bolsonaro foi eleito. 

Loïc. A gente sempre foi resistência, todo show pra mim, seja no norte, seja em São Paulo, seja em outro país, de alguma forma, o meu corpo preto e o corpo da Laura de mulher estão sempre sendo uma parte da resistência. 

Laura. As pessoas também entendem o nosso show sem falar a nossa língua, isso é muito louco. Na Europa, todo mundo entendia, todo mundo sabia do que a gente estava falando, então isso só me faz pensar que, quando a gente sobe no palco, a gente nunca está sozinho.  

A gente tem uma dificuldade de se locomover aqui dentro. Mas um festival como o Lollapalooza, ou como o Rock in Rio, consome quanto de dinheiro também?

Laura. As pessoas têm que parar de abanar o rabo pro Rock in Rio. Eu fico muito feliz de ver a Linn da Quebrada lá e algumas manas de uma resistência, mas eu fico muito puta de ver a Tati Quebra Barraco no palco favela, com um som cenográfico de helicóptero. Se a gente fosse discutir mesmo Rock in Rio ou essas mega marcas, como Lollapalloza, teria que discutir a indústria musical brasileira, a música gospel, a sertaneja. A questão é muito mais quem é antidemocrático, essa parte da indústria que só permite que exista o gospel, o sertanejo, as mulheres com harmonização facial ou as minas rebocadas e tal. Isso, para mim, é antidemocrático. A galera LGBTQ+ sempre luta por uma diversidade, pela liberdade das coisas simplesmente existirem. E tem muito mal maquiado na indústria da música, da moda, das aparências é que só tem um jeito de você ser, que é ser uma branca gostosa, submissa de preferência, ou uma preta sexualizada, ou um rapper machista homofóbico que todo mundo bate palma. Tem várias nuances que, se a gente for falar, o pau vai comer. 

Um evento como esse aqui que tem 14 anos agora, fazer sua música chegar aqui é mostrar que esse lugar existe de alguma forma?

Laura. Total, a gente tem o Rec-Beat, que gosto muito porque tem essa característica de botar o pau na mesa e trazer uma galera nova, que eu identifico aqui também. Você tem grandes nomes, tem a Gal Costa, o Heavy Baile, a Tássia Reis, que tem que ter, porque são os nomes que estão aí, mas você tem também o Joe Silhueta, que é uma banda de Brasília e que já vem de muitos outros anos. Tem espaço para as coisas novas e que são verdadeiras e que tem a ver com o aqui e o agora. Isso é um tesão: tem as Rakta junto com o Joe Silhueta, junto com Heavy Baile, junto com a gente, com a Tássia, tem muita coisa nesse caldo e acho que é isso. A gente se articular e se conectar é fazer as guerreiras conectarem, é isso que a gente está fazendo.

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