Os extremos de
Clarice Falcão

por Luara Calvi Anic

Em disco eletrônico, ela se despe de personagens e fala dos picos de ansiedade e das baixas depressivas com as quais convive

Tem fases em que Clarice Falcão ocupa seu tempo com tantas atividades que não sobra tempo para pensar. Em outras, ela prefere ficar na horizontal, deitada, assistindo ao tempo passar. Os picos de ansiedade e as baixas depressivas estão presentes em sua vida e são o tema principal de seu terceiro disco, Tem Conserto —  ela sai em turnê nesta sexta, 28 de junho.

“Quando vejo como a música me ajudou nos meus momentos de crise tenho vontade de falar desse assunto”, diz à Tpm. “Eu tive a sorte de nascer em uma família que entende perfeitamente essa situação. Mas tem muita gente que não sabe o que tem, que a família não consegue entender e acha que é drama. Isso dá uma sensação muito grande de solidão.”

É um disco em que Clarice, que em outubro completa 30 anos, olha para dentro, como ela canta na faixa “Minha Cabeça”: “Minha cabeça não é/Flor que se cheire/Não é minha parceira/Não faz nada que eu peço/Minha cabeça repete/As mesmas coisas/Repete as mesmas coisas/Até não ter mais coisa”. Mas é também um trabalho que olha para fora, um jeito de compartilhar sua experiência em pistas de festas do Rio e de São Paulo. “Eu escutava muito folk e continuo escutando, mas descobri música eletrônica há uns três anos e me apaixonei, fui ampliando meu leque. Gosto de conhecer coisa novas, gosto muito de gostar das coisas”, diz.

Com uma produção que combina house music, techno e batidas oitentistas o lançamento é reflexo da Clarice que circula, que busca achados musicais e que propõe parcerias artísticas com as pessoas que admira. Foi assim com Lucas de Paiva, produtor do disco e do selo carioca 40% Foda/Maneiríssimo, do qual também faz parte Gabriel Guerra, o Guerrinha, que mixou a maior parte das faixas. Há também músicas mixadas por Sávio de Queiroz, da banda paulistana Teto Preto.

Seus dois primeiros trabalhos como cantora, Monomania (2013) e Problema Meu (2016), tinham uma vibe mais indie e foram lançados em uma época em que Clarice estava mais ligada ao teatro e ao roteiro, ofícios que ela foi encaixando ao longo de sua trajetória. “Neste disco, não há um personagem, não é uma coisa que estou inventando para a música ser emocionante, tudo o que está lá eu passei. É muito difícil, mas é muito bom”, diz. Clarice conversou com a Tpm.

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Tpm. Nas letras do novo disco você fala bastante de depressão e ansiedade. Por que decidiu tratar disso agora?
Clarice Falcão. Na verdade, descobri que o disco era sobre isso justamente depois de compor as primeiras canções. Quando terminei “Minha Cabeça” falei: "Caramba, acho que o disco é exatamente sobre isso!'". Porque só saiu música que pelo menos tangencia esse assunto. Mas óbvio que dá um medo. Você pensa: "Eita, é sobre isso mesmo que eu vou falar? Depressão em um disco de pista?". Mas não tinha muito o que fazer, tem uma hora que o assunto vem muito na sua mente, até porque esse tema já está presente na minha família há muito tempo.

Seu avô materno se suicidou e a sua avó morreu de uma overdose de remédio, certo? Exatamente, a minha mãe fez um livro sobre isso [Queria Ver Você Feliz, 2014]. A vontade de falar desse assunto vem de uma catarse mesmo. E quando vejo os meus momentos de crise e como a música me ajudou, tem que ser sobre isso. Acho importante a gente falar desse assunto. De uma forma não glamourizada, óbvio. Quando as pessoas dizem "o disco fala muito do que eu sentia e não conseguia dizer" é muito foda. Fico muito feliz em saber que uma pessoa se sentiu menos solitária. Também não tenho a pretensão de ter feito uma obra completa sobre depressão e ansiedade. É muito a minha visão e a minha experiência.

“Não tenho a pretensão de ter feito uma obra completa sobre depressão e ansiedade. É muito a minha visão e a minha experiência.”
Clarice Falcão, cantora

É um disco muito íntimo. Acha que tem a ver a idade, os 30 anos, esse desprendimento em se mostrar? Sim. Pela pela primeira vez, tenho maturidade de olhar e organizar. Acho que estou tentando ter uma organização emocional e faz parte do processo olhar para as músicas e admitir: é isso o que eu sou, é isso que eu sinto.

Você já lançou três discos, trabalhou como atriz, como roteirista. O quanto a sua ansiedade te atrapalha e o quanto ela te faz produzir mais? Na hora, eu não reparo que ela é produtiva. Já passei muitos períodos, como eu canto em “Só + 6”, de ir para muitas festas e emendar, ficar três dias sem dormir. Mas até isso foi produtivo de alguma forma. Quando a gente é artista, quando a gente cria, viver faz parte do trabalho. Ainda assim, eu me sentia muito culpada. Mas hoje vejo que não precisava ter ficado tão culpada. De alguma forma, estava absorvendo coisas, estava me organizando, era o que eu podia fazer na época.

Você mora com seu namorado, o jornalista e apresentador Guilherme Guedes. Como ele reage a esses períodos que você passa muito tempo deitada? Quando a gente se conheceu, eu tinha acabado de lançar Problema Meu,então, estava muito na época de descansar a cabeça. Ele ficou preocupado: "O que é isso? Ela nunca mais vai querer criar nada?". Chegou um ponto dele falar: "Clarice, você precisa fazer alguma coisa". E eu: "Mas vai sair, vai sair, uma hora vai sair". Eu falava isso, mas não tinha certeza de que ia sair coisa.  

“Tem fases, semanas, meses, em que não consigo parar durante dias, não consigo parar para pensar.”
Clarice Falcão, cantora

Quando você está em crise você ainda sente muita culpa? Sim, dá muita culpa. E é esquisito conviver comigo de um jeito intenso, não é tão fácil. Hoje em dia, quando eu entro em umas de ficar na cama, ele entende que faz parte do meu processo. Ele não é de picos e eu sou muito, ou eu tô lá em cima, ou tô lá embaixo. O meu trabalho é pensar o equilíbrio, estar no meio. Mas é difícil.

Você convive com dois extremos: depressão e ansiedade. Exatamente, minha mãe é muito ansiosa, meu pai é mais para depressivo e eu tenho os dois. Tem fases, semanas, meses, em que não consigo parar durante dias, não consigo parar para pensar. É bem o oposto daquela coisa na horizontal e depressiva. Fico adiando o pensamento, tem que ter coisas acontecendo o tempo inteiro, programas. Do contrário, me dá muita angústia. E começo a ficar muita ansiosa.

Você foi escrevendo aos poucos ou já tinha letras prontas quando começou a produzir? Tinha umas quatro ou cinco canções, mas foi um processo muito diferente porque foi a primeira vez que eu compus em cima de um beat que eu e o Lucas escolhemos. Sempre fiz com meu próprio violão, sozinha no quarto. Também por isso o disco é um pouco diferente.

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Inclusive a sua voz mudou muito, mais etérea talvez. Eu reparei. Acho que fiquei mais velha e a voz fica mais grossa, mais grave. No Monomania, eu era muito novinha. Tinha 21 anos, mas o disco tinha um personagem, era um exagero de mim. Achava que era muito mais engraçado e fluido cantar sobre assassinato com uma voz muito doce. Eu falava "e se eu mostrar o cianureto que eu comprei pra gente se matar", mas de uma forma muito doce. Acho que este novo disco é despido de personagens.

Ter um personagem para cantar tinha a ver com a sua então recente carreira de atriz? Sim, acho que a atriz estava mais presente no começo. O disco de agora é muito de compositora, eu sou muito mais honesta. O primeiro e o segundo são mais narrativos, tem um personagem ali, tem uma coisa que às vezes era quase texto, não tão música.

De uns cinco anos para cá, algumas festas de música eletrônica de São Paulo fizeram versões cariocas, enquanto o Rio também desenvolvia uma cena própria. Você acha que a cidade está mais eletrônica do que nunca? Com certeza. Acho que agora a gente tem algumas nights que são cariocas, uma cena independente surgindo. Festas em que você entra e parece uma festa paulista, mas é bem carioca, com DJs da cidade. No Carnaval, teve uma festa incrível, só com DJs do Rio de Janeiro, chamada Coro Fundo. E foi uma das festas mais lindas que eu já fui, 100% carioca. Mas também sou apaixonada pela cena de São Paulo, a festa Mamba Negra é o máximo.

“O disco de agora é muito de compositora, eu sou muito mais honesta. O primeiro e o segundo são mais narrativos, tem um personagem ali”
Clarice Falcão, cantora

De que forma seu disco é resultado dessa nova cena da cidade? Acho que tem toda influência. Eu tenho frequentado as festas e comecei a encontrar o Lucas, que é muito talentoso e de quem eu já era fã do trabalho. Falei: “Vamos fazer uma parada juntos”. E aí saiu o disco. A gente passou um ano fazendo esse disco, muito sem prazo, informal. Às vezes, só ficávamos em casa bebendo e ouvindo música.

Você já disse em entrevistas que se incomoda com críticas que lê na internet. Recebe muitos ataques quando se posiciona sobre política? Isso já fez você pensar em evitar o tema? Cada vez é mais difícil parar de falar. Eu não fui uma pessoa ligada à política nos meus 20 anos, mas foi ficando impossível não existir politicamente. Não penso em parar de falar desse assunto porque eu acho que não tem como parar. A princípio, não é um assunto que me fascina, não é uma coisa que eu escolheria estudar, mas a gente está vivendo um momento em que não tem como.

Como você tem lidado com as más notícias na política? Às vezes, eu preciso de uma pausa e dou uma sumida. Especialmente na época das eleições em que era tudo muito intenso, tudo que eu postava milhões de pessoas comentavam "sua piranha, vagabunda, tomara que você morra". Eu me incomodo pouco com esse tipo de comentário porque não é sobre o meu trabalho, não é sobre mim. Mas estou muito descrente de tudo. É muito agoniante você ler notícias quando acha que nada vai mudar. Cheguei em um ponto que penso: "Isso não vai dar em nada, infelizmente, adoraria que desse". É um lugar quase de apatia, que eu preferia não ter chegado.

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Clarice Falcão conta porque decidiu dar um tempo do canal Porta dos Fundos e fala sobre feminismo, Gregório Duvivier, vaidade e seu novo disco, Problema Meu

Como você escolhe as pessoas para trabalhar com você? Cada vez mais, eu escolho os amigos. Se quero fazer um disco que é a minha cara, faz todo sentido ser com pessoas que são a minha cara, que eu escolhi como amigos, que vivem as coisas de formas parecidas. A minha família sempre gostou muito de trabalhar em família e entre amigos, acho que isso vem desde pequena, sempre vi meus pais trabalhando juntos, era muito lindo um casal que se amava e escrevia junto [Clarice é filha da escritora e roteirista Adriana Falcão e do roteirista e compositor João Falcão].

Para a turnê você não precisa mais de uma banda acústica te acompanhando, afinal é um disco eletrônico. Está com medo desse formato no palco? Tô morrendo de medo! Sempre tenho [risos]. Antes de lançar, a noia era o disco: "Meu deus, esse disco! As pessoas vão odiar, vai ser horrível, ninguém vai ouvir". Sempre os medos são: vai dar tudo errado, as pessoas vão odiar ou ninguém vai ouvir.

Nenhum pensamento positivo? Não, imagina! Nunca, nunca, nunca! É sempre assim: vai dar tudo errado no show, vou errar tudo, vou errar as letras, vou desafinar. Ou: vai dar tudo certo, mas as pessoas vão odiar. Ou: não importa se vai dar tudo certo ou não, porque não vai ninguém.

Vai lá:

28/6 - Juiz de Fora - Cultural Bar
7/7 - São Paulo - Sesc Pompeia
20/7 - Rio de Janeiro - Circo Voador
26/7 - Belo Horizonte - Sesc Palladium
2/8 - Porto Alegre - Bar Opinião

Créditos

Imagem principal: Pedro Pinho/Divulgação

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