A influência do sono na saúde mental

por Redação

Stevens Rehen, Veronica Oliveira e a neurocientista Nátalia Mota refletem sobre como o sono nos ajuda a lidar com eventos traumáticos

Por que dormimos? Por que sonhamos? Como o sono pode nos ajudar a lidar com momentos difíceis? É possível não deixar a ansiedade interferir nas noites de descanso? Se todo esse universo já era cercado de perguntas, a pandemia só trouxe novas questões, especialmente no que diz respeito a nossa saúde mental. No episódio do Trip com Ciência, Stevens Rehen convida para essa reflexão a psiquiatra e neurocientista Natália Mota e Veronica Oliveira, faxineira, empresária e criadora de conteúdo.

Indicada ao prêmio Nature Research Award, que reconhece mulheres que se destacam na ciência, Natália trabalha para identificar, a partir da análise computacional de discursos e grafos matemáticos, as desconectividades de linguagem que sinalizam precocemente desordens psiquiátricas, como a esquizofrenia. "A gente consegue com essa ferramenta prever o diagnóstico de esquizofrenia com mais de 90% de acurácia em sujeitos crônicos, no primeiro episódio ou mesmo antes dele", conta.

Desordens como a que Veronica Oliveira viveu muito antes de dar voz ao perfil Faxina Boa, que hoje acumula 300 mil seguidores no Instagram. Em 2016, após um acúmulo de estresse por conta do trabalho, ela teve uma crise aguda de ansiedade e depressão, que culminou numa internação psiquiátrica. Depois do tratamento, Veronica começou a fazer faxinas e, na pandemia, ganhou voz na internet mostrando como os prestadores de serviço sofrem preconceito. "Hoje, a minha grande luta é pelo respeito ao trabalho, independente de qual seja", afirma. Com o crescimento do perfil, descobriu-se uma boa comunicadora, começou a palestrar e acaba de lançar seu primeiro livro, Minha Vida Passada a Limpo.

Dá o play para ouvir o episódio completo ou, se preferir, leia a entrevista a seguir.

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Veronica, seu resumo é muito interessante: faxineira, empresária, palestrante, criadora de conteúdo e escritora. Para quem não te conhece, conta um pouco da sua trajetória. 

Veronica Oliveira. Eu comecei a fazer faxina há quatro anos e, nesse processo, decidi compartilhar com as pessoas na internet como era meu dia a dia. É mais um estudo social para entender como as pessoas lidam com esse trabalho. Com o tempo, eu descobri que eu era a primeira faxineira a produzir conteúdo para a internet e que as pessoas sentiam uma identificação muito grande. E era um sentimento não só de faxineiras, mas de prestadores de serviço em geral, para quem todo mundo olha um pouco torto, tem pena ou faz comentários muito desagradáveis porque são empregos que não demandam curso superior. Na pandemia, as pessoas perceberam que não é qualquer um que faz esse tipo de trabalho. A minha grande luta é pelo respeito ao trabalho, independente de qual seja. E aí, nesse meio tempo, eu fui descobrindo que eu era uma boa comunicadora e hoje estou nas redes sociais fazendo vários trabalhos interessantes, comecei a palestrar e agora lancei meu livro, chamado Minha Vida Passada a Limpo.

Natália, pensando na sua escolha pela medicina e, depois, pela psiquiatria e neurociência, como foi o desejo de ir para essa área?

Natália Mota. Quando era criança, eu queria ser cientista, mas eu falava para os meus pais que não queria ser cientista de remédio porque eles viviam trazendo a ideia de que eu tinha que ser médica. Eu falava que queria ser inventora de coisas. Não sabia dizer bem o que queria inventar, mas me imaginava no De Volta para o futuro ou alguma coisa assim. Eu queria criar soluções. Mas, na época, meus pais tinham aquela cultura "é uma boa aluna, está indecisa, tenta medicina e você vai se encontrar". Eu entrei no curso, mas sempre fui meio perdida na medicina e só me encontrei nos laboratórios, fazendo iniciação científica. Quando o Instituto do Cérebro veio para Natal, foi uma grande oportunidade para mim. Eu entrei no comecinho do Instituto e me encontrei. Na época que eu estava escolhendo psiquiatria, também estava começando a minha iniciação científica no Instituto e eu fiz psiquiatria junto com neuro.

Eu sempre pensei que eu ia ser neurologista e daí eu percebi que todos os pacientes que eu gostava iam para psiquiatria e eu precisava ir para lá também. E fui, mas sempre muito crítica com a forma como a psiquiatria era feita e, ainda hoje, sou bastante crítica sobre a maneira como as pessoas vêem e tratam os transtornos mentais. Sempre tive essa militância de desinstitucionalizar as questões e de olhar mais para o lado social, pensando em ressocializar e reabilitar, aceitar essas diversidades dos transtornos mentais.  Então, eu sempre fui meio desencontrada tanto na medicina quanto na psiquiatria.

Queria saber como era o sono de vocês antes da pandemia e como é que está o sono de vocês agora. Estão dormindo bem?

“Hoje, a minha grande luta é pelo respeito ao trabalho, independente de qual seja”
Veronica Oliveira

Veronica. Eu tenho dúvidas entre dormir muito e dormir bem porque eu sou a pessoa que dorme muito, mas não necessariamente me sinto renovada depois desse sono. Ultimamente, eu durmo uma hora durante a tarde, mas tem dias que acordo e parece que fui atropelada. E uma coisa maluca é que eu não lembrava dos meus sonhos e agora eu sonho toda noite, às vezes mais de uma coisa, e eu lembro de tudo. Então, mudou muito meu sono nos últimos tempos.

Natália. Durante a pandemia eu tive mais oportunidades para dormir com qualidade, para acordar mais devagar, sem correria, sem me sentir o coelhinho da Alice no País das Maravilhas falando "é tarde, é tarde, é tarde".  Eu comecei a colocar meus filhos para dormir na cama deles e acho que é justamente pelo tempo, né? Esse processo da pandemia me deu mais tempo para refletir nesse hábito e, como eu trabalho com isso, eu pensei que era hora de colocar em prática esse hábito de higienizar o sono.

O que a ciência sabe sobre por que dormimos e por que sonhamos? 

Natália. São duas perguntas bastante complexas. Em breves linhas, a gente dorme para fazer uma higiene de todo o material que produz durante o dia. Essa higiene tem um componente biológico em que o sono faz esse papel de desintoxicar as proteínas que são escuras na matriz extracelular, mas também tem um componente de higiene mental e aí tem uma relação com os sonhos. 

Os sonhos participariam no papel de metabolização de memórias, principalmente aquelas memórias afetivas. Imagina um processo de digestão: a gente coloca algum alimento no nosso corpo, ele digere e quebra aquele alimento em pedaços cada vez menores, absorve o que é bom e excreta o que não serve, fazendo essa limpeza. O processo do sonhar é muito parecido com isso, mas em relação às memórias que a gente adquiriu durante o dia e, principalmente, aquelas memórias de conteúdo afetivo. Então, se você for assaltado na rua e sofre um trauma, essa memória é extremamente importante para você, mas vai ser também muito deletéria se você ficar sentindo o impacto emocional que isso causa a cada vez que você lembrar. Então, esse processo de digestão consegue separar esses conteúdos de uma forma que ele retém o aprendizado, entendendo quais eram as relações do local e das circunstâncias, ou seja, você aprende com essa experiência, mas ele retira esse tom emocional, de forma que você consiga voltar para essa memória sem se re-traumatizar.

No entanto, esse é um processo fisiológico e, como um todo processo fisiológico, ele está passivo a falhas e isso acontece quando tem algum problema no aparato mental do indivíduo ou alguma desordem mental que torne mais difícil lidar com essas emoções. É comum que uma pessoa que passe por um trauma fique relembrando aquilo no período do trauma agudo, que a gente calcula que leve em torno seis meses para se resolver, mas algumas não conseguem resolver nesse tempo e começam a apresentar o que a gente chama de transtorno de estresse pós-traumático.

Um dos principais critérios para caracterizar esse sofrimento é justamente pesadelos repetitivos. No inconsciente, a pessoa começa a ter essa re-exposição traumática e isso acontece porque ela está fechada dos estímulos do ambiente. Então, se você está isolado desses estímulos do dia a dia - da visão, da audição e está protegido a ponto de ficar relaxado e relaxar totalmente o tônus muscular -, o organismo entende que é um momento protegido para sua cognição e você pode treinar para situações que ameaçavam sua vida, por exemplo. Mas, no dia a dia, algumas teorias defendem que não apenas essas questões impactantes emocionalmente são importantes para serem processadas nos sonhos, mas também as questões de relações sociais. Nesse caso, os sonhos funcionariam também como um treino de realidade virtual personalizada com seu banco de memórias para você treinar suas habilidades sociais para as questões que estão vindo. Você treina essas habilidades sociais com aquilo que está acontecendo porque nós somos primatas muito sociais e isso é central na nossa espécie.

“A bandeira da saúde mental e de políticas públicas que prezam pelo básico tem que ser de todos”
Natália Mota

Aproveitando, gostaria que contasse sobre o seu estudo sobre o sono durante a pandemia, Natália.

Natália. No laboratório, a gente trabalha com sonhos e, durante dez anos desenvolvendo aplicativos para auxiliar no diagnóstico de desordens mentais, percebemos que os relatos de sonhos eram especialmente informativos para falar sobre essas questões. A gente havia desenvolvido um aplicativo de celular para fazer uma coleta de dados de maneira remota. O objetivo desse estudo era rastrear sinais de sofrimento mental em populações que tivessem dificuldades de ter um profissional de saúde mental por perto.

Estávamos na fase final, testamos sujeitos adultos saudáveis e sem diagnóstico de doença mental para ver se o aplicativo estava funcionando e, nesse período, colhemos vários relatos de sonhos, bem antes do COVID-19 existir. Quando a gente ia para os hospitais para testar com voluntários com transtornos mentais começou a pandemia. Ficamos todos em casa e daí a gente - eu, minha com a minha equipe e a do Sidarta Ribeiro -  vimos que era hora de olhar para outra questão, já que estava todo mundo falando dos sonhos pandêmicos e, num momento desses, é de se imaginar que a gente esteja passando por uma espécie de trauma coletivo, uma pressão emocional forte para a maioria das pessoas. Então, partimos para estudar esse fenômeno e encontramos uma maneira de continuar produtivas durante o período da pandemia. Foi super legal, inclusive para a nossa própria saúde mental.

Na pesquisa, foram usadas ferramentas computacionais para medir as diferenças entre os períodos de um relato e de outro. A gente contou a proporção de palavras de conteúdos emocionais relacionados à frustração, tristeza, raiva, medo, e observamos também o quanto que esses discursos eram semelhantes a determinados conteúdos como contaminação e limpeza. O que percebemos, em linhas gerais, foi que no período de março a abril, as pessoas estavam sonhando com mais conteúdo de raiva e de tristeza e os sonhos tinham uma similaridade maior com conteúdos de contaminação e limpeza. Já no final do estudo, a gente aplicou algumas escalas padronizadas para ver se haviam nelas sinais de sofrimento mental e alguns voluntários já estavam tendo, principalmente, em relação ao isolamento social. Eles apontavam um sofrimento que era correlato à quantidade de alterações que tinham nos sonhos, ou seja, quanto mais os sujeitos estavam sonhando com conteúdos de limpeza, mais eles tinham um sofrimento mental associado. 

Por exemplo, um sonho típico de disposição social, que normalmente ocorre em adolescentes, é de estarem em uma situação e perceberem que estão sem roupa. As pessoas, nesse momento da pandemia, tiveram esse sonho quando perceberam que estavam sem máscara em situação sociais. Nesse caso, você pega um objeto que antes não era utilizado, mas está relacionado com essa proteção à contaminação. Então, tinha muita gente sonhando com álcool ou que estava limpando tudo. Isso é justamente esse treino de realidade virtual em que a mente está sinalizando um novo contexto.

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É importante lembrar que tudo isso está muito associado à ansiedade. A Veronica passou por uma grande mudança na vida depois de uma crise aguda de ansiedade e depressão. Queria saber como você está agora, Veronica.

Veronica. Naquele período, que foi em 2016, o lugar onde eu trabalhava me causava um estresse muito grande. Por mais que eu não tivesse dinheiro, eu tinha um convênio da empresa que me dava acesso a um médico. Só que quando eu chegava no consultório de um psiquiatra, ele dava orientações como dormir bem, fazer o exercício físico e me alimentar direito. Só que a minha renda era de aproximadamente 680 reais por mês e eu tenho dois filhos, ou seja, minha preocupação era se eu ia comer, eu não conseguia pensar em dormir bem eu não. É muito frustrante você ter acesso ao médico, mas não ter acesso ao tratamento. Aquilo foi me deixando numa espiral em que sempre estava cansada. Chegava do trabalho, deitava, dormia e acordava muito na hora de sair para trabalhar e chegava no trabalho muito cansada. Foi um processo que durou quase um ano e culminou numa tentativa de suicídio, que me levou a uma internação psiquiátrica. Cheguei no hospital ainda sob o efeito dos medicamentos que tinha tomado e eu me lembro de ter dormido mais de 22 horas. Quando eu levantei, foi o momento em que eu percebi o quanto eu precisava de um sono que fosse reparador de verdade. 

Saindo da internação, eu comecei a trabalhar com as faxinas e a minha vida mudou completamente. Durante a pandemia, apareceu muito trabalho porque o assunto da limpeza estava em alta e eu costumo pensar com um certo sentimento de culpa: 'cara, no momento em que está tão ruim pra todo mundo, as coisas deram muito certo para mim'. Hoje, eu estou protegida, mas há pouco tempo morava em um barraco de três metros quadrados. Eu fico pensando nas pessoas que ainda estão morando naquele lugar, elas não têm como ficar dentro de casa porque entrávamos só para dormir. 

E aí eu fico imaginando como fica a saúde mental de pessoas que moram em lugares assim. Não dava para prezar pela qualidade do sono, se tínhamos problemas respiratórios em decorrência das condições do lugar. Então, hoje, eu digo que o privilégio de várias horas de sono nós conquistamos nesses últimos três anos, assim como estarmos seguros e bem alimentados. A minha saúde mental é outra, é completamente diferente. Quando os médicos dizem tem que dormir bem, comer bem e fazer exercícios, eu penso que isso ainda é tão inacessível.

A Veronica mencionou a questão da vulnerabilidade de populações em situações de um risco maior. Recentemente, foi publicado um trabalho, ainda em pré-print, sobre uma modificação física no cérebro por conta da ansiedade. Uma região do cérebro, que a gente chama de amígdala cerebral, aumentou por conta do estresse da pandemia. Então, é fundamental lembrar que as populações mais vulneráveis sofrem mais em momentos tão ansiogênicos como esse e, provavelmente, terão alterações no cérebro. Natália, gostaria que você comentasse sobre a plasticidade do cérebro e como o sono pode, eventualmente, ajudar nesse processo.

Natália. O que a Veronica aponta é uma situação extremamente importante a ser discutida em vários setores da sociedade porque não é de um só indivíduo, mas de vários. A gente precisa de políticas públicas que sejam eficientes para isso. É uma questão de prioridade. Por isso, a bandeira da saúde mental e de políticas públicas que prezam pelo básico tem que ser de todos.  Isso é crucial para adultos e é ainda mais importante para crianças na faixa etária de desenvolvimento, justamente por conta de todas essas questões de classe. 

A promoção de saúde mental é uma coisa que a gente deveria discutir com mais seriedade na sociedade e não só a mitigação dos problemas. A gente fala muito dos transtornos mentais, mas eles surgem na ponta do processo, quando o sistema fisiológico, que é essa adaptação do nosso cérebro para fazer todo esse mecanismo de neuroplasticidade, de recrutar regiões que são importantes para dar conta de suprir um estresse momentâneo.  Isso vai trazer marcas que, muitas vezes, as pessoas têm que conviver pelo resto da vida, estando sempre vigilantes.

Aqui, podemos fazer um paralelo com a gripe espanhola há 100 anos, em que houve um aumento de sete vezes no número de pessoas com transtorno mental nos seis anos logo após o pico da pandemia. Isso exige um tipo de planejamento que a gente deve começar já porque você vai ter um aumento de casos de pessoas com transtornos mentais. E é uma bola de neve também, pois quanto mais ansioso a gente fica, menos a gente dorme e isso acaba gerando ainda mais ansiedade.

Natália. Em questões de políticas públicas, tem uma coisa que é resolver um problema que já está cronificado, pois muitas pessoas vão precisar de medicações, mas é importante lembrar que nem todo mundo vai precisar de medicações por um tempo ilimitado. Há uma questão muito forte do estigma e a Veronica deve sentir isso por ter vivido o que ela viveu. As pessoas não entendem que é uma situação que transiente. Elas pensam que você vai sempre ter essa condição e estar medicada dessa forma. Não necessariamente. A fisiologia e a plasticidade do nosso aparato mental dão conta de várias situações difíceis, mas as pessoas são muito variáveis e cada um precisa ter seu caso estudado individualmente.

Agora, como política pública, é economicamente mais viável a gente fazer a promoção de saúde mental ao invés da mitigação. Uma internação numa situação extrema como a que a Veronica viveu custa bastante para o sistema público de saúde e ela pode ser evitada se o sujeito tiver as mínimas condições de qualidade de vida.  Então, os custos de chegar até a ponta do estresse é muito alto para a sociedade e, principalmente, para esses indivíduos.

Estamos falando sobre políticas públicas, mas tem também a questão individual. A Veronica compartilhou nas redes a batalha por um corpo mais saudável. Você voltou a praticar exercício e passou a controlar melhor o sal e o açúcar na alimentação. Como tem sido esse desafio? 

Veronica. Eu havia engordado cerca de 6 quilos bem no início da pandemia. Foi o prazer de estar em casa e querer fazer comidas como bolo. A casa virou absolutamente tudo. Eu não consigo mais sentir a minha casa como um lugar de descanso porque eu faço exercício aqui dentro, a gente estuda aqui dentro, trabalho, cozinho. Eu não tenho a sensação de chegar em casa para descansar.  Aí, uma amiga havia falado que a pandemia só dá duas opções: ou você se divorcia ou você engravida. Eu, depois de adquirir hábitos saudáveis, entrei para o segundo grupo, mas quero continuar, não posso perder esses hábitos por causa da gestação. 

Eu tive uma dificuldade absurda para reduzir o consumo de açúcar. Nunca usei nenhum tipo de droga, mas meus amigos falavam dos salgadinhos e do açúcar, que eu consumia muito. O esforço para parar é comparável ao de quem está deixando de beber ou de fumar, porque eu chorava, sentia dor de cabeça e passava mal. Foram dias horríveis, mas hoje eu sinto um gosto diferente nos alimentos, percebi uma mudança no meu corpo, que desinchou, passei a beber água. Minha vida mudou muito, da qualidade do sono à percepção dos alimentos.

Veronica, você falou que tinha duas opções, de engravidar ou separar. Mas e a opção de escrever um livro? Conta pra gente sobre o seu livro.

Veronica. Eu já tinha a ideia do livro e comecei e escrever enquanto fazia o trajeto das faxinas, escrevendo no celular, mas não era uma coisa planejada. Até que uma editora entrou em contato comigo e, de repente, passei a ter prazos para entregar capítulos, uma coisa mais estruturada. No entanto, a pandemia me desestruturou completamente, tinha dias em que eu não conseguia escrever, não queria fazer nada. Isso também foi uma coisa que percebi dentro de casa, pois meus filhos também tiveram alterações no sono, na rotina, de não ter vontade de fazer as coisas. O meu filho - que está no espectro autista - também teve muita dificuldade. Mas eu pensei "Não vou exigir produtividade de uma criança de 12 anos, no meio de uma pandemia, sendo que ele é uma criança atípica. Se ele olha e vê que não dá conta, eu também não estou dando conta de tudo".

Nesse sentido, o processo de escrever o livro foi dificílimo, mas ver ele tomar forma é muito parecido com ver um ultrassom, porque você olha e vê que algo está nascendo. Agora, estou em busca de uma árvore para plantar porque só falta isso. 

Como a gente pode ter uma qualidade de sono e de vida melhor na pandemia, momento em que estamos praticamente integrado às telas?

Natália. O sono funciona como um ciclo, ele não é um evento isolado. A gente consegue dormir bem porque se ajusta ao ambiente e à natureza e cicla no período de um dia. Em média, o ser humano fica acordado quando tem luz e descansa quando não tem. Então, por que as telas interferem tanto, sobretudo quando não temos contato com a luz ambiente e o sol? A gente precisa sinalizar para o nosso corpo que está ciclando ainda, que é dia ou noite. A luminosidade das telas de celular, ipad e computador sinaliza para o nosso cérebro que o dia está extremamente longo e o corpo não produz um hormônio que é muito importante, a melatonina. 

“É economicamente mais viável fazer a promoção de saúde mental ao invés da mitigação”
Natália Mota

Uma das coisas que podemos fazer é estabelecer horários. É importante que todas as pessoas cuidem para ter um horário que seja confortável e, uma hora antes de dormir, desligar completamente as telas, tentar fazer uma alimentação que seja leve, evitar açúcar ou bebidas que sejam estimulantes ou ricas em cafeína. Exercício físico e hidratação durante o dia também são extremamente importantes, assim como estabelecer rituais antes de deitar, como tomar um banho ou ler um livro. Ao acordar, também abra as janelas para sinalizar para o corpo que o dia começou.

Veronica, eu queria perguntar sobre o seu filho, o Panda. Como está o sono e os sonhos dele durante a pandemia?

Veronica. A princípio ele tinha muito medo. Em outubro, ele pediu pela primeira vez para ir à rua. Antes disso, apenas uma vez nós descemos e fizemos uma caminhada na garagem do condomínio. Nesse dia, ele dormiu por 13 horas seguidas com muita tranquilidade. Ele está ansioso, com medo de sair e voltar contaminado, é bem metódico com tudo e percebi que ele tá se jogando muito mais nas telas. 

O sono dele é agitadíssimo, de uma forma que não era antes, e durante a pandemia ele passou a usar medicação para conseguir se concentrar nas aulas, coisa que nunca tinha precisado. Eu tenho percebido que ele está completamente diferente nesse período da pandemia.

Natália, fala um pouquinho do seu trabalho de análise de discursos e grafos matemáticos no relato de sonhos, diagnóstico precoce de esquizofrenia e pesquisa de biomarcadores de transtornos psiquiátricos.

Natália. A gente desenvolveu ao longo da minha pesquisa de mestrado e doutorado, algumas soluções para transportar aquilo que o psiquiatra é treinado para fazer durante a entrevista com o paciente para conceitos matemáticos que pudéssemos medir precisamente. Uma das coisas que o psiquiatra percebe é a forma como o sujeito se expressa (além do conteúdo) e isso tem a ver com como a gente organiza os pensamentos antes de dar a resposta para alguma pergunta. Alguns eventos, como contar um sonho, por exemplo, são extremamente pessoais e confusos, além de ter uma forma específica de falar, que expressa a capacidade de organizar uma sequência de eventos e relatar de uma forma que seja compreensível. Mas, algumas pessoas, não conseguem fazer isso e vão perdendo com o tempo essa capacidade de se comunicar, passando para sintomas de afrouxamento de associações, em que a trajetória vai se perdendo até chegar numa salada de palavras aleatórias.

Tudo isso dá uma noção de que a pessoa tem uma trajetória. Por que não, então, colocar as palavras em sequência e transformar esse discurso em grafo, que nada mais é do que uma sequência de elementos? Faz mais de uma década que estamos fazendo esses experimentos e conseguimos caracterizar bem as desordens da forma do pensamento. A gente consegue ver que pessoas que tiveram a oportunidade de ir para escola, são adultas e desenvolveram bem a linguagem conseguem contar a história dos seus sonhos de uma maneira bem complexa, conectando começo, meio e fim. Mas, pessoas que têm esquizofrenia, mesmo que tenham estudado até o nível superior, possuem muita dificuldade de juntar os pedaços da história e vão falando de maneira fragmentada.

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Dessa maneira que a gente organizou, esse software consegue medir precisamente o quanto que a fala está desconectada e isso permite que a gente avalie sinais súbitos dessa desordem, mesmo antes do diagnóstico psiquiátrico. Situações como esquizofrenia, que são muito desafiadoras para a família e para o sujeito, principalmente porque costumam vir cedo e são os adolescentes que têm o primeiro surto, podem causar danos para manter laços sociais.  Então, quanto mais cedo o sujeito souber dessa condição, melhor para prevenir, para evitar medicação em altas doses, para a família, a escola e o entorno entenderem a condição. A gente consegue com essa ferramenta prever o diagnóstico de esquizofrenia com mais de 90% de acurácia, seja em sujeitos crônicos, no primeiro episódio ou mesmo antes dele.

Uma coisa que nos chamou bastante atenção é que as crianças desenvolvem esses marcadores ao longo do tempo e marcadores da conectividade da fala demoram muito tempo para se desenvolver plenamente. Pessoas que estudaram até o segundo grau conseguem falar de maneira organizada, já adultos que são iletrados não conseguem falar com o mesmo nível de conectividade, mas também não falam com o grau de desconectividade de uma pessoa que tem esquizofrenia. Mais um ponto: precisamos cuidar da escolaridade adequada e da prevenção de sinais de cronificação para quem tem essa desordem. Também precisamos falar do fator social para explicar os transtornos mentais. Muitas vezes, a gente pensa que algo relacionado a um transtorno é da biologia do sujeito, mas muitas vezes tem fatores sociais associados e é importante levar isso em consideração sempre.

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