Qual é o futuro do trabalho?

por Redação

Stevens Rehen, a médica e modelo Ana Claudia Michels e a matemática e filósofa Tatiana Roque discutem emprego, propósito e renda universal

Muitas profissões e vagas de trabalho que existem hoje devem desaparecer nos próximos anos. É claro que novas ocupações vão surgir, mas provavelmente vão exigir mais flexibilidade, criatividade e constante atualização. Diante desse cenário, como preparar sociedade e indivíduos para um mundo em que uma parcela considerável da população não será empregável? 

Para refletir sobre essa questão, o neurocientista Stevens Rehen recebe no Trip Com Ciência Tatiana Roque, professora do Instituto de Matemática e coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ e vice-presidente da Rede Brasileira de Renda Básica. O papo também conta com a presença de Ana Claudia Michels, que trabalhou a maior parte da sua vida como modelo, mas que, aos 30 anos, voltou aos estudos para realizar o sonho de ser médica. Para ouvir o podcast, clique no play abaixo, ouça no Spotify ou leia a entrevista na sequência.

Stevens Rehen: Ana, você consegue resgatar a primeira memória em que identificou a vontade de ir para a área médica?

Ana Claudia Michels. Eu sempre me interessei muito pelo cuidado quando uma pessoa está machucada, desde pequena. Eu nunca consegui identificar se foi uma vocação ou se fui sugestionada porque as pessoas olhavam e diziam que eu seria uma boa médica.

E na carreira de modelo, como você começou? Eu fiz um curso de boas maneiras – que era comum na época –, mas o foco era totalmente em treinar as mulheres para andar na passarela e se preparar para ser modelo. No encerramento do curso, fui escolhida para encerrá-lo, porque eu andava bem de salto e era extremamente magra, que era o padrão da época. Lá eu conheci uma agência, comecei a trabalhar e quando vi estava completamente imersa nesse universo.

Tatiana, há alguns estudos que demonstram que o gênero gera desigualdade na aprendizagem da matemática em crianças até 10 anos de idade. Como você vê isso?

Tatiana Roque. Essa fase foi determinante para mim porque estudei numa escola construtivista e alternativa, tendo a oportunidade de aprender matemática de uma forma completamente diferente. Para vocês terem uma ideia, eu aprendi as operações (soma, divisão etc.), em todas as bases. Só fui descobrir anos mais tarde que todo mundo aprendia na base 10. Pra mim era uma coisa incrível, era a oportunidade de aprender de modo lúdico e sem nenhuma operacionalização da matemática. Isso foi determinante no meu aprendizado e no meu amor pela matemática. É muito comum ter crianças que amam a matemática e na escola aprendem a odiar a matemática, por culpa principalmente dos currículos, que trabalham a matemática de um jeito muito duro e engessado, em que os alunos precisam demonstrar que conseguem. Talvez por isso exista tanta diferença de gênero: numa sociedade feita para que os homens sejam mais duros e capazes de ultrapassar obstáculos e suportar situações difíceis, a matemática formatada dessa forma é voltada para que homens tenham mais sucesso.

Ana, você alcançou o auge da carreira de modelo. Você se sentia realizada ou já tinha outros interesses?

Ana Claudia Michels. Eu me sentia realizada porque sempre me direcionei a fazer as coisas bem feitas. A partir do momento em que eu vi que a carreira de modelo me traria oportunidades como viajar, aprender novos idiomas e conhecer outras pessoas, eu me propus a fazer aquilo bem feito. Mas, ao mesmo tempo, não era um mundo que me satisfazia totalmente e quando eu via alguma coisa sobre saúde, sobre medicina, meu olho brilhava e pensava que eu poderia fazer aquilo bem. Quando eu vi que tinha atingido os meus marcos de sucesso, as coisas que achava importantes dentro da carreira, eu comecei a ficar um pouco frustrada e a pensar que eu precisava planejar uma profissão para o futuro. Comecei a pensar em coisas que pudesse fazer depois da carreira de modelo e, no processo de terapia, percebi que precisava voltar para o cursinho, reviver aquilo que eu gostava e sentir aqueles sentimentos da época da escola.

Tatiana, você estuda a história da matemática e filosofia da ciência. Explica pra gente o que é isso.

Tatiana Roque. Normalmente, a gente associa a ciência a algumas propriedades, como exatidão, objetividade, precisão, neutralidade, etc. Mas todos esses atributos não se afirmaram como sinônimos de ciência desde sempre, eles se afirmaram dentro de um contexto histórico. Então, na filosofia da ciência, você pega ideias que são associadas à ciência e tenta entender como elas surgiram e como foram criadas essas associações. Por exemplo, objetividade é quase sinônimo de ciência, mas há livros que mostram que esse conceito só se tornou sinônimo de ciência no século XIX. Então, isso é importante porque as noções mudam ao longo do tempo. 

Os trabalhos estão mudando constantemente e queria que você explicasse seu interesse pelas transformações no mundo do trabalho. O que me interessou em particular foi a consequência do impacto da tecnologia na mudança da tecnologia na subjetividade. Porque a subjetividade política está muito relacionada com a figura do trabalhador, já que é ele o sujeito político. Todas as pautas, as organizações da esquerda, os partidos, as formas de mobilização são geralmente associadas ao trabalho como ele foi concebido na fábrica. Mas, quando o paradigma da fábrica é colocado à prova e deixa de ser dominante, tudo isso fica abalado. Por exemplo, hoje, quando a gente pensa nos grandes movimentos de resistência, a gente se questiona se vão ser movimentos de trabalhadores, pois eles não estão mais organizados em sindicatos. Isso muda toda nossa forma de entender a organização e a agenda política, inclusive porque o trabalho é subjetivo, as pessoas se identificam com seu trabalho e, se elas não se vêem mais como parte do coletivo, tudo fica mais individualista.

Ana, você fez a transição das passarelas do Fashion Week para o hospital de Carapicuíba, onde você fez seu internato. Como foi esse choque?

Ana Claudia Michels. O hospital atende uma região carente e temos um contato diário com essa realidade que é muito comum no Brasil. Isso foi muito impactante e pesado, mas com meu trabalho em si eu estava nas nuvens, muito realizada porque era tudo que eu queria. Não vou falar que o trabalho como modelo é menos digno do que a medicina, mas eu aprendi como médica a valorizar mais o trabalho das pessoas que conseguem a partir da arte, do marketing, de qualquer tipo de trabalho, tornar a vida mais bela.

Como está sua carreira médica hoje? Eu havia tirado esse ano para dar alguns plantões e estudar para a residência. Mas, devido à pandemia, não consegui fazer os plantões porque eu ainda não era mão de obra pronta para estar nessa linha de frente. Mas, recentemente, fiz minhas provas e passei. Estou muito feliz.

A gente está falando de empregos e queria saber da Tatiana: quais os danos sociais e às pessoas de subempregos?

Tatiana Roque. Historicamente, todos os direitos e garantias sociais que embasam nosso conceito de coletivo surgiram de uma sociedade fundada no pleno emprego. No pós-guerra, fez-se um pacto entre o capital e o trabalho em que se incutiu a ideia de que era possível compartilhar o ganho das indústrias com os trabalhadores. Então, foi criado um sistema com uma série de direitos associados ao trabalho e, consequentemente, a ideia de que tudo que impedisse uma pessoa de trabalhar fosse garantido pelo Estado. Mas esses direitos são pensados para uma sociedade de emprego assalariado. Então, como reinventar esse modelo para uma sociedade em que grande parte das pessoas não são mais assalariadas? Um caminho é seguir lutando e insistindo em empregos assalariados. No entanto, a tecnologia mostra uma tendência de ocupações cada vez mais autônomas e independentes, numa sociedade de serviços e plataformas, sendo necessário pensar a proteção social e os direitos associados à pessoa e não mais ao trabalho assalariado. É por isso que eu defendo a renda básica universal. A gente tem que ter educação e saúde públicas e uma garantia de renda para que as pessoas não precisem trabalhar de dia para comer de noite.

Como você vê esse tipo de discussão em torno da renda básica universal atualmente? Eu vejo com otimismo, por incrível que pareça, porque a gente conseguiu o auxílio-emergencial na pandemia, o que tornou essa pauta da renda básica concreta para a população brasileira. Outra coisa que me anima é que ela foi uma conquista que foi votada com unanimidade no Congresso, unindo diversos campos políticos. Além disso, tem uma perspectiva de médio prazo que é a reforma tributária para tributar mais os mais ricos e menos os mais pobres, e essa tributação poderia financiar essa renda básica universal.

Há quem pense que trabalho dignifica o ser humano e há quem diga que quem inventou essa frase nunca trabalhou na vida. Queria que vocês falassem um pouquinho sobre propósito e sobre a necessidade de sobreviver financeiramente.

Ana Claudia Michels. São poucas pessoas que conseguem ter esse privilégio de trabalhar por vocação e propósito e considero que sou uma delas. Juntei dinheiro como modelo, que foi uma coisa que não planejei, mas que me deu a chance de poder estudar mais tarde e me dedicar pra isso. Eu vejo muitos jovens que têm sonhos, vontade, mas que não têm a oportunidade de estudar porque precisam manter uma casa. Eu adoraria que as pessoas só precisassem de coragem, mas elas precisam de muito mais do que isso.

Tatiana Roque. A identificação com aquilo que você faz é uma situação de muito privilégio, mas quantos podem dizer que têm essa relação de prazer com sua ocupação? É sabido que a relação do emprego não tem esse significado para a maioria das pessoas, que precisam se submeter a um patrão que as humilha, que as trata mal, com contexto de exploração e falta de humanidade. Então, ter um patrão não é uma proposta de um novo mundo. É preciso uma outra perspectiva para renovar a política com propostas que façam essas pessoas sonharem. E uma renda básica é o que permite que elas direcionem seus esforços para coisas que façam sentido.

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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