Paulo Lima
Renan Dissenha Fagundes

por Paulo Lima
Renan Dissenha Fagundes

Em seu laboratório, Stevens Rehen cria e mantém minicérebros. E com a divulgação científica ele quer abrir mentes por todo país

Era sábado de Carnaval no Rio de Janeiro, mas Stevens Rehen estava com alguns colegas no laboratório do Instituto D’Or trabalhando no primeiro de uma série de testes que ajudariam a desvendar a ligação entre o vírus zika e a microcefalia. Naquele dia, em fevereiro de 2016, o neurocientista pingou o vírus em um pouco de tecido neural humano, criado ali mesmo.

Esse e outros testes que Stevens fez com modelos chamados de minicérebros – uma de suas especialidades é criá-los a partir de células-tronco – foram parte de uma mobilização muito maior, que envolveu pesquisadores da Paraíba, de Pernambuco, de São Paulo e do Rio de Janeiro, e colocou o Brasil, naquele momento, na vanguarda da pesquisa mundial sobre zika. “É um caso que vai ficar marcado na história por mostrar como a ciência brasileira é forte e responde rápido a um problema”, ele diz.

A vitória, porém, veio em um momento em que a sorte da ciência brasileira começava a mudar: o governo federal cortou mais de 40% do orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações em 2017, e já prevê um corte de mais de 15% para 2018. “Se a epidemia de zika começasse hoje, a comunidade científica não teria a menor condição de responder às questões que conseguiu responder em tempo recorde”, afirma o cientista.

Stevens gosta de dizer que existe um “analfabetismo científico” no país, um desconhecimento da importância da ciência – principalmente entre os políticos –, que se mostra em entraves burocráticos e em cortes. “Quando você tem as pessoas que definem leis, que definem orçamento, que não têm ideia do que acontece numa universidade, temos o maior problema possível”, ele diz. “Temos que fazer um movimento de aproximar a classe política, ou pra educá-la ou pra constrangê-la.”

Apesar do nome de gringo, Stevens, 46 anos, é carioca, criado entre Andaraí e Tijuca, na zona norte do Rio. “Stevens”, ele acha, foi uma tentativa dos pais – que se chamam Clodoaldo e Márcia – de manter a sonoridade estrangeira dos sobrenomes, Kastrup e Rehen. (A estratégia não se repetiu com os três irmãos: Leonardo, Lucas e Igor.) “A primeira opção do meu pai era Darwin. Fico muito feliz de ele ter desistido pouco antes de eu nascer, porque provavelmente eu iria acabar desistindo de fazer ciência”, ele ri.

EXPERIMENTO SONORO
Mas a ciência não veio cedo na vida do futuro cientista. O primeiro sonho de carreira era ser jogador de vôlei. Depois, Stevens enveredou pela música, como percussionista das bandas Tyrannosaurus Reggae e A Mula Rouca. Às vésperas do vestibular, ainda estava na dúvida entre comunicação e veterinária, mas acabou na biologia.

Uma das coisas que o influenciaram na decisão foram revistas de divulgação científica – “Basicamente a Ciência Hoje e a Superinteressante. Era o que tinha pra ler”, diz. Tanto que Stevens acredita muito no poder desse tipo de comunicação: ele tem um blog no UOL; mais recentemente, pôs a cara na televisão como colunista do programa Conversa com Bial, da Globo; e, para 2018, está preparando o seu próprio podcast. E ele ainda é parte do projeto ArtBio, que faz exposições com imagens que parecem obras de artes, mas são na verdade resultados de pesquisas. “A ideia desse tipo de ação é sempre tentar levar a ciência para pessoas que numa situação normal não iriam procurá-la”, diz.

Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde estudou da graduação ao doutorado, Stevens, desde 2014, é o chefe de pesquisas do Instituto D’Or, um instituto de pesquisa fundado e financiado pelos donos da rede de hospitais D’Or São Luiz. “Torço muito para que essas iniciativas se multipliquem, mas isso não resolve o problema da ciência brasileira, que precisa, como qualquer ciência do mundo, de um investimento público também”, afirma o cientista, que falou com a Trip em dois momentos: no estúdio do Trip FM, em São Paulo, em um papo com o editor Paulo Lima, e depois por telefone, do Rio de Janeiro.

Trip. Muito se fala, em círculos de tecnologia, da ideia de singularidade, de que vamos nos unir com a máquina. Uma outra visão para o futuro é mais orgânica: alterações genéticas para criar humanos melhores, que vivam mais. Você acha que o futuro é mais biológico ou mais computadorizado?

Stevens Rehen. Acho que vamos fundir, inclusive, essas tecnologias. A gente viveu, e vive ainda, um desenvolvimento tecnológico muito acelerado. Só que ao mesmo tempo, nos últimos cinco anos, está acontecendo muita coisa em termos de capacidade de manipulação genética. Já tem até esses chamados biohackers, que estão fazendo manipulação genética em si mesmos. Eu acho que no futuro vamos estar de fato trabalhando esse conceito de singularidade. Talvez não, a médio prazo, uma transferência direta da consciência pra máquina, mas de certa maneira a gente já se fundiu com a máquina, né? Pelo menos com o celular. E ainda mais agora com a ideia dos wearables, de ter tecnologia grudada no seu corpo, ou implantada no seu corpo. Isso vai acontecer. A gente não consegue frear, seja a tecnologia ou a biotecnologia. Mas isso não me assusta.

Você é otimista? Não sei se otimista ou se realista. Eu vejo o homem hoje em dia melhor do que era no passado. É claro que assusta pensar que somos muito diferentes de um cara de 1900, não só em relação à expectativa de vida, mas em relação a outras possibilidades também. Quando você pensa, por exemplo, como podemos juntar pessoas através da internet. Tem grupos improdutivos de WhatsApp, mas tem outros em que a gente resolve um montão de coisas que dez anos atrás seria impossível. Sou realista, mas penso que vamos ter muito mais prós do que contras dessa fusão com a máquina e dessa capacidade de manipulação genética. Eu acho que é inevitável, mas que vai melhorar a gente.

A inteligência artificial está colocando em xeque muitas profissões, e até a forma como a gente se relaciona com a ideia de trabalho. Isso não é um problema? Temos que aproveitar essa oportunidade e utilizar a inteligência artificial para, inclusive, melhorar a própria relação das pessoas com o trabalho. Veja a situação, por exemplo, do Japão, que tem muitos robôs e isso não é necessariamente ruim. As pessoas vão ter, em tese, liberdade para criarem mais. É claro que a situação do Brasil preocupa. O pessoal chiou à beça com a coisa de eliminar a profissão de frentista, de trocador de ônibus. São questões, porque nossa sociedade precisa avançar mais. Mas não temos a menor ideia de como vão ser as profissões daqui a 20, 30 anos. Não adianta se prender a determinado ofício. O que você tem que ensinar para os jovens é inteligência emocional, capacidade de relacionamento, resiliência. O resto a gente vai ter que esperar.

Como foi a sua vida escolar? Você vivia nos livros? Acho que tive uma infância e uma adolescência bastante equilibradas. Nunca pensei muito no que ia ser quando crescesse, mas a minha primeira ideia, uma utopia que eu tinha, era ser jogador de vôlei. Era quase um sonho, mas que me ajudou muito porque me manteve dentro da disciplina do treino, e isso é importante em determinada fase da vida. Cheguei a me federar e joguei uma vez contra o Nalbert – ali percebi que tinha que fazer outra coisa [risos]. Mas foi crucial pra mim, porque o vôlei é um esporte que não tem como jogar sozinho, como fazer tudo. Não adianta ter um Neymar no vôlei. Um cara vai receber, outro vai levantar, um outro vai cortar. Isso na ciência é crucial, porque a ciência é uma construção coletiva de conhecimento.

E sua carreira de surfista? Como foi? [Risos.] Quando me mudei para a Califórnia, falei: “Pô, tenho que aprender a surfar”. Mas não ia ter tempo pra aprender. Sou fascinado por surf, mas sempre foi uma coisa muito complexa pra mim. Um amigo meu, Fernando, do Rio, me disse que o Ron Romanosky, um dos criadores do surf de joelho, o kneeboard, morava perto de mim. Encomendei uma prancha com ele e aquilo salvou meu surf na Califórnia. Foram seis anos surfando três vezes por semana, pegando tubo e tudo, sem precisar aprender a ficar em pé. Eu ficava de joelho e era muito feliz.

O que você foi fazer na Califórnia? Fui para me aprofundar numa questão do meu doutorado: por que na formação do cérebro muitas células precisam morrer. Dependendo da região do cérebro, até 70% das células que nascem, morrem, e isso é um processo natural. É como esculpir uma estátua. Você tem que lapidar, retirar o excedente da massa, para terminar a escultura. Fiquei dois anos e meio fazendo pós-doutorado na Universidade da Califórnia em San Diego, e depois fui contratado por um instituto, o Scripps, sempre trabalhando nessas questões relacionadas à formação do cérebro.

Por que resolveu voltar? Eu fui muito feliz na Califórnia, tenho saudade, mas nunca saiu da minha cabeça a ideia de voltar pro Brasil. Foi uma coisa meio natural. Eu via a possibilidade de fazer uma ciência legal aqui. Ao mesmo tempo, eu e minha esposa estávamos querendo ter neném, e achamos que ia ser mais legal ter aqui, junto dos amigos de mais longa data, da família.

A sua mulher é cientista? Há quanto tempo estão casados? Estamos morando juntos desde o ano 2000 e casamos em 2003. Ela é cientista também, trabalha com a parte de câncer, de oncologia. A gente foi junto pra Califórnia quando éramos namorados, meio por acaso. Eu estava atrás de locais que podiam me ajudar a responder minha questão, e ela estava procurando onde fazer uma parte do doutorado. Acabamos convergindo para San Diego. Foi até curioso: no começo ela queria que a gente fosse, mas não necessariamente juntos. Eu ia morar num lugar e ela, em outro. Mas quando ela viu o preço das coisas lá... [risos]. Acabamos morando juntos e funciona até hoje.

Quantos filhos você tem? Tenho dois, uma menina de 9 e um menino de 5.

E como você equilibra a vida em casa com a rotina de pesquisador? É um pai presente? A pergunta do pai presente é sempre relativa, né? Eu acho que poderia ser muito mais presente, mas ao mesmo tempo acho que tenho uma sintonia muito grande com eles. De manhã, sou eu e minha esposa arrumando os dois para escola. Penteio o cabelo da minha filha, escovo os dentes do garoto. É minha conexão diária com eles – que é pequena, dura meia hora. No fim de semana, tento ter uma integração maior. Claro que viajo bastante, mas, sempre que é possível, busco levá-los, ou levar um deles. Fui dar uma palestra em Pernambuco, fui pra Recife e depois pra Garanhuns, e levei minha filha. Fui pra Santa Bárbara na Califórnia e eles foram. Eu tento conciliar. E tenho uma rotina em que o trabalho está muito misturado com a vida pessoal. Não vejo o trabalho como um trabalho. Tem uma questão de criatividade, e essa criatividade não tem hora pra começar.

Falando em criatividade, você também foi percussionista por um tempo. Tive uma banda que depois virou uma outra banda, A Mula Rouca. A gente chegou a tocar no Circo Voador, gravamos um CD [o disco, de 1999, se chama Pastando na grama do vizinho e não está disponível nos sites de streaming]. O meu irmão [o antropólogo Lucas Kastrup], que na época era roadie da banda, hoje em dia é músico profissional da Ponto de Equilíbrio, que é uma banda de reggae que faz um trabalho importante aqui no Brasil.

Você ainda faz música? A música está muito menos presente hoje. Quando meu irmão vai lá em casa, a gente acaba fazendo um sonzinho. De vez em quando ligo um som mais alto e fico tentando tocar. Minha filha faz flauta na escola, então a gente brinca um pouco. Mas é praticamente nada. E disso eu sinto um pouco de falta. O que eu tô tentando fazer, e que está me fazendo bem, é exercício físico. De manhã, depois que meus filhos vão pra escola, eu faço alguma coisa. Então não estou todo imerso em ciência.

Mas quando foi que você enveredou para a ciência nessa vida de jogador de vôlei e de percussionista? Já com 20 e poucos anos. A ciência em si foi entrando na minha vida meio aos poucos. Gostava de estudar, tinha um interesse genuíno por aprender, mas não especificamente sobre biologia, muito menos sobre neurociência. O que aconteceu é que no ensino médio eu comecei a namorar uma menina cujo pai era cientista. Então aquilo me ajudou a desmistificar a ideia de que o cientista é um cara inatingível ou um cara esquisito. Esse foi o primeiro divisor de águas. E na época de decidir o vestibular, perguntei para um amigo meu, que hoje é diretor da Fiocruz, o Milton Moraes, o que ele ia fazer. Eu estava entre comunicação, veterinária… Ele disse: “Cara, vou fazer ciências biológicas”. Falei: “Ah, vou tentar também”. Aí acabei passando em biologia. Fui para a Unicamp primeiro, mas torci o pé jogando vôlei, voltei pro Rio e acabei ficando na UFRJ, onde eu me formei.

O que você pensa sobre a situação do ensino superior no Brasil? Há uma crise gravíssima na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, por exemplo. Não é tão grave na UFRJ, mas as federais também têm sofrido com falta de verba. Quando você tem pessoas que definem leis, que definem orçamento, que não têm ideia do que acontece numa universidade, seja em relação a ensino, seja em relação a geração de conhecimento, temos o maior problema possível. Temos que fazer um movimento de aproximar a classe política, ou pra educá-la ou pra constrangê-la. E outro movimento que temos que fazer é trazer a celebridade. Quando a Gisele Bündchen fez uma crítica ao Temer sobre a questão do Renca [a extinção da Reserva Nacional do Cobre e Associados, na Amazônia], ele respondeu. A gente não consegue botar um cientista dando uma tuitada e o Temer responder. Precisamos ter do nosso lado essas pessoas que já têm uma influência global. Claro que outras formas de pressão já estão acontecendo, mas eu acho que essas duas – educar cientificamente a classe política e os formadores de opinião – vão ser mais eficazes.

O governo federal promoveu este ano um corte de mais de 40% no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e já prevê um corte de mais de 15% para o ano que vem. Estamos em um momento ruim para a ciência? Em termos de ciências, não. Temos excelentes pesquisadores, e instituições que têm tudo pra arrebentar. Mas estamos dentro de uma situação de burocracia que extrapola a ciência – na verdade, ela está em todos os campos, e isso contamina a ciência. Não é um problema recente. Tem um texto do José Reis, que foi um divulgador da ciência das décadas de 40, 50, denunciando como a ciência poderia avançar mais se não houvesse tanta burocracia. Essa é uma questão que se arrasta até hoje. Por conta de ignorância e desconhecimento sobre o que é a ciência, da importância da ciência pro país, os governos acabam tornando as coisas burocratizadas. E isso acaba tendo uma relação direta com cortes.

Uma outra saída poderia ser a iniciativa privada se mover nessa direção? Você trabalha em um instituto, o instituto D’Or, que foi criado por pessoas da iniciativa privada. Há pouco foi divulgado que o João Moreira Salles investiu em um projeto grande de fomento à ciência. Acho que é muito importante incentivar a iniciativa privada em ciência, mas um ponto que eu queria ressaltar, antes, é que o investimento público é essencial. No caso especificamente do instituto D’or, da rede D’Or São Luiz, com o Jorge Moll, o Jorge Moll Neto, a Fernanda Tovar Moll, tenho experiências muito boas. Eles são pessoas que têm formação médica, que têm essa vibe de fazer ciência, e são pesquisadores muito conceituados também. A proposta do instituto D’or é ser um instituto em que a gente gera conhecimento. A proposta do João Moreira Salles, no Serrapilheira, é um instituto que financia a ciência, que também é algo essencial. Torço muito para que essas iniciativas se multipliquem, mas isso não resolve o problema da ciência brasileira, que precisa, como qualquer ciência do mundo, de um investimento público também.

Você disse que o Brasil tem excelentes cientistas e instituições muito boas. Mas será que vamos continuar tendo? As decisões do governo de diminuir o orçamento da ciência e da educação superior podem impactar o futuro da ciência nacional? Já estão impactando. Nosso maior problema, agora, é a geração que estamos formando. Como sou mais velho, comparando com quem está fazendo pós-graduação e graduação, já passei por outras situações complicadas. Minha geração é mais resiliente. Então temos que tentar segurar a geração que está vindo, para ela não desanimar ou ir para fora, o que seria uma perda muito grande. Temos um problemaço em relação a isso. Outro problema é que, por ignorância ou por não estar na agenda política de ninguém, existe um risco de um desmantelamento completo da ciência e tecnologia no Brasil. Por exemplo, se a epidemia de zika começasse hoje, a comunidade científica não teria a menor condição de responder às questões que conseguiu responder em tempo recorde. O Brasil foi liderança nessa área de geração de conhecimento, mas porque a gente trabalhou com o que tinha sobrado de dinheiro do período passado, uns dez anos que tivemos de investimento bastante razoável em ciência no Brasil. A gente estava trabalhando com a xepa desse dinheiro.

Como foi essa mobilização? Isso é um caso muito importante, que vai ficar marcado na história, por mostrar como a ciência brasileira é forte e responde rápido a um problema. O vírus zika tinha chegado ao Brasil, e o número de casos de microcefalia estava aumentando, mas ninguém sabia se o vírus causava microcefalia. O que aconteceu foi um encontro de pessoas com formações científicas complementares: tinha o pessoal na linha de frente, recebendo as mães grávidas – a Adriana Melo, o pessoal da Paraíba, de Pernambuco –, que começou a correlacionar isso; teve depois o Paolo Zanotto, em São Paulo, e o Amilcar Tanuri, no Rio, que são virologistas; teve a Patrícia Garcez e outras pessoas que já trabalhavam com microcefalia. A gente se juntou e começou a conversar.

E o que você fez? Os modelos com que eu trabalho, que são modelos de tecido neural humano criado em laboratório, passaram a ser muito úteis nessa questão. Lembro que o primeiro teste que fizemos – eu, Patrícia e um pessoal do laboratório – foi no sábado de Carnaval. Conseguimos o vírus com o Amilcar Tanuri e literalmente pingamos o vírus em cima de neurônios que criamos a partir de células-tronco. O que vimos ali, primeiro, foi que havia infecção. A gente nem sabia se infectava ou não infectava, mas vimos que havia uma destruição muito rápida desse tecido. Depois, usando os chamados minicérebros [estruturas que medem até 5 milímetros], mostramos que havia uma queda do crescimento em torno de 30% a 40%, dependendo do momento da infecção – o que confirmava, de certa forma, a microcefalia como consequência dessa infecção. Em paralelo, a Fernanda Tovar Moll e outros colegas, de São Paulo, da Paraíba e de Pernambuco, começaram a estudar em imagens as características anatômicas da doença. E em parceria com a Fiocruz, com a UFRJ e o pessoal do Thiago Moreno e do Fernando Bozza, a gente identificou medicamentos que podem ser utilizados pelas próprias mulheres grávidas. A coisa foi mapeada, buscou-se soluções. Isso mostra que há formações complementares no Brasil, tudo feito aqui, e que somos capazes de responder a uma questão dessa. A ciência brasileira é forte, tem uma galera aqui fazendo uma coisa incrível, só que, óbvio, o governo tem que enxergar isso.

Em que casos a ciência já entendeu como usar a célula-tronco pra de fato zresolver determinado problema? Você tem várias possibilidades que já surgiram, e algumas já são até realidade. O transplante de medula óssea, que é feito em vários casos de câncer, é um tipo de terapia com células-tronco. E o que está avançando muito, com resultados muito interessantes, é usar a célula-tronco para identificar novos medicamentos. Em outras palavras: em vez de você testar medicamentos em um indivíduo, você pega as células daquele indivíduo, coloca num laboratório e testa milhares de possibilidades.

Como funciona isso? Dois anos atrás, por exemplo, foi feito um estudo desse tipo com pacientes com esclerose lateral amiotrófica, que é uma doença gravíssima sem nenhum tratamento. Eles pegaram células-tronco, transformaram nos chamados neurônios motores – que são os neurônios que acabam morrendo na doença – e testaram tudo o que você possa imaginar. Descobriram que um medicamento que é usado para epilepsia tem um efeito muito bom. A partir desse resultado, estão testando o medicamento em pessoas. Era uma coisa inimaginável tratar esclerose com um antiepilético. Essa ferramenta acelera muito a descoberta de novos medicamentos. Isso já é realidade.

Você já fez alguma pesquisa sobre meditação? Não, nunca fiz, mas estou cada vez mais interessado nisso. A gente vive uma situação em que a tecnologia entrou tão rápido na nossa vida que estamos perdendo a capacidade de foco e de atenção, e com isso ficamos muito cansados. Eu acho que a meditação está vindo, está sendo descoberta por muitas pessoas que talvez nunca tivessem pensado em meditação, como uma forma de se reequilibrar nesse mundo cada vez mais tecnológico e mais corrido. Tem uma overdose de informação que está atropelando nossas conexões nervosas.

Você é carioca, criado em alguns dos bairros mais clássicos da cidade, Andaraí e Tijuca. Como encara a situação do Rio de Janeiro hoje, com o aumento da violência e a quase falência do estado? Essa situação é consequência de duas coisas: da corrupção instaurada em todos os níveis do poder público, e de uma teimosia em não lidar com a questão da violência – que é consequência de uma política antidrogas completamente irreal. Uma das formas de revitalizar a cidade seria, por exemplo – e isso não fica exclusivo à esfera Rio –, trabalhar a questão da legalização das drogas, começando pela maconha. Se a gente não fizer isso, vai continuar na escalada de violência. É triste pela cidade, e ao mesmo tempo é muito conflitante para quem é carioca, para quem escolheu morar no Rio. O potencial do Rio é incrível. Poderia ser uma Califórnia sul-americana. Tem como ser – eu espero que ainda seja – um hub de ciência, um hub de biotecnologia.

Você acha viável a legalização de mais drogas além da maconha? Eu acho que sim. Quanto mais converso com pessoas que estão na linha de frente, que lidam com dependentes, mais vejo que o impacto maior de qualquer droga está na violência que ela gera. Em termos de população, obviamente. Uma pessoa que se torna dependente química tem um problema, mas em termos populacionais, a descriminalização e a legalização teriam um efeito muito melhor para a sociedade do que a proibição. Claro que a gente vai perder pessoas, como já perde para o álcool, como já perde para o tabaco. Só que a maneira como a sociedade lida com isso é completamente diferente. E pensando também em captação de dinheiro para o próprio estado, não vejo solução diferente que não passe pela legalização das drogas – começando com a maconha, porque é um modelo de negócio que já está mais claro.

Você já escreveu como colunista para revistas e sites e agora tem participado do programa Conversa com Bial, da Globo. Como é para um cientista botar a cara na TV? Está sendo muito divertido. Uma das minhas influências em fazer ciência veio do que havia na época como divulgação científica. Basicamente duas revistas: a Ciência Hoje e a Superinteressante. Era o que tinha pra ler, eu esperava na banca de jornal a revista chegar. Então vejo a importância da divulgação na minha vida, e para o país. Ou o que o Carl Sagan fez nos Estados Unidos, a influência que teve em milhões de pessoas. Isso acaba me inspirando, então por mais que no começo tenha sido um pouco dolorida essa exposição, hoje em dia acho extremamente importante.

Já pensou em produzir um programa de televisão próprio, como o Cosmos do Carl Sagan – ou, mais moderno, um canal no YouTube? Isso certamente está no meu radar. Estou começando devagar, até porque ainda tenho uma responsabilidade e uma motivação grande com a ciência em si, e isso consome muito do meu tempo real. Por mais que eu acabe dormindo pouco. O canal que o Pedro Bial me deu já é uma coisa que toma um tempo, mas que é bem legal porque tem uma repercussão grande. Eu vou começar com um podcast, que é algo que é mais fácil de fazer. A minha ideia é, ano que vem, fidelizar as pessoas dentro da ideia de podcast. Conforme isso for ganhando força, vou partir pra outros voos, com YouTube ou com outras possibilidades também. Eu gostaria – isso é uma questão de ambição e motivação pessoal – de ter outros canais para falar de ciência. Tem muita gente fazendo, mas a quantidade ainda não é suficiente para o tamanho do Brasil.

Créditos

Imagem principal: Jorge Bispo

matérias relacionadas