por Bruna Bittencourt
Tpm #178

Leca Guimarães trabalha enquanto os outros se divertem: diretora do Lollapalooza, ela nunca cogitou trabalhar com música, mas hoje roda o mundo à frente das seis edições internacionais do festival

Não peça a Leca Guimarães por fotos dela com grandes nomes na música. Apesar de trabalhar com os maiores deles (de Pearl Jam a Red Hot Chili Peppers), ela nunca pede por um clique. No máximo, posta em seu perfil do Instagram um set list do LCD Soundsystem aqui, outro do Foo Fighters ali. Mas sobram fotos dela em aeroportos e trabalhando nos bastidores do Lollapalooza, maior marca de festivais do mundo. Leca, 38 anos, é diretora das seis edições do festival americano realizadas fora dos EUA – a brasileira rola em São Paulo entre 5 e 7 de abril e tem o rapper ganhador do Pulitzer, Kendrick Lamar, entre suas principais atrações.

Na prática, seu trabalho vai da planta do festival até a aprovação de patrocinadores ou a seleção de um novo país para sediar o evento, que reúne mais de 2 milhões de pessoas pelo mundo. E também requer, muitas vezes, ir para a linha de frente durante o evento, seja para ajudar a evacuar o público por conta de uma tempestade no Lolla Chicago, seja para scanear o ingresso de 4 mil pessoas, durante seis horas, debaixo do sol, para amenizar a fila do Lolla Berlim, sem falar alemão. E enquanto nas edições latinas do evento ela lida com problemas como segurança ou burocracia, nas europeias a questão é o terrorismo.

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“É engraçado, as pessoas me perguntam, mas nunca tive um plano, deixei a vida me levar. Nunca imaginei trabalhar com música ou morar fora”, conta Leca, em uma passagem pelo Brasil. Há quatro anos a paulistana vive em Austin, no Texas (EUA), onde fica a sede da C3 Presents, a produtora de eventos à frente do Lolla, entre outros festivais.

Voltando algumas casas nesse percurso sem planos: na faculdade, Leca fez dois anos de desenho industrial, mas abandonou o curso. Foi para Miami, onde se formou em fashion merchandising. Mas aí entendeu que moda para ela era gosto, hobby, e não trabalho. Retornou ao Brasil, fez dois anos de artes plásticas, largou de novo e abandonou de vez a vida universitária. Na sequência, em 2006, foi trabalhar no lançamento de um shopping de luxo paulistano. “E foi por causa desse trabalho que vim parar na música.”

Missão dada

Para a campanha de lançamento, o shopping queria a atriz Sarah Jessica Parker. Mas, para encontrar seu assessor e fazer o convite à atriz, teriam que pagar alguns milhares de dólares a uma advogada nos EUA. Ouviu um “acha ela!” do chefe. Se virou: mandou um e-mail para a figurinista Patricia Field, que trabalhou com Sarah Jessica na série Sex and the city e descolou o contato do assessor da atriz, que também representava Al Pacino e George Clooney.  “Acho que eu tô falando com alguém importante”, disse ao chefe. Como Sarah Jessica não podia vir ao Brasil por conta do lançamento do primeiro filme derivado da série, lá foram eles fotografar a campanha em Nova York. Coube também a Leca (com colaboração da polícia local) a tarefa de 
fechar ruas com fachadas que se parecessem com a do shopping para dar a ideia de que a atriz estava no Brasil. “E eu desacreditada, aos 25 anos”, lembra, rindo.

Um dos trabalhos seguintes foi em uma agência de eventos. O chefe, que não falava bem inglês, precisava de uma pessoa em que confiasse e que dominasse a língua. E incumbiu Leca do festival F1 Rocks, que, em 2010, trouxe Eminem pela primeira vez ao Brasil, além do trio N.E.R.D, de Pharrell Williams. “Um mês e meio antes, na cara e na coragem, falei para o agente: ‘Nunca fiz isso, me ajuda que eu te ajudo’.” Leca acabou se dando bem com ele, mas, no dia do show, São Paulo sofreu um dos seus típicos dilúvios – juntou água até nos pratos da bateria. “Queimou a fiação, queimou telão, queimou tudo, o palco pegou fogo.” Mesmo assim, Eminem quis cantar para os 16 mil fãs que o aguardavam. “Ele podia morrer, não precisava ter feito o show.”

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O tal agente é primo de um dos fundadores do Lollapalooza, que fazia sua primeira edição no Chile. Aproveitaram o embalo e perguntaram à agência se queriam trazer o evento ao Brasil. “Mesmo que eu não tivesse experiência nenhuma com show business, achei que eu poderia me dar bem, do mesmo jeito que aconteceu com o Eminem.” E a primeira edição foi realizada em 2012.

O Lolla acabou mudando de produtora no Brasil, houve o convite para Leca ficar, mas ela preferiu ir trabalhar em projetos para grandes marcas e trouxe ao país, entre outros nomes, Giorgio Moroder (um dos criadores da disco music e produtor dos álbuns mais clássicos de Donna Summer). Mas a equipe gringa continuou a procurando para fazer consultas informais sobre o festival. Em 2014, convidaram Leca para trabalhar em Austin, sede da C3, como diretora global de festivais internacionais (a edição pioneira do Lolla, em Chicago, é comandada pelos fundadores da companhia). E lá ela está até hoje. “Sempre fui muito curiosa, ia ler, estudar, ia atrás, achar teoria para embasar a minha teoria. Acho que foi totalmente orgânico”, conta.

A adaptação nos EUA não foi fácil. “Semana sim, semana não, eu queria ir embora. Tinha um monte de gente na empresa que falava ‘quem é essa aí?’. Eles mal sabiam o que fazer comigo. Precisavam de ajuda, só não sabiam como.” Leca foi sentar no corredor, em um canto. Mas começou a ganhar seu espaço, criou um departamento das edições internacionais do Lolla, além de outros festivais da C3 – disse adeus ao corredor e foi se sentar na sala do chefe.

Fora do escritório não foi tão diferente. “Nos Estados Unidos, você cria amizades no trabalho, mas, quando a carreira de um começa a brilhar mais do que a do outro, fica esquisito”, conta. “A vida é mais solitária do que no Brasil. Tenho menos amigos que antes, mas qualidade é melhor que quantidade.” Solteira, Leca namorou nos EUA um colega de trabalho. “Brinco que a gente acaba se reproduzindo em cativeiro.” Ela mora sozinha em uma parte tranquila de Austin: “Diferente de Nova York, onde as pessoas estão de mau humor e mal te dão ‘oi’, você chega no mercado e a moça bate papo com você como se te conhecesse da vida inteira. As pessoas se sentam na porta de casa, te cumprimentam na rua. Não tem balada fancy com champanhe. Por mais que seja no Texas, é uma cidade superlegal, é democrata, super liberal”. Mas vira e mexe, ela pega um avião nos fins de semana para visitar algum amigo na Flórida ou na Califórnia.    

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Para Leca, existe um movimento hoje na indústria (tão masculina) da música de valorizar as mulheres. A C3, conta, é 70% feminina e a maioria das chefes de departamento são mulheres. “Não é uma diretriz, foi um acaso. Temos um CEO homem que acha que mulheres são mais detalhistas. A gente é mais chata no detalhe. Do mesmo jeito que o homem tem mais guts [coragem] na hora de comprar briga, a mulher consegue olhar mais o todo”, opina, misturando inglês e português. “E eu sou uma pessoa que tem o lado mais masculino de olhar as coisas, bem menos emocional, o que me faz prevalecer onde estou.”

O trabalho exige que ela rode o mundo, mas Leca anda querendo ficar em casa. Em um mês, chega a passar duas semanas fora. “Tenho um desafio de montar outros festivais que não o Lolla. Quero montar uma equipe para ir tocando o festival.” O retorno, conta, está na plateia: “Depois de todo o perrengue, acho incrível ver 70 mil pessoas sorrindo em frente ao Foo Fighters. É o que me faz feliz de fazer o que eu faço”.

Ainda que seu currículo de shows seja extenso, ela guarda alguns inéditos: não viu até aqui Bruce Springsteen, Patti Smith, Dolly Parton e, entre os nacionais, Caetano Veloso acompanhado dos filhos e os Tribalistas, atrações (oportunas) das edições argentina e brasileira do Lolla neste ano. O problema é que, por conta do volume de trabalho, ela nunca consegue ver as apresentações na íntegra. Ossos do ofício.   

Voa, Leca

Por Ricardo Guimarães
P.S.: Eu não contei para ela que você me pediu esse texto. Vamos fazer surpresa?

Cara Bruna,
Estou muito curioso para saber o que vocês vão escrever no perfil da Leca, minha filhota querida do coração.

Eu chamo a Helena de Leca, Lequinha, Lelê, filhota, porque a primeira impressão que ela passa é de uma mulherzinha mignon, magra, pequena como sua mãe, supergostosa de abraçar apertado e de ficar achando que se está protegendo um ser frágil e delicado. #sqn!

Leca é enorme, forte, fera, guerreira e determinada, cheia de surpresas e paradoxos. Não pense que a clareza como expõe suas ideias e estratégias significa que ela é uma pessoa simples e fácil de se entender.

Ela vive transitando entre opostos com a mesma leveza e velocidade com que vira o planeta para viabilizar o Lolla fora dos Estados Unidos.

Leca, dos quatro filhos, foi quem mais demorou para falar. No entanto, depois que começou, nunca mais parou. Então, quando você a vê em silêncio, não pense que ela não tem o que dizer e prepare-se porque dali vem um monte de opinião cheia de dados, histórias, referências e fundamentos.

Se quiser dar um presente para ela, não se iluda com sua simplicidade tipo jeans-camiseta-sandália porque cada peça tem uma história, um design, um artista e uma artesania que ela curte e sabe usufruir direitinho. O bom desse estilo simples – #sqn – é que, quando você vê algo que tem a cara dela, dá vontade de comprar de tanto que a gente está seguro de que ela vai amar. Isso aconteceu comigo outro dia, quando vi numa vitrine da Alice + Olivia, em Nova York, uma saia com estampa do Keith Haring. Comprei na hora porque tive muita certeza do sucesso que eu ia fazer. Bingo!

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Das oposições mais surpreendentes que habitam aquele corpinho é a Leca baladeira, rueira e a Leca caseira. Ela é da vida, do mundo. Quando nasceu, fizemos seu mapa astral e a astróloga tinha tanta certeza de que a Leca iria viajar muito que recomendou que ela tivesse uma agência de viagens. É verdade, Leca voa fácil. Mas com a mesma facilidade com que faz as malas, ela joga âncoras na sua casinha, raiz que ela plantou em Austin como propriedade de papel passado e tudo. Quando você vê o prazer que ela tem de ficar de pijama, jogada num sofá assistindo nada na TV, tem certeza de que nenhuma balada no mundo a tira dali.

Leca anda em turma, cheia de amigos por onde passa, mas sabe ficar sozinha como ninguém. Dos vínculos que ela cria pela vida, o que mais me emociona é com seus irmãos Ti e Peu e sua irmã Shubi. Eles fazem uma liga linda de dar inveja à mais unida famiglia Corleone. Isso me faz dormir bem.

Talvez esses vínculos sejam justamente o que faz a Leca tão livre e a leve para viajar mundo afora. Mais um lindo paradoxo da minha filhota querida do coração: vínculos que soltam! 

Bruna, obrigado pela oportunidade de declarar publicamente meu amor por essa pessoinha tão grande e tão importante na minha vida.

Bom trabalho. Beijo do papi da Leca, é assim que ela me chama.

Ricardo.

Créditos

Imagem principal: Julia Rodrigues / GQ Brasil

Julia Rodrigues/ GQ Brasil

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