por Laura Reif

De onde vêm as raízes históricas do pajubá, o dialeto LGBT+ que já foi usado como linguagem em código e instrumento de resistência

Conhecido como o dialeto LGBT+, o pajubá (ou bajubá) é muito mais que um punhado de gírias divertidas, como “lacre”, “bafo” ou “uó”. Cada vez mais ele é incorporado ao vocabulário de muitos brasileiros, especialmente ao dos jovens, mas possui raízes históricas e, o mais importante, de resistência.

O pajubá tem origem na fusão de termos da língua portuguesa com termos extraídos dos grupos étnico-linguísticos nagô e iorubá — que chegaram ao Brasil com os africanos escravizados originários da África Ocidental — e reproduzidos nas práticas de religiões afro-brasileiras. Os terreiros de candomblé sempre foram espaços de acolhimento para as minorias, incluindo a comunidade LGBT+, que passou a adaptar os termos africanos em outros contextos.

Neon Cunha, 46, mulher trans e fluente no pajubá, explica que os terreiros — onde os idiomas de matriz africana se mantém vivos ao longo de nossa história — sempre foram espaços de acolhimento para as minorias, tanto para os negros quanto para os LGBTs.

“Mona erê aquenda os ojus, se os alibans cosicarem/aquendarem no corre cosica as endacas pras monas acá deaquendarem.” A frase é pronunciada facilmente pela designer quando perguntada sobre qual a expressão mais marcante do dialeto em sua vida. As palavras na voz dela soam como música, mas o significado não é tão bonito assim. “Novinha, fica de olho. Se os policiais entrarem no ônibus, avise para a gente sumir”, traduz Neon.

“Esse sumir era se esconder. Colocavam a cabeça entre os joelhos, assim ficavam ocultas atrás do banco [do ônibus]”, explica ela. Neon refere-se ao diálogo entre as travestis durante o período da Operação Tarântula, em São Paulo. Era comum escutar o aviso no ônibus que ia de São Bernardo do Campo (Grande São Paulo) à capital paulista durante a noite. Aos 15 anos, testemunhou os efeitos da operação da Polícia Civil que legalizou a prisão arbitrária de travestis na capital paulista.

No curto período de duração, entre fevereiro de 1987 e março do mesmo ano, a ação perseguiu cerca de 300 travestis e mulheres trans. “Eu estava lá. A gente corria do carro pipa, da polícia, da sociedade civil e de todo mundo”, relata Neon, que reforça a importância do pajubá como forma de comunicação em código. “Era a única maneira de garantir a sobrevivência”, afirma. A operação usava o “combate à aids” como justificativa para a perseguição à comunidade LGBT+.

O dançarino Flip Couto, 35, traça a relação dos terreiros com essa parcela da população e o papel das religiões de matriz africana para disseminar o pajubá por meio do acolhimento das minorias. Ele, que é soropositivo, gay e negro, defende que, pelo fato do candomblé enfrentar a intolerância religiosa no Brasil, nada mais natural que abrigar aqueles que são excluídos na sociedade.

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Flip cita especialmente a relação dessas religiões com os soropositivos a partir do fim dos anos 80. “Não tem isso historicamente documentado, mas a gente pode falar que o terreiro acolheu de várias formas as lutas da comunidade LGBT e não é à toa que o pajubá vem com toda essa linguagem de terreiro, de dialetos africanos, com a intenção de proteger”, conta.

Tanto Flip quanto Neon descrevem o pajubá como forma não só de resistência, mas de existência. “Essa comunidade criou ferramentas para, através da linguagem, criar um senso de pertencimento. É um campo para dizer que é nosso. A gente pode conversar sobre o que quiser no metrô, no ônibus, na rua e vamos se entender. É criar um mundo dentro do mundo”, explica ele.

Professora do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo, Silvana Nascimento reforça que o dialeto cria uma noção de cultura. “De um lado, pode ser usado como proteção por meio de inspirações das religiões de matriz africana, que são uma das poucas que incluem pessoas trans e travestis sem julgamentos morais ou preconceitos", explica. "De outro, é uma forma de afirmação identitária entre coletivos que são continuamente marginalizados e violentados.”

O dialeto, que foi tema de questão no Enem em 2018, também está cada vez mais presente em letras de música. “O pensamento de pertencimento através da cultura é urgente. Na cultura LGBT, fico muito feliz que artistas como a Liniker, a MC Linn da Quebrada [que lançou álbum batizado de Pajubá] e Rico Dalasam estão ganhando voz e criando empatia”, diz Flip.

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Para a antropóloga, a questão da travestilidade e da transexualidade atravessa as classes sociais, assim como a violência de gênero. “Há muitas artistas, atrizes e cantoras travestis que não têm sua produção valorizada. Grande parte delas está fora do mercado de trabalho mesmo com excelentes formações, talentos, projetos e experiências. Estão excluídas somente porque se afirmam como travestis ou mulheres trans”, defende Silvana.

GLOSSÁRIO
Lançado em 2006 pelo jornalista Vitor Angelo e do pesquisador Fred Lib, o Aurelia é um dicionário de expressões oriundas do pajubá, que ainda não ganhou um mapeamento que dê conta da extensão do dialeto. Selecionamos aqui as principais:

a - art. def. fem.
No mundo gay, o artigo definido feminino é, em muitos casos, anteposto a substantivos próprios ou comuns do gênero masculino, sendo que, no caso dos comuns, o próprio substantivo passa, quando possível, para o feminino. Ex.: a Pedro, a Mário; a prédia; a fota; a relógia; a dicionária.

aquendar - (do bajubá) v.t.d.,t.i. int.
1- Chamar para prestar atenção, prestar atenção 2- Fazer alguma função; 3- Pegar, roubar. Forma imperativa e sincopada do verbo: kuein!  4- Esconder o pênis  

Bafos - adj.
Termo referente a algo ou alguém que causou alguma coisa. Ex.: aquela noite foi bafo, bi!" 

Bicha-bofes - s.f.
Homossexual não afeminado, mas nem sempre ativo.

Bofes - s.m.
Homem heterossexual ou homossexual ativo.

Irene - adj (Regionalismo: Rio Grande do Sul)
Velho. O termo é pronunciado "ireeeeeeeene"

Jogar o picumã - expr.
Virar a cabeça, mudando o cabelo de lado, tal como as loiras fazem, com a intenção de menosprezar ou ignorar alguém.

Jurando (do v.t. e d.i. "jurar")
Acreditar no hype; se sentindo. Expressão usada unicamente no gerúndio.

Picumã (do bajubá) - s.m.
Peruca, cabeleira, cabelo.

 

Sobre a artista

As ilustrações são da carioca Alice Pereira, autora da série Pequenas Felicidades Trans, em que narra a história de sua transição de gênero em quadrinhos. 

Créditos

Imagem principal: Ilustrações: Alice Pereira

Ilustrações Alice Pereira

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