por Guilherme Henrique

“Conhecendo os Orixás: de Exú a Oxalá”, de Waldete Tristão com ilustrações de Caco Bressane, ensina que orixás são deuses da natureza

“Se você aprende que Zeus é o deus do trovão, por que não pode aprender que Xangô é o deus do trovão e da justiça?”, questiona Waldete Tristão, doutora em educação pela Universidade de São Paulo (USP) e consultora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), durante a conversa com a Tpm.

Se ainda não aprendemos o suficiente sobre a cultura negra, o primeiro livro da educadora, lançado no início de dezembro pela editora Arole Cultural, é um passo significativo para que novos paradigmas sejam apresentados nas escolas brasileiras.

Idealizado há pelo menos 10 anos, o livro Conhecendo os Orixás: de Exú a Oxalá foi adiado por “questões da vida”, diz Waldete. Ela explica que começou a pensar na obra conversando com o filho adolescente. “Ele estudava a mitologia grega na adolescência e, como sempre aconteceu em nossa casa, dei muitos livros pra ele com personagens negros, que falassem da história e cultura afro-brasileira de uma forma que ele não aprendia na escola. Ao estudar os gregos, ele começou a fazer analogias entre Zeus e Xangô, Hera e Oxum, que são deusas da fertilidade. Um dia, brincando, conversamos sobre escrever um livro, e ele se empolgou com a ideia”, afirma.

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A morte do filho Róbson Gil no ano passado fez com que Waldete, em um processo de reconstrução, resolvesse voltar ao projeto literário para dar vasão a inquietações pessoais e profissionais. A união com Caco Bressane, ilustrador do livro, se deu em agosto. “É uma obra com linguagem interativa, para que a criança pudesse perceber que os orixás são deuses da natureza, que estão presentes nas matas, no mar, nos lagos, e que um céu todo esbranquiçado em um dia chuvoso, por exemplo, é a presença de Oxalá nos cobrindo com seu manto sagrado”, ressalta.

Ao longo do livro, as características e particularidades de 17 orixás são apresentadas em suas cores, dias da semana, comidas favoritas e a força da natureza que cada um deles comanda. Para além da curiosidade, o exemplar dialoga com a lei 10.639, de 2003, que torna obrigatório o ensino da cultura afro-brasileira e africana nas redes públicas e particulares, do ensino fundamental ao ensino médio. “Infelizmente, algumas pessoas entendem que essas iniciativas devem partir individualmente das pessoas negras, comprometidas com a militância, dos professores negros. Projetos pedagógicos que deveriam permear todo cotidiano da escola ainda não são uma realidade no Brasil”.

Tpm. Quais foram as inquietações para escrever esse livro?
Waldete Tristão. 
Tem um pouco de pessoal e profissional. Já fui professora, coordenadora e diretora, e sempre entendi que a religiosidade, enquanto cultura, precisa estar presente no cotidiano das escolas, também por ter sido uma criança negra e não se ver representada em livros infantis, em especial no que diz respeito à história e à cultura dos povos negros. Mas eu não sabia direito como fazer esse caminho, juntando religião e o profissional, que não desrespeitasse o estado laico. Infelizmente, meu filho não está mais conosco, mas ele foi uma espécie de motivador e também me deu algumas pistas do quão importante era realizar esse livro. Ele estudava a mitologia grega na adolescência e, como sempre aconteceu em nossa casa, dei muitos livros pra ele com personagens negros, que falassem da história e cultura afro-brasileira de uma forma que ele não aprendia na escola. Ao estudar os gregos, ele começou a fazer analogias entre Zeus e Xangô, Hera e Oxum, e por aí vai. Um dia, brincando, conversamos sobre escrever um livro e ele se empolgou com a ideia. Mas, por causa do mestrado, doutorado, trabalho, a gente foi deixando de lado. Com a partida dele, no ano passado, muitas pessoas me ajudaram, e o Diego de Oxóssi, meu irmão de santo, que tem a editora Arole Cultural, me perguntou se eu não gostaria de escrever um livro. Contei a história do projeto e ele se empolgou, me apresentou o ilustrador Caco Bressane e a obra acabou nascendo naturalmente.

Algo mudou no ensino de temas relacionadas à cultura negra após a lei 10.639, que está completando 15 anos? Como seu livro se encaixa nesse contexto? A lei altera a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da educação nacional, mas essa compreensão de que ela não é uma escolha, uma opção da escola, ainda é frequente no cotidiano. As pessoas não têm a compreensão de que introduzir a história e cultura da África não é fazer opção por um outro paradigma, ou seja, substituir o eurocêntrico pelo africano. É trazer esse paradigma africano para as escolas da educação básica ao ensino superior, porque essa discussão não é pra ser feita só no ensino fundamental ou médio. Ela deve permear toda a escolaridade. Infelizmente, algumas pessoas entendem que essas iniciativas devem partir individualmente das pessoas negras, comprometidas com a militância, dos professores negros da história, da geografia. Projetos pedagógicos que devem contemplar história e cultura de África e dos afro-brasileiros, que ainda não são uma realidade no Brasil.

Como você tem percebido a reação das crianças ao conhecer a história dos orixás?  Existem alguns materiais com essa temática, livros infantis que têm essa intenção. Esse livro foi lançado dia 8 de dezembro, e o retorno que tivemos até aqui é que as crianças estão aceitando muito bem. É uma obra com uma linguagem interativa, para que a criança perceba que os orixás são deuses da natureza, que estão presentes nas matas, no mar, nos lagos, e que um céu todo esbranquiçado em um dia chuvoso, por exemplo, é a presença de Oxalá nos cobrindo com seu manto sagrado. É mostrar uma outra perspectiva, porque eles sabem que Zeus é o deus do trovão. Se podemos aprender sobre mitologia grega, por que não oferecer às crianças e jovens o acesso à mitologia africana? É como eu disse, não queremos substituir um conteúdo por outro. Mas nós vamos aprender sobre os gregos? Então vamos conhecer a mitologia africana.

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Você falou a pouco sobre os gestores e essas iniciativas singulares. Como eles têm trabalhado a questão étnico-racial, seja na escola pública seja na particular? É importante você enfatizar o particular, porque essa não é uma demanda só da escola pública, mas de todas as crianças, em todos os sistemas de ensino. Nós vivemos em uma sociedade que é hierárquica. Por ser hierárquica, na maioria das vezes, a direção da escola define e determina se um conteúdo vai entrar ou não para o projeto político-pedagógico dela. Nem sempre a gestão da escola é democrática. Se um diretor achar que o assunto tem a ver com religião, se houver o racismo, que nós não podemos deixar de lado, não entra no projeto escolar. As religiões de matriz africana são perseguidas também pelo racismo, porque remetem ao povo negro. É uma experiência de povos escravizados, que foram trazidos com a sua história, cultura, culinária, e isso é um componente que não pode ser esquecido quando há essa avaliação dos gestores.  

Sobre as religiões de matriz africana que você destacou, como o livro discute, ainda que não diretamente, a intolerância religiosa dos tempos atuais? A intolerância está presente e afeta as crianças, negras ou brancas, que pertencem a uma religião de matriz africana, como o candomblé. O candomblé preconiza um tipo de iniciação, a utilização de roupas brancas por um certo tempo, e isso tem feito algumas crianças sofrerem. Algumas pesquisas mostram que crianças mentem sobre o seu pertencimento religioso por medo de serem discriminadas. A escola é uma instituição que manifesta o racismo pela voz dos que são intolerantes com aqueles que têm uma religião diferente da deles. Essa obra não é sobre religião, mas as crianças, conhecendo um livro como esse, aprenderão o que são os orixás desde pequenas e também vão perceber quais são suas cores e, quem sabe, diminuir a intolerância religiosa que temos visto atualmente.

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