Juliana Vicente: as novas gerações vão entender os Racionais

por Mariana Ferrari

Diretora do documentário do maior grupo de rap nacional quer ajudar os “pretos desavisados” a se fortalecerem, mostrar evolução e força dos Racionais e extrapolar o racismo e machismo no audiovisual

Juliana Vicente acomodou Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay no sofá de sua produtora, localizada em um bairro nobre da capital paulista, e deu play no primeiro corte do filme que, mais para frente, seria o documentário “Racionais: Das ruas de São Paulo Pro Mundo”. Brown começou a chorar e Ice Blue disse: “agora os meus filhos vão entender o que é o Racionais”. Diferente do que se espera do maior grupo de rap do país, eles abriram mão de opinar em como seria contada a história de suas vidas e entregaram toda confiança na diretora. Ou seja, não foi preciso negociar. A produção, ali, em sua primeira versão, já era o melhor argumento. “Não tem nada mais difícil do que você ver esses quatro caras olhando para você e falando: ‘ta na tua’”, brinca Juliana. Houve somente um pedido especial: “Ju, não vai matar o Racionais". A ideia era não mostrar o fim de um ciclo, mas sim a constante mudança, evolução e força do grupo em todo o Brasil. 

É por isso que Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay não são o início e, muito menos, o fim do documentário que estreou nesta quarta-feira (16), na Netflix. A produção também fala sobre a união preta, a fim de ajudar na elaboração de uma rede de fortalecimento. “Fico pensando no Brasil, mas também na diáspora [a dispersão forçada do povo africano pelo mundo atlântico, especialmente no hemisfério ocidental] como um todo. Acho que os Racionais têm esse papel”.

De fato, sem a união preta, o filme talvez não fosse possível. Além de Juliana, a CEO da Boogie Naipe e esposa de Brown, Eliane Dias, desempenhou um papel essencial para que “Racionais: Das Ruas de São Paulo Pro Mundo” fosse uma realidade. Entre 2013 e 2014, Juliana estava produzindo o DVD dos 25 anos do grupo, ao mesmo tempo em que iniciou a pesquisa para fazer o filme. Ela chegou a dizer ao rapper que já não conseguia mais mexer no material do documentário — meio que entregando a toalha. Foi aí que ela recebeu um telefonema encorajador de Eliane. “Eu falei, então tá, eu quero entrevistar eles”, conta a diretora à Trip. De pouco em pouco, o documentário foi se desenvolvendo. Eliane também digitalizou algumas fitas VHS que estavam guardadas na Boogie Naipe, e o filme nasceu assim, sem parto agendado.

Apesar de estar em um dos principais streamings do mundo, Juliana Vicente, fundadora do Preta Portê Filmes, quer extrapolar continentes e conquistar orçamentos para produzir ficção. É uma barreira a ser derrubada, já que o outro lado, quem tem o poder decisório, segue sendo majoritariamente masculino e, principalmente, branco. 

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Trip. Como foi a negociação com o Racionais?

Juliana Vicente. Na verdade, o que aconteceu foi que fizemos juntos o [clipe da música] “Marighella”. Depois disso, eu conheci a Eliane Dias, que estava entrando para ser a empresária deles — na época do Marighella, em 2012, ela ainda não era. A gente fez algumas coisas juntas para o Racionais, para o Brown e aí veio a turnê de 25 anos do Racionais, que eu filmei. Acabou que a gente se juntou com a Boogie Naipe. Como eu mesma estava indo filmar, a Boogie Naipe me ajudava contratando uma galera das cidades, num esquema bem roots. Fomos montando os vídeos da turnê e, quando terminou, tínhamos um material enorme. Então, decidimos montar um DVD de show. Mas chegou no final e ninguém estava muito feliz, porque não tinha nada planejado para ser esse DVD. Tentamos contar a história da turnê, mas também não era aquilo. Comecei, então, a mexer no material, mas chegou uma hora que falei para o Brown: “Não tá rolando, cara. Não vai dar para mexer nesse conteúdo, acho que já foi”. E aí ele falou para a Eliane: “A Juliana não quer mais”. A Eliane me ligou e disse: “Faz o que você quiser, mas me entrega alguma coisa”. Eu falei, então tá, eu quero entrevistar eles. Fiz as entrevistas, com a Eliane, inclusive, e perguntei tudo desde o começo. 

Então, não foi um acerto de sentar e organizar um documentário? Não, tanto é que eles ficaram muito tempo chamando de DVD. E um belo dia, tinha uma caixa de VHS na Boogie Naipe e a Eliane falou: “Vamos digitalizar”. E falei, oba, deixa eu ver. Aí peguei, já vi, montamos o filme, chamamos eles, dei o play e falei: “com vocês, o documentário do Racionais”. A gente montou uma espécie de teaser. E a primeira vez que o Brown viu a ideia do documentário, ele chorou. Então, quando eles viram, já tinha a estrutura de um filme. 

O que eles falaram na hora, além do choro? Tem uma coisa que o Ice Blue falou que me marcou muito. Quando ele viu o primeiro play, ele disse assim: “Agora os meus filhos vão entender o que é o Racionais”. Então, acho que pegamos a trilha certa. Aí, a partir disso, começamos a negociar. Temos um filme, é isso. Claro, a gente tinha uma estrutura elaborada totalmente sem grana. Ainda precisava deixar o filme mais elegante. O tempo foi passando, mais tarde entrou a Netflix e aí tivemos condição de refazer as entrevistas. Foi super importante, porque era outro momento, e deixou o filme tão elegante quanto eles estão atualmente.

Ao assistir o documentário, fica a sensação de que além de contar a história do Racionais, é um filme sobre a união preta. É isso? Cara, eu sou uma mulher preta. Estudei em colégio particular, em faculdade particular. Eu quase não cruzei com artistas pretos ao longo da minha vida. Posso dizer que os Racionais tenham sido um dos meus primeiros parceiros de artistas pretos pensando juntos. Isso transformou muita coisa dentro de mim. E, com certeza, nós perseguimos essa ideia. O Brown fala que ele faz música para os pretos, eu acho que eu também tenho esse traço: estou fazendo filme para os meus, para a galera preta. O “Afronta” [série que reflete o afrofuturismo] é feito para a galera preta, “Racionais” é feito para a galera preta. Meus filmes também são pensadas para comunicar primeiro com os nossos, consequentemente, a gente consegue falar com outras pessoas.

Há 20 anos, seria muito difícil ter uma diretora preta em um documentário. O que mudou de 20 anos para cá? Quando eu fiz o meu primeiro filme, meu primeiro curta que eu lancei em 2010, eu não conhecia nenhuma diretora preta e mulher. A gente não tinha nem a Ava DuVernay [norte-americana diretora de “A 13ª Emenda” e “Olhos que Condenam”]. Em 20 anos mudou uma porrada de coisa. Agora posso falar um monte de diretora preta. Muito menos que o Brasil merece, mas eu já consigo fazer uma lista imensa de diretoras brasileiras e no mundo. Mas é isso, ainda temos pouquíssimas diretoras que conseguem entrar nesses espaços dos streamings. O espaço da ficção, com orçamentos muito maiores, ainda é uma barreira. Há pouquíssimas pessoas fazendo, talvez a gente continue tendo a Ava DuVernay, que consegue acessar esse espaço para fazer ficção. Sei que é um caminho, uma construção, mas a gente também tem pressa e isso precisa acontecer em uma velocidade muito maior do que o mercado se propõe a fazer. É muito difícil porque a gente segue negociando e o outro lado da mesa ainda é extremamente branco — e bastante masculino também. E vejo que na questão de gênero as empresas estão conseguindo avançar muito mais rápido do que na racial. Sobretudo para os nossos conteúdos. Eu ainda vejo uma série de barreiras para orçamentos maiores. 

E o que precisa avançar ainda mais para os próximos 20 anos? Um documentário escrito, dirigido e produzido por mim. Porque você ainda vai achar diretores pretos espalhados pelo mercado, mas a gente precisa ser criador daquilo que está sendo feito. Isso é fundamental. Uma coisa é ter um diretor preto, um produtor preto na equipe. Outra, totalmente diferente, é ter um time de criadores pretos pensando em um produtor e fazendo o delivery dele. Muda totalmente a perspectiva. Não sei se eu estivesse em uma produtora branca eu teria conseguido fazer esse filme que eu fiz. Até porque a Netflix me deu uma puta liberdade para fazer o que eu tinha de fazer. Meus interlocutores eram a minha equipe, bastante preta, e o Racionais, que são os Racionais, que entraram em pontuações específicas. 

Os Racionais tiveram poder decisório em tomadas de decisões ou confiaram totalmente em você e entregaram o documentário em suas mãos? Não tem nada mais difícil do que você ver esses quatro caras olhando para você e falando: “Ta na tua mão”. Foi meio o que eles fizeram, era até bom se eles tivessem dado mais palpites ao longo do processo. Mas não, eles deixaram as coisas muito abertas. Então, posso dizer que essa visão [do documentário] é uma visão possível dos Racionais, existem muitas que podem ser construídas ainda. Eles são múltiplos. No começo, eles falaram só uma coisa: “Ju, não vai matar o Racionais que o Racionais ainda tá vivo. Não mata no final”. Acho que isso a gente conseguiu garantir, que a coisa segue evoluindo, que eles estão em intenso processo de mudança e crescimento. 

No filme, você trouxe muito bem essa visão de os Racionais estarem em plena mudança. Tem até uma parte que o Mano Brown reflete sobre como as faculdades amaram o álbum “Sobrevivendo no Inferno” enquanto a periferia estava se matando. Como você quer que a galera preta, de quebrada, veja esse filme? É uma pergunta difícil, porque também é particular. Mas tem uma coisa importante: como a gente vai conseguir construir alguma coisa em rede? O desafio da gente é se fortalecer. Fico pensando no Brasil, mas também na diáspora como um todo. Acho que os Racionais fazem esse papel. Eu, nesse filme, tinha o desafio. Os caras só tem discão, tem que fazer funcionar, porque a expectativa estava muito alta, tem muita pressão. A pressão não precisava vir de nenhum lugar, era eu mesma, porque o filme fala com muita gente. É o que o Dexter disse: os caras mudaram o conceito das pessoas sobre elas mesmas. Tem uns pretos que estão meio desavisados, perdidos, de repente, se eles forem tocados pelo caminho do filme vai ser muito bom. 

O que esperar de seus próximos passos? Acabei de lançar um outro documentário, o “Diálogos com Ruth de Souza”. Acho que nesses últimos anos, falamos muito bem sobre muitas gerações. A Ruth faleceu com 98 anos, então era um século de história preta. “Afronta”, que está na Netflix também, é de uma galera jovem, de 20, 30 anos. E esses caras [Racionais] de 50 anos. Então, acho que estamos cobrindo uma boa parte da história preta, de perspectivas, né? Da nossa história, de como estamos pensando. Então, é isso. Estou com muita vontade de produzir ficção nesse momento. Espero fazer aqui, fazer fora [do país]. Poder criar cenários. Um espaço mais espiritual. Desde o meu primeiro curta, eu tenho espaços espirituais nos meus filmes. Transcendência e racionalidade andando juntos. 

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Imagem principal: Divulgação

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