Mulheres que amam mulheres

por Nathalia Zaccaro
Tpm #179

Jessica Tauane, Lan Lanh, Monica Benicio, Luedji Luna e Milly Lacombe descrevem as dores e os prazeres de se abrir ao amor entre mulheres

Jessica Tauane,

28 anos, ativista e youtuber

"Quando casei, tinha um monte de ex minha no cartório. Sapatão tem isso de ficar amiga de ex. Acho que é tanta DR, tanta troca, tanta conversa, que a gente se resolve. As coisas ficam bem. O diálogo constrói o amor. Sempre que terminei relacionamentos, a gente estava na mesma página. Nunca foi legal terminar, é chato, precisa de um tempo para entender o novo lugar da relação, se acostumar, mas o amor não acaba, ele se transforma. Vira um amor fraternal, sem malícia.

Levei pé na bunda de tanta ex maravilhosa, sofri, mas hoje estou viva, casada com uma gata que me faz muito feliz. E é muito bom ser um casal durante a militância, discutir as coisas, enfrentar os olhares nas ruas com uma companheira. O tempo vai passando e uma vai se envolvendo nos projetos da outra. 
Ser sapatão faz com que a gente seja parte de um grupo minorizado e, pelo meu perfil, as mulheres que estão comigo embarcam na militância. É gostoso escutar delas sobre o que já passaram. A gente tem necessidades políticas enquanto grupo, então precisamos levantar a bandeira para conseguirmos políticas públicas especializadas para a gente.

“O sexo com outra mulher, para mim, é muito melhor do que com um homem. E não é só sobre o corpo, existe outra coisa ali”
Jessica Tauane

Eu tive um ex-namorado e o sexo não era ruim, mas não tinha esse algo mais. Vai além do erótico. Foi assim que eu tive prazer loucamente. E, além disso, tem os babados. Sem o pênis e com duas vaginas, se forem mulheres cis, a criatividade vai a mil e o prazer vai a um milhão. É enlouquecedor, quem prova não volta!”

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Lan Lanh,

51 anos, percussionista

"Tem umas amigas minhas que ficam dizendo: ‘Eu quero casar e não consigo’. E aí eu respondo: ‘Quem gosta de casar é mulher. Arruma uma namorada que você casa rapidinho’. Existe aquela história: você beija a menina e, no dia seguinte, chega o caminhão de mudança. Comigo e com a Nanda [Costa] foi rápido. Quando me envolvo é porque estou apaixonada, então, já é um passo para tudo acontecer. A Nanda morava no mesmo condomínio que eu, o apartamento dela ficava mais vazio e a gente habitava mais o meu. Mas agora estamos morando juntas mesmo, alugamos os nossos e estamos em um maior.

 

Outra coisa boa é quando o sapatão é do mesmo número. Uso muito os sapatos da Nanda. Sempre dou uma passeada pelo armário dela, pego uma botinha com salto, uma coisinha assim. A gente compartilha tudo mesmo, só a escova de dente que não. Se bem que sempre esqueço qual é a minha e acabo usando a dela mesmo. Outro dia, para eu não me confundir mais, ela me falou que meu cabelo é azul, então, minha escova é azul também.

“Acho que nos relacionamentos femininos rola uma intuição, a gente sente muito a outra. Tem muito espaço para se observar, se cuidar”
Lan Lanh

Quando duas mulheres estão convivendo, acabam criando uma conexão muito forte, vai rolando uma simbiose. E essa cumplicidade está na cama também. Tem a coisa de conhecer muito o corpo. Não que os homens não conheçam, alguns conhecem, sabem fazer tudo. Existe uma discussão, entre as amigas hétero, que dizem ‘porque os homens não sei o quê, não sabem chupar’, mas tem homens que sabem, sim, e esses estão todos casados, procure saber.”

 

Monica Benicio,

33 anos, arquiteta e ativista

"A coisa mais bonita de um relacionamento entre duas mulheres é o sexo. Eu acho maravilhoso. Já transei com homens e acho ok, funciona e tal, mas, com mulher, é outro tipo de conexão, outro tipo de intimidade, tem mais companheirismo, mais cumplicidade, mais escuta. Uma das coisas mais relevantes é poder trepar sem protocolo, com mais liberdade.

 

Em uma relação heteronormativa, existe um roteiro fixo que coloca a ejaculação masculina como ponto de chegada e o prazer do homem como soberano, o prazer da mulher passa pelo desempenho do homem. O discurso falocêntrico faz com o que o sexo entre duas mulheres não seja percebido como sexo válido. Isso é perigoso porque legitima ideias como a do estupro corretivo, como quando a gente ouve: ‘Ah, você é sapatão porque não encontrou um homem que te comesse direito’.

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O sentimento é livre e o corpo também tem que ser. Nós vamos viver essa liberdade da forma como quisermos e vamos ter os nossos sentimentos acolhidos, ressignificando as identidades. Isso já é por si só uma afronta ao sistema do patriarcado, misógino e heteronormativo. Eu posso acordar um dia e me apaixonar por um homem, nada me impede.

“Eu digo que a minha afirmação como sapatão é um ato político, justamente para descriminalizar ”
Monica Benicio

Porque, antes, isso era compreendido como um xingamento, uma forma de agressão verbal. Me afirmar como sapatão é uma tentativa de desconstrução desse olhar violento sobre o corpo da mulher. Podemos ter o estereótipo que quisermos ter, não temos que estar presas às amarras da conjuntura do que é o feminino. Quando digo que a gente tem que amar mulheres pode parecer sexual, mas, na verdade, vem justamente de querer dizer que temos que ter um olhar empático e solidário com as companheiras que estão do nosso lado. E isso, quando levado para o contexto sexual, potencializa o prazer.”

 

Luedji Luna,

32 anos, cantora e compositora

"Todas as minhas ex-namoradas são mulheres negras. Quando eu penso em felicidade, minha experiência só se fez possível porque eu sou uma mulher bissexual que ama mulheres pretas. Elas me construíram politicamente, existe uma identificação histórica quando me relaciono com uma mulher negra. Foi um grande aprendizado namorar cada uma delas. Foram as pessoas que mais me apoiaram na minha carreira, bem antes de qualquer um.

 

“Me relacionar com mulheres negras é revolucionário. Inverte a tal lógica que diz que nós não podemos acessar o amor”
Luedji Luna

A ideia de amor de mulher preta está muito ligada à ação, esse amor que me impulsiona, que incentiva, que cuida. Eu fui amada, dei amor e me sinto contemplada.

Consegui expressar a minha afetividade na vida a partir dessas relações homoafetivas. E, no cotidiano, é como ter o seu espelho ali, alguém que compreende como é seu cabelo, quais são suas dores, seus corres, tudo. E tem a coisa de usar as mesmas roupas, os mesmo cremes, os mesmos óleos de coco. É muito bom.

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Eu sou muito grudinha, não sei namorar só de fim de semana. Namorar comigo significa estar junto o tempo todo, minhas relações são muito autofágicas, gosto de estar perto. Isso é bem clichê das lésbicas, que elas não namoram, elas casam e criam um gato juntas na segunda semana. Mas eu acho que esse modus operandi está muito ligado a uma educação mesmo, desde criança estamos nessa perspectiva do cuidado, de ser maternal. Isso acaba reverberando nas relações homoafetivas.

O sexo com os homens melhorou muito depois que comecei a me relacionar com mulheres. Me trouxe outro entendimento do corpo e do que é o próprio sexo, que não está ligado ao falo. Quando vou me relacionar com homens é a partir dessa perspectiva: nem tudo é sobre você, nem tudo é sobre o seu prazer. E o falo não é um elemento central nessa relação, a gente pode se divertir de outras maneiras.”

 

Milly Lacombe,

51 anos, escritora

"Mulheres se deixam penetrar. E o machismo diz que homens não podem se deixar penetrar, se deixar atravessar por uma ideia, por um sentimento ou por um afeto. E nós somos mulheres que se afetam por mulheres, na cama, fora da cama. E se deixar afetar é muito importante. Eu transei uma vez com uma mulher que nunca tinha ficado com mulheres, só com homens. Aí a gente ficou na sexta, que virou sábado e depois virou hora do almoço… Daí ela me perguntou: ‘E aí, que horas acaba?’. É um outro tempo.

Com os homens, uma hora a transa claramente acaba. É como uma orquestra sinfônica que tem um maestro e, em certo momento, aquilo termina. Sexo entre mulheres é como um grupo de jazz que vai no improviso, não tem um membro para determinar o fim. É muito bom. Só a TPM que é uma merda. E é muito comum os ciclos menstruais se alinharem e irem juntos até o fim. O sexo fica supertrabalhoso, um monte de coisa aí envolvida.

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Eu já fiquei com homens, mas nunca me apaixonei por eles. Aprendi recentemente que tem um nome para as minhas práticas sexuais: demissexual, uma pessoa que só consegue ir para cama com quem ama, é uma tragédia. Eu fui para a cama com cinco mulheres até hoje, tenho um histórico muito fraco para uma lésbica cinquentona. Para transar, preciso de uma história, saber de onde a pessoa vem e pra onde ela quer ir.

“Sexo entre mulheres é como um grupo de jazz que vai no improviso, não tem um membro para determinar o fim. É muito bom”
Milly Lacombe

Eu me casei três vezes na vida, casamentos longos com mulheres. E claro que a gente vai reproduzindo a estrutura de poder do machismo, mas também somos capazes de exacerbar as características atribuídas ao feminino dentro de uma relação. E uma das coisas talvez seja essa característica tão feminina e tão sapatão de se deixar penetrar. Isso leva a relação para uma nova dimensão emocional, são duas pessoas ali se deixando invadir.”  

Créditos

Imagem principal: Pablo Saborido

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