por Nathalia Zaccaro
Tpm #177

A cantora baiana Luedji Luna leva tudo que lhe pertence para suas composições: o nome de rainha, o sobrenome de bruxa e a herança de seus ancestrais africanos

Foi em uma quarta-feira que Luedji Luna saiu pelas ruas de sua cidade natal, Salvador, atrás de um pai de santo para jogar o que seria o primeiro jogo de búzios da sua vida. Era 2015, ano da chegada da baiana em São Paulo, e ela buscava na capital paulista meios para tornar sua carreira musical viável. Vivendo na Barra Funda, região central da cidade, sentiu a solidão de ser uma mulher preta e nordestina longe de casa. “São Paulo foi pensada geograficamente para afastar os corpos negros. Mas eu morava perto do terminal de ônibus da Barra Funda e vi acontecer a imigração africana e haitiana, a galera chegava por ali. Comecei a rememorar uma saudade que trazia desde a infância, e que acho que é muito própria de quem é da diáspora, de quem não sabe quem é seu bisavô, de que lugar da África ele veio”, conta a compositora.

O tabuleiro dos búzios lhe trouxe respostas para essa angústia. Nele, descobriu que tinha um tio— avô e toda uma família de santo, que, como ela, estavam vivendo em São Paulo. “Fui atrás dessa história. Esse tio saiu de Salvador e abriu um terreiro no Capão Redondo [São Paulo]. Inclusive, o Mano Brown era como um sobrinho dele. Comecei a frequentar e descobri minha família de axé. Fique muito feliz com essa coincidência, que não é coincidência, porque nada é coincidência.”

O contato com esse terreiro, que inspirou sua música mais famosa, “Banho de folhas”, lhe trouxe também a espiritualidade e o acolhimento de que precisava naquela época, quando também lidava com as dores de ter rompido com um projeto que cresceu acreditando ser o seu.

Luedji foi criada em Brotas, bairro popular de Salvador, e seus pais, que se conheceram na militância negra, sempre fizeram do debate racial assunto de café da manhã. “Não tenho esse nome africano à toa. Meus pais são de uma militância preta que projetou seus filhos como armas de luta. Sempre fui consciente desse projeto. Fui fazendo o meu melhor. Estudei, me formei em direito. Só que, no meio do caminho, fui afogada por esse oceano que é a expressão do ser”, conta. “Odiava o fato de querer ser cantora porque não queria romper com um projeto muito importante para minha família e para minha comunidade. Mas música me interessava desde a infância. Decidi não carregar essa culpa. Larguei tudo, peguei a minha mala e vim pra São Paulo sem olhar para trás.”

Um ano depois de chegar na cidade, em 2016, gravou seu primeiro clipe. Era Corpo no mundo, em que refletia sobre ancestralidade, destino e racismo com arranjo delicado e complexo, misturando jazz e ritmos brasileiros. O vídeo viralizou – hoje soma quase 1,5 milhão de visualizações no YouTube – e fez com que o sonho de ter um disco gravado se transformasse em um pedido do público. “Aumentou muito a demanda por shows, começaram a falar de mim, a prestar mais atenção. O álbum só nasceu porque já existia uma expectativa em torno do meu trabalho.”

Em 2017, gravou seu disco de estreia, que também leva o nome de Corpo no mundo, e logo começou a levar pra casa prêmios, como Bravo!, Caymmi de Música e o Prêmio Nacional de Expressões Afro-brasileiras, além de ter concorrido em duas categorias (melhor álbum e cantora) no Women’s Music Event 2018, premiação musical voltada às mulheres. A artista se apresentou em quase todo o país e se firmou como uma das principais vozes contemporâneas – seu sucesso a levou a protagonizar uma campanha da Natura, ao lado de outras duas cantoras. Em novembro, dividiu o palco do Trip Transformadores com o icônico sambista Nelson Sargento.

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“Quando ouvi a Luedji, fiquei impressionada com a sua música, mas ainda mais com seu show. A presença dela no palco, o jeito como ela canta, as coisas que ela fala. Dá pra ver que acontece uma identificação 
com o público. Fiquei monotemática, só falo dela ultimamente. Gostaria de vê-la em todos os lugares”, diz Roberta Martinelli, radialista, apresentadora de TV e jornalista especializada em música, que a convidou a participar do espetáculo Acorda, amor!, ao lado de Liniker, Maria Gadú, Letrux e Xênia França.

Aos 31 anos, a força de Luedji no palco é reflexo de sua firmeza como compositora. “A minha relação com a música parte da escrita. Não sou só cantora. Já era hora de a música brasileira dar voz a outros discursos, como os de compositoras negras. Por muitos anos, o único jeito de uma mulher preta ter visibilidade na música era cantando samba. Isso era mandatório. Acho muito simbólico estar produzindo minha narrativa e sendo ouvida.”

O discurso claro e combativo de Luedji a coloca no front da luta contra o racismo. E, aí, ela se sente em casa. Mesmo que por outros caminhos, está botando em prática o sonhado projeto político de seus pais. É arte, militância e liberdade, tudo ao mesmo tempo. “Não existe nada no mundo hoje mais revolucionário que o movimento das mulheres negras. Em qualquer conjuntura política, somos nós que protagonizamos as mudanças. Não foi à toa que Marielle Franco foi executada. Quem está no poder sabe quem está promovendo a transformação. Existe um risco, mas não sinto medo porque conheço a minha história. Minhas ancestrais criaram estratégias de sobrevivência e eu as herdei. Domino as ‘tecnologias’ e não tenho escapatória.”

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Uma das heranças de poder da artista é seu nome. Luedji foi a primeira rainha africana da etnia Lunda, do início do século 17. O povo era acostumado com reis, e não com rainhas. Mas ela foi respeitada. O pai da cantora leu essa história em um livro e a batizou assim. Já Luna, que adotou em seu nome artístico, veio por meio de suas próprias leituras. “Sempre acreditei no invisível. Na adolescência, transitei pelos livros de wicca [religião pagã associada à bruxaria] e essas leituras foram empoderadoras. Nunca tinha ouvido falar em matriarcado. Pensei: ‘Nossa, quero ser essa mulher com poderes. Se é bruxa que chama, então eu virei uma’. E aí começaram a me chamar de Luna.”

Como uma deusa

Conectar-se mais intimamente com o feminino e seus poderes fez com que Luedji repensasse a relação com seu corpo. “Nem sempre performei minha feminilidade. Na capa do disco, por exemplo, estou com o cabelo raspado, sem brinco, praticamente sem maquiagem. Não queria que meu corpo fosse tão demarcado pelo gênero. Às vezes estou de menininha, às vezes, de menininho. Hoje isso está mais bem resolvido”, conta. “É importante para a minha autoestima ocupar o lugar da princesa, da diva. Não vou negar isso. Ouvir que estou bonita ainda é algo que importa. Às vezes, posto uma foto só para ouvir que sou deusa. Mas, antes de tudo, tenho que mostrar que tenho sentimento, humanidade e discurso. E que posso mexer minha raba e ser bem gostosa se eu quiser, porque isso é importante para mim.”

O feminino, o amor e o cuidado são os temas que devem guiar o próximo disco da baiana, um projeto para 2020. “Quero cantar sobre afeto, sobre a experiência do amor. Esperei muito por um amor romântico, que viria em um cavalo branco para me salvar da solidão. Isso, com os anos, foi ressignificado. Hoje tenho uma relação amorosa feliz com uma mulher preta. Essa noção de família, papai, mamãe e homem salvador é uma ideia muito nociva. A gente tem que admitir que nem todas as mulheres vão viver isso, mas vão morrer esperando.”

Enquanto o disco não chega, Luedji ainda vai soltar muito seu corpo preto, forte, sexy e político no mundo. “Estou articulando uma turnê pela América Latina, Europa, África e antes do fim deste ano vou fazer meu primeiro show em Angola.” O 
país africano em que cantará em 2018 é o que abriga hoje parte do território do povo Lunda da rainha Luedji. Coincidência, que não é coincidência, porque nada é coincidência. E Luedji segue o que canta em “Acalanto”, andando pelo mundo como pode, se refazendo em cada passo dado e fazendo o que deve, e acha, sem se encaixar em nada.

Créditos

Imagem principal: Pablo Saborido

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