Domithila Cattete: o Pará em primeira pessoa
A protagonista da série da Netflix Pssica quebra estereótipos sobre a região Norte no audiovisual
Domithila Cattete (@domithilactt), atriz protagonista da série Pssica / Créditos: Foto: Divulgação
Por Camille Mello
em 27 de novembro de 2025
Nas últimas semanas, os olhos do mundo estiveram sobre Belém, no Pará, que passou a ser uma espécie de capital climática do planeta ao sediar a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30). Antes disso, o Pará e grande parte da região Norte tinham pouca visibilidade até dentro do próprio Brasil, que não se enxerga, não se escuta e não se entende. Mas algo vem mudando.
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Grandes produções audiovisuais recentes têm posicionado as paisagens e as histórias amazônicas bem no centro da tela. Neste ano, o filme Manas ganhou repercussão internacional e diversos prêmios, inclusive o Women in Motion, dedicado a novos talentos femininos, para a diretora Marianna Brennand no Festival de Cannes. Já O Último Azul levou o Urso de Prata, segundo prêmio mais importante do Festival de Berlim. Ambos entraram na disputa para representar o Brasil no Oscar 2026. E, na mesma correnteza, a minissérie Pssica, dirigida por Quico Meirelles e coproduzida por Fernando Meirelles, entrou no Top 10 da Netflix em 68 países, tornando-se uma das três produções brasileiras mais vistas do ano.
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No centro dessa história está Domithila Cattete, atriz paraense de 20 anos que vive Janalice, protagonista de Pssica. Nascida e criada em Belém, ela carrega no próprio corpo a mistura de delicadeza e força de sua personagem, uma adolescente vítima de tráfico sexual. Para dar conta de uma estreia tão densa no audiovisual, ela passou por uma preparação de elenco que contou com a presença de uma coordenadora de intimidade. “Pssica tem muitas cenas realistas de abuso, mas tudo foi feito com muito cuidado para respeitar os limites dos atores. Com a coordenadora de intimidade, conseguimos proteger os corpos femininos diante da câmera. O foco não era mostrar o sexo, mas o terror da situação”, diz a atriz. “No set, havia muitas mulheres que realmente nos escutavam e protegiam. Eu me senti segura para atuar sem despertar gatilhos ou traumas. Por isso o resultado foi tão profissional.”
A história de Janalice, adaptada do livro homônimo do jornalista e escritor paraense Edyr Augusto, nasceu de muita pesquisa. “O Edyr me contou que geralmente escreve um livro em até três meses, mas demorou anos para terminar Pssica, porque pesquisou muito para contar um pouco dessa realidade”, diz Domithila. E ela mesma é testemunha de que essas histórias, por mais absurdas que pareçam, estão longe de ser ficção. “No Pará, temos Melgaço, a cidade com o menor IDH do Brasil. Nesse e em outros municípios da região do Marajó há muitos casos de tráfico sexual de meninas. Isso está ligado à falta de infraestrutura em educação, segurança e saneamento básico. É uma realidade às vezes mostrada nos noticiários, mas que rapidamente cai no esquecimento”, diz.
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Na série, a história começa quando um vídeo íntimo de Janalice é vazado na escola e, no lugar de acolhimento, ela encontra rejeição da própria família – um drama que a atriz conhece de perto. “A Janalice é muito próxima de mim. Nasci em Belém, mas minha família é de uma comunidade ribeirinha de Marapanim. Então, eu sei como era aquela rotina dentro de casa. Minhas amigas de infância engravidaram aos 14 anos e as mães delas, aos 13. A educação sexual é um tabu mesmo com as redes sociais onde se fala muito sobre tudo. Esse debate é importante, porque previne os abusos”, observa Domithila.
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Mesmo tratando de um tema tão denso e doloroso, Pssica surpreende positivamente o público feminino: a história não se ancora na figura de um herói masculino. Pelo contrário: é a união entre mulheres que move a trama. A personagem de Marleyda Soto, Mariangel, que no livro era um homem, virou uma mulher na adaptação para o streaming. Duas dores que se encontram — a de uma jovem violentada e a de uma mãe que perdeu o filho — e se transformam em força. “A série não é sobre romance. É sobre mulheres que se levantam juntas”, diz Domithila.
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Na conversa com a Tpm, ela fala sobre a decisão de deixar o Norte e se mudar para o Sudeste em busca de oportunidades, os episódios de preconceito por causa do sotaque e a importância de ver a Amazônia retratada em narrativas diversas e protagonizadas por artistas que carregam no corpo e na voz a experiência real de quem nasceu e cresceu ali.
Tpm. As cenas de abuso sexual de Pssica são muito impactantes para quem assiste. Como foi estrear no audiovisual com uma personagem tão densa? Em algum momento o processo te despertou gatilhos emocionais?
Domithila Cattete. A Janalice é uma personagem que não tem tantas falas, mas se expressa no olhar e eu acho que isso é uma das coisas mais difíceis pro ator. Então, a gente estudou muito pra conseguir alcançar esse lugar de realismo. Eu acho que por isso algumas pessoas ficam até preocupadas com as cenas de abuso que fazem parte da história. Mas teve muito estudo para realmente respeitar os limites individuais dos atores. As cenas eram ensaiadas com a coordenadora de intimidade, Maria Silvia, que entende muito sobre a movimentação de câmera para ver de que maneira conseguiríamos proteger mais nosso corpo. O objetivo não é mostrar o sexo em si, mas o terror da situação. E isso vem também do entendimento da direção de que essa é uma história de denúncia. Havia ainda muitas mulheres no set que nos protegiam e escutavam, então me senti super segura para atuar da melhor maneira possível. Por isso, a gente entregou um resultado tão profissional, sem despertar gatilhos e nem desenvolver traumas no elenco.
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Vi muitos comentários de pessoas dizendo que ficaram em dúvida se a realidade mostrada na série, de cidades paraenses marcadas pela violência e pelo tráfico sexual de menores, é mesmo assim ou se foi exagerada na ficção. Você acha que histórias como a de Janalice estão mais próximas da realidade do que as pessoas imaginam? A série é inspirada no livro do escritor e jornalista paraense Edyr Augusto. Ele me contou que geralmente leva de um a três meses para escrever um livro, mas demorou anos para terminar Pssica, porque fez muitas pesquisas para contar um pouco dessa realidade. No Pará a gente tem a cidade com o menor IDH do Brasil, que é Melgaço. Lá e em outros municípios da região do Marajó, como Breves, há muitos casos de tráfico de meninas. Infelizmente, isso ocorre por causa falta de infraestrutura de educação, de segurança e saneamento básico. São lugares afastados e de difícil acesso, para chegar lá de barco demora um dia, às vezes. Isso dificulta a atuação da polícia local, de apurar as denúncias a tempo. Essas realidades existem, e Pssica traz visibilidade e denuncia esses problemas, o que é importantíssimo para levar o debate para dentro das casas, dos grupos sociais, e a gente possa, juntos, promover uma mudança para proteger essas meninas.
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Você cresceu ouvindo histórias parecidas com a de Janalice? Esse tema era discutido na sua família, na escola ou entre amigos? De alguma forma você se viu crescendo cercada por esse medo do tráfico sexual? A Janalice é uma personagem muito próxima de mim. Nasci em Belém, mas a minha família é de Vista Alegre, uma comunidade ribeirinha do município de Marapanim no Pará. Então, eu sei como era aquela rotina dentro de casa, os pais das minhas amigas são iguais aos pais da Janalice. Minhas amigas de infância engravidaram muito cedo, aos 14 anos, e as mães delas, aos 13 anos. É uma realidade que persiste, mesmo que se passe tanto tempo. E o tráfico de mulheres a gente vê nos noticiários, mas rapidamente cai no esquecimento da mídia. Por isso que é tão importante esse tema ser abordado em produções do porte de Pssica, que foi lançada em mais de 190 países.
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Na série, o drama da Janalice começa quando um vídeo íntimo dela é vazado e, em vez de acolhimento, ela sofre rejeição da própria família, o que a deixa vulnerável a outros abusos. Você acha que precisamos falar mais sobre educação sexual nas escolas e também dentro de casa? A educação sexual é um tabu mesmo com essa grande globalização das redes sociais, em que se fala muito sobre tudo. Acho que até na minha própria educação teve muito tabu sobre isso. Então, esse debate é importante, porque previne os abusos, promove segurança dos menores da nossa sociedade. Os pais da Janalice são personagens que trazem essa reflexão da falta de acolhimento com os filhos nessa questão.
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Produções recentes como Pssica e o filme Manas trazem à tona o tema da exploração sexual de meninas. Ao mesmo tempo, existe o risco de reforçar um estereótipo negativo sobre lugares como a Ilha do Marajó. Qual a importância de também mostrar outros aspectos da região amazônica? Pssica e Manas se completam: a série aborda o tráfico sexual e o filme, aquele abuso silencioso que acontece dentro de casa e que é tão comum. A gente conta essas histórias na tela não para criar estereótipos ou sensacionalismo, mas porque essas coisas existem, são urgentes de serem discutidas e resolvidas. Essas meninas precisam ser protegidas e falar sobre isso é o primeiro passo para mudar essa realidade. Mas a Amazônia é um lugar incrível, onde estão sendo gravadas produções de âmbito global, com muita divulgação, muitas premiações, e isso é motivo de orgulho para os artistas nortistas e para os brasileiros, que estão sendo cada vez mais bem representados no cinema. E isso está fomentando o turismo na região Norte, o que é muito positivo, porque gira a economia e pode mudar a realidade de muitas pessoas. Mas a gente pode contar várias histórias de drama, comédia, romance, drama, terror e distopias como a do filme O Último Azul. Além do cenário rico e diverso, temos uma cultura muito forte: nossas falas, comidas, danças e ritmos musicais. Isso pode ser representado de diversas formas por atores locais. Pssica traz muitos atores nortistas para contar a sua história. Em Belém, tem a faculdade de cinema da UFPA [Universidade Federal do Pará], que faz produções independentes que exploram as possibilidades de histórias que podem ser contadas no nosso cenário. Elas só precisam de mais visibilidade.
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Mesmo com todas as tragédias, Pssica mostra mulheres fortes, que se apoiam entre si e não precisam de um herói para salvá-las. Você acha que a mensagem final da série é sobre união feminina e empoderamento, sem apostar em um romance ou em um final feliz dependente de um homem? É uma série em que a força é resultado da união feminina. E isso é espetacular, vindo de um tema que é reflexo da vulnerabilidade. A minha personagem Janalice e a Mariangel [interpretada por Marleyda Soto] são conectadas pela dor. A dor de uma menina, vulnerável após tantos abusos e vítima de tráfico sexual, e a dor de uma mãe que teve o filho assassinado. Uma busca por justiça enquanto a outra busca incansavelmente pela liberdade. Uma curiosidade que pouca gente sabe é que no livro que originou a série, a personagem Mariangel era um homem. Então, só o fato de terem transformado em uma mulher, que vai atrás de vingança porque perdeu o filho, é algo riquíssimo para o audiovisual e para a nossa sociedade. Por isso Pssica é uma obra tão admirável para nós, mulheres. A série não trata de um romance, de uma paixão, e sim da busca incansável dessas mulheres fortes pelos seus objetivos.
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Você começou sua trajetória no audiovisual em uma produção filmada no Pará, mas se mudou para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades. Mesmo com o aumento de produções na região Norte, ainda é difícil trabalhar como atriz por lá? As oportunidades continuam concentradas no Sudeste? É realmente um desafio trabalhar como artista em qualquer lugar do Brasil. O teatro paraense é a minha formação de noção corporal, já que é o que eu pratico desde criança. Depois que terminaram as gravações de Pssica, fiz cursos em São Paulo, no Rio de Janeiro e na região Nordeste. E quanto mais a gente aprende e estuda, mais a gente quer aprender e estudar. No meio de tudo isso, eu também faço graduação em Direito. Então, eu decidi me mudar esse segundo semestre de 2025 pro Rio, pra ficar mais próxima desses cursos e da visibilidade que a série me trouxe. Nem todos os testes para as produções eu consigo em Belém, então o Rio abre mais oportunidades até de conhecer pessoas nos eventos. Entendi que nesse momento me mudar para o Sudeste é a melhor escolha, mas, se Deus quiser, logo, logo eu tô indo pra casa.

Como está sendo morar no Rio? Você se sentiu acolhida ou já passou por algum episódio de discriminação ou preconceito por ser de fora? Morar no Rio tem sido uma experiência nova, porque eu nunca tinha passado tanto tempo fora da minha cidade. Sempre fui muito próxima da minha família e tenho uma irmãzinha de 5 anos que cresce muito rápido, então a saudade aperta. Mas eu estou em busca dos meus objetivos de carreira e aqui eu tenho amigos do meio artístico, e temos muito em comum. A maioria deles também não é do Rio, então a gente se entende, é um lugar de muito acolhimento e apoio. Por esse motivo também, eu não sofro tanto preconceito no meu cotidiano. Mas eu já escutei, sim, ao decorrer da minha vida, vários comentários do tipo: “Nossa, mas você vai interpretar isso? E esse seu sotaque?”. Através de técnicas de prosódia, atores podem fazer qualquer sotaque. Assim como existem muitos artistas do Sul e Sudeste que fazem sotaque de outros lugares, a gente também pode fazer o sotaque de vocês daqui. Mas isso não significa que no nosso dia a dia seja preciso neutralizar nossa forma de falar.
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Sua cidade, Belém, recebeu a COP30, que colocou o Pará sob os olhos do mundo. Você acha que esse evento pode trazer benefícios concretos para região? Existe um debate de que a Amazônia tem que ser um território mundial, só que a Amazônia é nossa, é a nossa soberania que está em jogo quando abrem esse debate. E a COP sendo levada para Belém trouxe desenvolvimento de várias regiões da cidade, o que reverte problemas e traz vários benefícios. Está tendo investimento no Norte, finalmente. Isso também traz visibilidade para outros projetos ambientais da região que agora, como está se falando do tema, estão ganhando mais destaque e visibilidade para realmente concretizarem suas ações.

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