por Ismael Machado

A Trip acompanhou uma etapa do Cineamazônia Itinerante, projeto que leva filmes, fotografia e arte a comunidades da Amazônia

Dona Aidê pede para o vizinho adolescente que abaixe o volume do som enquanto ajeita a cadeira no quintal de casa. É um bairro de periferia de Guayaramerin, cidade boliviana na fronteira com o Brasil. O rapaz desliga a televisão na qual um DVD de Pinduca, o rei do carimbó, fazia a festa particular. Aidê abre um sorriso e começa a contar a própria história.

Na carteira de identidade está Edith, mas entre uma e outra há um mundo. É uma mulher de uns 80 anos, negra, de cabelos brancos curtinhos, brincos dourados e dedos repletos de anéis. Um sorriso calmo, uma voz pausada.

Aidê não teve infância. Não brincou. A mãe morreu de meningite quando ela era muito pequena. Ficou passando de mão em mão, de família a família. Neta de escravos, descendente de barbadianos que ajudaram a construir a estrada de ferro Madeira Mamoré, Aidê chorava sozinha quando via que carinho de mãe não existia para ela. Teve cinco filhos, de dois parceiros diferentes com quem morou. Aidê enfatiza que nunca casou, e isso parece mais um rombo na fantasia de jovem que foi dissipado pelo tempo.

Aidê derrama uma lágrima solitária quando conta isso. A equipe de filmagem fica embevecida com a mulher que estudou até a terceira série, mas tem uma filha fazendo doutorado nos Estados Unidos. Aidê encerra dizendo "essa é minha história". Sem mácula, sem rancor, serena.

A história de Aidê está agora registrada no projeto Museus Vivos, um desdobramento do Cineamazônia Itinerante, que desde 2008 viaja pela região norte do país apresentando filmes fora do circuito a comunidades que frequentemente não tem acesso à chamada sétima arte.  A itinerância cultural, por sua vez, é um desdobramento do festival de cinema realizado todos os anos em Porto Velho.

A equipe de mais de 20 pessoas saiu da capital de Rondônia no dia 13 de agosto, em direção ao município de Guajará-Mirim, fronteira com a Bolívia. Distante 333 km de Porto Velho, Guajará-Mirim é um município conhecido por ser o ponto final da mitológica estrada de ferro Madeira-Mamoré. Fica às margens do rio Mamoré. Dez minutos de barco separam o município de seu vizinho quase homônimo do lado boliviano. Guayaramerin, por sua vez, é uma cidade mais conhecida por sobreviver como uma zona franca de produtos, mas que hoje sente os efeitos da crise financeira mundial.

A primeira parada dessa etapa da itinerância, a segunda do ano, foi em uma reserva extrativista. Era a primeira vez que as 21 famílias de coletores de castanha, pescadores e pequenos agricultores de Rio Ouro Preto recebiam o projeto. O telão foi montado às margens do rio que dá nome à reserva e seis curtas-metragens foram exibidos. Era uma troca. Os moradores viam as histórias exibidas na tela e devolviam contando as próprias histórias de vida.

Como a de Damiana, uma sorridente senhora que adora dançar. Sabendo da programação noturna, montou uma barraca para vender bolo, suco, galinha e pato com feijão e arroz. Damiana conta que aos 13 anos foi entregue a um homem muito mais velho e levada para um seringal. Como era virgem e não se deixou possuir, o seringueiro a transformou em uma escrava. Foi assim até os 16 anos, quando o homem acabou estuprando-a. Damiana teve o primeiro de seis filhos na vida. Só foi descobrir o que era prazer sexual depois da morte do primeiro "marido". "Agora eu sei o que é bom", diz ela, enquanto serve um generoso prato de galinha caipira cozida.

Da floresta da reserva extrativista para as pequenas cidades de Iata, Guajará-Mirim e Guayaramerin, o percusso foi feito por estradas. Foi só no quarto dia que a itinerância equipe do Cineamazônia precisou encarar o rio. O percurso é desafiador. Os rios Mamoré e Guaporé estão no período de seca. Na Amazônia, de maio a agosto as chuvas se tornam menos freqüentes. E com os desmatamentos e queimadas esse período tem se tornado mais feroz para os donos de embarcações que ousam navegar nessa época.

Enquanto o barco desatracava, Geisa Helena e Alexandre Malhone se entreolhavam, cheios de expectativa. Era a primeira vez que os palhaços Chiquita e Cotonete, da Trupe Koskowisck, embrenhavam-se na imensidão amazônica. Ao longo dos 21 dias de viagem, foram 17 apresentações. O público variava. Comunidades ribeirinhas, indígenas, quilombolas, religiosas, de um lado e de outro da fronteira, com nomes como Surpresa, Remanso, Buena Vista, Cafetal, Iata, Pedras Negras, Mateguá, Costa Marques e Pimenteiras. "Tive a oportunidade de ver crianças maravilhadas, com olhares carentes e curiosos. Vi e senti uma energia única. Um céu absolutamente fantástico com tantas estrelas que enchiam os olhos de água", disse Geisa ao fim da viagem.

Entre uma localidade e outra, botos, jacarés, sucuris, macacos, capivaras, tartarugas e pássaros diversos deleitavam olhares e lentes fotográficas. Mesmo quem já havia visto muito da vida, como a experiente fotógrafa Bete Bullara, mostrava-se impressionada. Bete participava da itinerância com uma missão: ministrar oficinas de pinhole para crianças de cada comunidade onde seriam exibidos os filmes. "Tento exercitar o olhar dessas crianças, mostrar como é a fotografia artesanal", explica Bullara, no momento em que preparava para transformar uma pequena caixa de papelão em máquina fotográfica. A oficina alimentou sonhos em cada lugar. E isso Bete Bullara percebeu ainda nos primeiros dias.

"Não fiz curso presencial porque não tem aqui em Guajará-Mirim, mas faço um curso pela internet e procuro sempre tutoriais também. Minha maior vontade é me especializar em fotografia 'newborn' [de bebês] porque estou com mais de oito meses de gravidez e só penso em bebês agora", explicava Ana Clara, de 17 anos.

Para as crianças, a diversão também era garantida com a participação na oficina de pixilation, uma técnica de stop motion em que atores vivos se tornam personagens de uma animação. A mecânica é simples: os atores posam para uma câmera que captura sua imagem, depois se movimentam e outro instante é capturado. Feito isso, basta colocar as imagens em sequência e a história se faz. Em cada comunidade, Christian Ritse, auxiliado por Ian Gabriel, escolhia crianças locais e produzia um curta, exibido no início de cada sessão. "Ver as crianças se esbaldando de rir na hora em que se vêem na tela é uma experiência única", afirma Ritse.

Ao final, mais de 3.000 pessoas foram conectadas pela arte. E como simbolismo da empreitada, em uma das várias vezes em que o barco encalhou nos bancos de areia do rio, quase todos desceram para empurrar a embarcação no meio do rio Guaporé. A cena mostra o que é a Amazônia em seu sentido mais pleno. "Se contar, ninguém acredita. Só a imagem para falar por nós", ria o fotógrafo Zeca Ribeiro, enquanto clicava palhaços, jornalistas, equipe técnica e tripulação tentando tirar o barco do encalhe. Como cantavam os Titãs, diversão e arte para qualquer parte.

Créditos

Imagem principal: Zeca Ribeiro/Acervo Cineamazônia

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