Diário de classe: como educar meninos na era Red Pill
O professor de sociologia Sandro Justo relata suas táticas e didáticas de combate à masculinidade tóxica na escola
Professor Sandro Justo explica como o discurso red pill influencia jovens no ensino médio e molda ideias de masculinidade entre adolescentes. / Créditos: arquivo pessoal
Recentemente, um grupo de quatro alunas me parou na escola e disse: “Professor, você precisa urgentemente conversar com os meninos da nossa turma!”. Pergunto o porquê e a resposta delas foi tragicômica: “Porque eles estão defendendo ideias que nem meu avô defende!”.
Imaginei imediatamente que tratava-se de mais um dos casos que infelizmente têm assolado nossa sociedade atual: jovens acolhendo o discurso misógino do movimento Red Pill como uma ideologia de identidade masculina. Ou seja: o entendimento sobre o que é ser homem sendo atravessado pelo ódio ao feminino.
Movido pela curiosidade, perguntei: “Por que eu?”. Elas disseram que eles gostam muito de mim. Porém, como sempre consegui construir uma relação bastante afetuosa com todos os meus alunos (bom, pelo menos no meu inocente e otimista imaginário docente tendo a crer que nenhum aluno possui alguma aversão absoluta a minha pessoa!), achei essa resposta genérica demais.
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Eu queria mapear melhor qual era a possível porta de entrada que de repente eu teria para acessar a subjetividade destes meninos e de fato construir conexões verdadeiras em possíveis conversas. Elas ficaram meio sem jeito para me explicar quando perguntei sobre o que estava por trás desse “gostam muito de mim”, mas quando você “levanta uma bola” para adolescentes geralmente eles “cortam”: “Ah, professor, porque você é todo fortão, marombeiro! Eles adoram esse teu lado!”.
Enfrentar o discurso misógino do Red Pill exige questionar por quais mecanismos os adolescentes se sentem acolhidos por ele
Sou professor de sociologia do Colégio Pedro II – uma instituição federal bem tradicional no Rio de Janeiro –, mas sempre gostei muito de musculação e levo bem a sério meus treinos diários. Talvez seja por conta do meu pezinho eterno na educação física, minha primeira graduação.
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Então, a porta de entrada está dada: o fato de eu ser um sociólogo “marombeiro”. Penso que na cabeça destes meninos em específico de repente a ideia sobre mim possa ser: “Apesar de ele ser o sociólogo chato que fala sobre esses negócios de questões de gênero, ele pega pesado no supino!”. Bom, eu estou plenamente convencido que para construir pontes e diálogos que desconstruam ideologias que reforçam opressões, nós temos que partir da realidade existente e não da realidade idealizada.
Comecei a perceber que muitos alunos meus vivem me perguntando qual é o meu treino, como é minha dieta, se eu sou “natural” etc. Depois de batermos papos sobre esse universo, geralmente eles tendem a se conectar mais comigo e, assim, as conversas posteriores (dentro ou fora de sala de aula) acabam tomando o rumo de questões sociológicas.
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O enfrentamento ao discurso misógino de movimentos como o Red Pill precisa possuir estratégias bem didáticas tendo o seguinte questionamento como pressuposto: por quais mecanismos ou símbolos os adolescentes têm se sentido acolhidos por esse discurso?
São inúmeros, mas, sem dúvida, um dos principais é justamente através de dois estereótipos antagônicos: o do “macho alfa” e o do “homem afeminado”. A partir destes dois estereótipos o movimento Red Pill consegue convencer os adolescentes de que se você gosta de musculação e quer ser “mabombeiro” você necessariamente deve reproduzir todo o “combo” do macho alfa.
Grosso modo: ser um babaca machista que acha que ser homem é ser provedor, infalível, seguro de si e sem fragilidades. O “homem afeminado”, por sua vez, seria o homem que conversa sobre suas emoções, sentimentos, que faz terapia, que é aliado das lutas feministas e por aí vai. E qual caminho eu tenho seguido nas conversas com muitos dos meus alunos homens?
Quero mostrar aos meninos que ser sensível, falar sobre nossas emoções e assumir inseguranças também pode significar ser homem.
Minha tática tem sido aproveitar minha porta de entrada e problematizar estes estereótipos. E, pra isso, a primeira coisa que eu busco desconstruir é justamente esta ideia de “homem afeminado”. Particularmente, acho que essa expressão não ajuda e pelo seguinte: eu quero mostrar aos jovens meninos que ser sensível, falar sobre nossas emoções, entender a origem de nossas inseguranças e assumi-las, entender que temos fragilidades não são características eminentemente femininas. Isso tudo também pode significar ser homem, porque as masculinidades possíveis são múltiplas.
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A mensagem que passo para muitos dos meus alunos é: dá pra você gostar de musculação (ou jiu-jitsu, ou MMA) e ao mesmo tempo ter a sensibilidade necessária pra entender suas fragilidades e conversar sobre elas. Acredito que ao se conscientizarem disso muitos meninos estarão dando um importante passo para desconstruir dentro de si esta masculinidade misógina que odeia tudo aquilo que socialmente e culturalmente entendemos como feminino.
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Então, se você, leitor, é homem, “marombeiro” e aliado das lutas feministas, saiba que você tem uma porta de entrada muito interessante pra conversar com grande parte dos jovens meninos de hoje em dia. Essa tarefa de reeducação dos homens é nossa!
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