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Um Brasil viciado em apostar

O psicólogo especialista em transtorno do jogo Edilson Braga explica por que o cérebro brasileiro virou terreno fértil para o vício em bets

Um Brasil viciado em apostar

A ludopatia ou transtorno do Jogo é caracterizada pelo desejo incontrolável e compulsivo de apostar. / Créditos: Niek Doup/ Unsplash


em 13 de julho de 2026

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A bola rola no gramado, mas divide a tela com um QR code convidando para apostar e um comentarista anunciando as odds, chances de vitória, no meio da narração do jogo. Essa é a Copa do Mundo de 2026: a maior da história, com três países-sede, 48 seleções, 106 partidas e também a primeira desde que a operação das plataformas de apostas online foi regulamentada no Brasil, pela Lei 14.790 de 2023.

As apostas esportivas de quota fixa já haviam sido legalizadas em 2018, pelo então presidente Michel Temer, encerrando uma proibição que vigorava desde a Lei das Contravenções Penais, de 1941. Não é exagero, portanto, chamar este Mundial de “Copa das bets”. Desde o início do torneio, os brasileiros já enviaram mais de R$ 867 milhões às plataformas, segundo monitoramento da empresa de inteligência de dados Klavi sobre 1,2 milhão de apostadores.

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Esse bombardeio publicitário chamou a atenção do Ministério Público Federal. A investigação nasceu de denúncias sobre anúncios irregulares de bets exibidos durante os jogos da Copa na CazéTV, único canal brasileiro que detém os direitos de transmissão de todas as partidas do torneio, no YouTube. A Lei que regulamenta as bets no Brasil proíbe, entre outras coisas, anúncios com falsas promessas de ganho ou que pintem a aposta como fonte de renda, solução financeira e sinônimo de sucesso. O texto veda explicitamente que celebridades associem o jogo ao êxito pessoal ou social. Mas, na prática, influenciadores, famosos e jogadores de futebol estampam campanhas dessas empresas.

Em paralelo, tramitam dois projetos de lei – PL 2478/26, na Câmara, e PL 2470/26, no Senado – que propõem tratar o jogo como questão de saúde pública, restringindo a publicidade e o patrocínio de apostas em eventos esportivos. A petição Brasil Contra Bets, que já coletou mais de 117 mil assinaturas, tenta dar tração às propostas.

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Os números explicam a urgência. Um estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e da FIA Business School, cruzando dados do Banco Central e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) entre 2011 e 2025, concluiu que as bets são hoje o maior vetor de endividamento nas famílias de baixa renda, superando os juros bancários. Em março de 2026, 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas, o maior índice desde que a Confederação Nacional do Comércio começou a medir o indicador, em 2010. Segundo um levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) com a Umane e a Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental, as bets já custam ao país R$ 38,8 bilhões por ano, somando suicídios, afastamento do trabalho e gastos em saúde. Um estudo da Unifesp de 2023 estimou que cerca de 10,9 milhões de brasileiros apresentam comportamento problemático em relação às apostas, com sinais de perda de controle e consequências negativas no bem-estar.

Por trás desses números está um mecanismo neurológico bem documentado. A psiquiatra Anna Lembke descreve no livro Nação dopamina (2022) como o ato de apostar e aguardar a expectativa de resultado libera dopamina, um dos principais neurotransmissores do sistema de recompensa do nosso cérebro. A dopamina serve de critério científico para medir o potencial aditivo de comportamentos ou drogas: quanto mais dopamina uma atividade libera, mais viciante ela é. É esse mecanismo que a indústria das apostas explora, deixando muitos dependentes pelo caminho. 

“O que antes era o cassino ou a banca de apostas agora está na palma da mão”, diz o psicólogo Edilson Braga

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A ludopatia ou transtorno do jogo é caracterizada pelo desejo incontrolável e compulsivo de apostar. É uma dependência comportamental similar ao vício em substâncias, reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), e com alto impacto na saúde mental.

Para entender como isso afeta quem já desenvolveu o transtorno, e o que fazer diante desses casos, a Trip conversou com o psicólogo Edilson Braga, do Ambulatório do Jogo, serviço do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Trip. Existe alguma especificidade no transtorno provocado pelas apostas online, as bets, em comparação com outros tipos de jogo?

Edilson Braga. Sim. O que antes era o cassino ou a banca de apostas agora está na palma da mão. Isso possibilita que, a qualquer hora, a pessoa fique apostando. E quanto mais aposta, mais o sistema de recompensa do cérebro é ativado, liberando dopamina, o que pode levar à dependência. É importante frisar: é o ato de apostar, a possibilidade da recompensa, que libera a dopamina, não necessariamente ganhar, como as pessoas imaginam.

Qual a média de idade dos pacientes atendidos? Desde a legalização das bets, em 2018, houve aumento na busca por tratamento? A média de idade tem caído. Hoje fica entre 35 e 40 anos, quando antes era de 50 ou 60. E deve continuar caindo, porque cada vez mais jovens entram no mundo das apostas com esperança de ganhos altos, iludidos por influenciadores. A procura por tratamento quadruplicou, e nossa fila de espera continua grande.

“A busca por tratamento quadruplicou e cada vez mais jovens entram no mundo das apostas”

Grande parte da publicidade das bets usa o slogan “jogue com responsabilidade”, como se apostar fosse apenas mais uma forma de diversão. Existe algum nível de aposta que não represente risco de vício? Em jogos de azar como bets e cassinos online, não existe nível seguro que livre a pessoa do risco de desenvolver o transtorno. Essa é uma falácia que deveria ser retirada das propagandas. Aliás, todas as propagandas já deveriam estar banidas de todos os meios de comunicação.

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Qualquer pessoa pode desenvolver o transtorno do jogo ou há fatores genéticos envolvidos? Qualquer pessoa pode desenvolver. Quem já tem histórico familiar de dependência de jogo ou de outras substâncias está mais suscetível. A idade também conta: quanto mais jovem, maior o risco, porque o cérebro ainda está em maturação. E quanto mais as apostas fazem parte do cotidiano, maior a chance de dependência.

Até 2013, o Transtorno do Jogo era classificado como um “Transtorno do Controle dos Impulsos”, mas passou a ser categorizado como dependência. É possível comparar o vício em apostas à dependência de drogas como cocaína e heroína? Totalmente. O Transtorno do Jogo foi reclassificado em 2013 por guardar todas as semelhanças com a dependência química, apesar de ser uma dependência comportamental. As mesmas áreas do cérebro são afetadas tanto no transtorno do jogo quanto na dependência química e os sintomas de abstinência são similares. A principal diferença é que, nas apostas, não há ingestão de substância. Mas observamos que quem joga dobra o consumo de álcool ou cigarro, se já for usuário dessas substâncias.

“Não existe nível seguro que livre a pessoa do risco de desenvolver o transtorno do jogo”

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Quais são os primeiros sinais de alerta? Os pacientes demoram a reconhecer o problema? Inquietação, ansiedade, desconforto, preocupação extrema em recuperar o dinheiro perdido, irritação, isolamento social, perda de interesse em atividades que antes davam prazer, inclusive sexo. Em média, uma pessoa que desenvolve dependência com o jogo leva cerca de 8 anos para procurar ajuda. Vergonha, culpa, negação e falta de informação explicam essa demora. Na maioria das vezes, é a família que busca ajuda primeiro.

A publicidade de bets na TV, nos transportes e espaços públicos e nas redes sociais tem impacto negativo sobre quem está em tratamento? Pode provocar recaída? Aqui chegamos ao ponto crucial. Essa publicidade massiva é o grande veneno para gatilhos que o paciente não consegue controlar. Os pacientes relatam a mesma coisa: foi uma notificação no celular oferecendo bônus, ou uma propaganda qualquer, que motivou a recaída ou iniciou o descontrole nas apostas. Passou da hora das propagandas serem proibidas.

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Quais as consequências mais comuns relatadas pelos pacientes? A família também é afetada? Endividamento, ameaças de agiotas, brigas familiares, depressão, desemprego, tentativas de suicídio e envolvimento em atividades ilegais. Muitos chegam a desviar dinheiro de familiares ou do próprio trabalho. Em média, 80% dos pacientes que nos procuram relatam ideação suicida. A família adoece junto: relata ansiedade, depressão, medo e angústia constantes, e o patrimônio se esvai rapidamente. O jogador perde tudo o que tiver e a família sofre as consequências junto. Não é só a torneira de quem apostou que fica sem água quando a conta não é paga, é a de toda a casa.

“A publicidade das bets gera gatilhos que o paciente não consegue controlar”

O que fazer quando alguém próximo parece estar viciado em apostas? Tenha calma e não julgue. Não é por burrice ou falta de caráter que alguém insiste em apostar acumulando perdas. Essa pessoa está doente e deve ser tratada como tal. Converse com franqueza, ofereça ajuda, leve informação sobre o transtorno. Essa pessoa já se sente péssima consigo mesma, com vergonha de admitir as perdas. É fundamental que a família não pague as dívidas de jogo nem ajude financeiramente, porque o risco de recaída é enorme. De preferência alguém assumir a tutela de quem sofre a dependência. O incentivo para procurar ajuda é fundamental, essa questão deve ser tratada como problema de saúde. O acolhimento é feito nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), principalmente nos Caps-AD [voltados ao abuso de álcool e outras drogas], em nosso Ambulatório do Jogo, em grupos de Jogadores Anônimos ou por profissionais da rede privada. O importante é buscar ajuda o quanto antes.

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Todo paciente precisa de acompanhamento psiquiátrico, além da psicoterapia? O ideal é fazer as duas coisas juntas. O Transtorno do Jogo costuma vir acompanhado de ansiedade, depressão e aumento do uso de substâncias, então tratar essas condições é parte do tratamento. Não existe uma medicação específica para o vício em jogo, mas o remédio ajuda a tratar o que agrava o quadro, como a impulsividade. Cada caso é um caso, mas esse é, basicamente, o protocolo.

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