O psiquiatra que passou 5 meses com líderes nazistas e descobriu que de monstros não tinham nada
A 80 anos do Tribunal de Nuremberg, filme do Prime Video resgata a história de Douglas Kelley, médico que avaliou a cúpula nazista e concluiu que era formada por homens comuns
O filme Nuremberg (2025) retrata o primeiro grande julgamento de líderes nazistas e a história do psiquiatra Douglas Kelley. / Créditos: Divulgação/Exército dos Estados Unidos
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Que tipo de gente é capaz de planejar o assassinato de seis milhões de pessoas? Há 80 anos, o mundo fazia essa mesma pergunta enquanto vinha à tona a dimensão da tragédia deixada pelo fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e se revelavam os horrores dos campos de concentração, onde o regime nazista matou e tentou aniquilar judeus, ciganos, homossexuais e opositores políticos.
A humanidade buscava respostas no Tribunal Militar Internacional, instalado na cidade alemã de Nuremberg. Entre novembro de 1945 e outubro de 1946, a corte julgou os mais altos comandantes do deposto Terceiro Reich para punir os culpados e tentar garantir que aquela barbárie nunca mais se repetisse.
É esse cenário histórico que o filme Nuremberg (2025), estrelado por Russell Crowe e Rami Malek recupera. A produção dirigida por James Vanderbilt foi ignorada pelo Oscar, mas redimida pelo streaming, chegando a figurar neste mês entre os títulos mais assistidos do Prime Video no Brasil.
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Mas antes de qualquer réu ir a julgamento, era preciso resolver uma dúvida jurídica: os acusados estavam mentalmente aptos a responder pelo processo? No direito penal, alguém que age sob o efeito de um transtorno mental pode ser excluído de responsabilidade criminal ou, no mínimo, ter nisso um atenuante. A missão de avaliar a sanidade dos agentes do Holocausto foi entregue a Douglas M. Kelley, o psiquiatra real que inspirou o protagonista do filme.
Assista ao trailer:
Quem foi Douglas Kelley, o psiquiatra do Tribunal de Nuremberg?
Aos 33 anos, Kelley já era visto como uma promessa da medicina militar norte-americana. Durante a Segunda Guerra, atuou em hospitais na Europa Ocidental tratando soldados aliados acometidos pelo que hoje conhecemos como transtorno de estresse pós-traumático. Pelo seu destaque, foi designado psiquiatra-chefe da prisão de Nuremberg em 1945.
Durante cinco meses, Kelley entrevistou diariamente 22 dos principais líderes nazistas capturados, incluindo Hermann Göring, o marechal do Reich e sucessor direto de Adolf Hitler. O jovem psiquiatra acreditava ter em mãos a oportunidade de uma vida: decifrar o traço psicológico que separava aqueles criminosos do resto da humanidade. “Se pudermos definir o mal psicologicamente, podemos garantir que algo assim nunca mais aconteça”, diz o personagem de Kelley no filme.
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A conclusão a que ele chegou, no entanto, contrariou suas próprias expectativas. Para ele, nenhum dos principais prisioneiros apresentava sinais de doença mental. O achado desmontava a tese de relatórios do serviço de inteligência dos Estados Unidos, que tendiam a patologizar os líderes do Terceiro Reich.
Homens comuns, não monstros
Em 1947, Kelley registrou suas observações no livro 22 Cells in Nuremberg (“22 Celas em Nuremberg”, sem versão em português), escrito em linguagem acessível para o público geral. Segundo o psiquiatra, os líderes nazistas não pertenciam a um “tipo psicológico especial”. Personalidades como a de Göring – dominantes, agressivas, egocêntricas e pragmáticas – podiam ser encontradas em qualquer cidade dos Estados Unidos, atuando como empresários de sucesso, políticos influentes ou chefes do crime organizado.
No capítulo final, Kelley transformou a constatação clínica em um diagnóstico social e político. “Será que não temos ultranacionalistas entre nós que aprovariam qualquer política, por mais perversa que fosse, desde que se pudesse dizer que é vantajosa para a América?”, escreveu o psiquiatra.
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Para proteger a democracia contra o totalitarismo, o médico chegou a propor reformas objetivas: voto universal e obrigatório na prática (quanto maior a participação, mais difícil para uma minoria manipular o resultado); recusa eleitoral a candidatos que explorassem politicamente categorias como raça e religião; e reestruturação do ensino para formar cidadãos capazes de pensamento crítico.
O trágico fim de Douglas Kelley
A mensagem de Kelley não encontrou eco na época. O livro foi um fracasso comercial, em parte porque a sociedade americana do pós-guerra não aceitava ter sua superioridade moral questionada ou ver espelhada em si a semente do autoritarismo.
Quem fez sucesso foi o psicólogo Gustave Gilbert, que também avaliou os prisioneiros de Nuremberg e ofereceu uma narrativa confortadora: a de que aqueles homens eram figuras anormais.
Desiludido, Kelley passou a enfrentar graves problemas com o álcool e episódios de depressão. Em 1958, antes de completar 46 anos, tirou a própria vida. Ele usou cianeto, a mesma substância que Göring, seu paciente mais famoso, usou para escapar da forca na prisão de Nuremberg, 12 anos antes.
A trajetória de Kelley ficou esquecida por décadas até ser resgatada pelo jornalista Jack El-Hai no livro O Nazista e o Psiquiatra (2016), lançado no Brasil pela Editora Planeta. El-Hai fez uma espécie de biografia do médico a partir de documentos preservados pela família de Kelley – material que hoje integra o acervo do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos. A obra serviu de base para o roteiro do filme Nuremberg.
A banalidade do mal e a atualidade de Kelley
A tese de Kelley antecipou em quase duas décadas um dos conceitos mais influentes sobre os executores do Holocausto: a “banalidade do mal”, formulado pela filósofa alemã Hannah Arendt. Ela cunhou a expressão ao cobrir o julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann em 1961. Sua obra, Eichmann em Jerusalém (1963), tornou-se referência ao revelar como grandes atrocidades podem ser cometidas por pessoas comuns em circunstâncias extraordinárias.
Oitenta anos após o Tribunal de Nuremberg, a reflexão deixada por Douglas Kelley permanece urgente em um mundo marcado pela polarização e pela ascensão de discursos extremistas: a distância entre a normalidade social e a barbárie é sempre menor do que gostaríamos de acreditar.
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