Xica da Silva: símbolo de empoderamento ou de hipersexualização da mulher negra?
O filme que marcou o cinema nacional como o primeiro protagonizado por uma atriz negra e fez de Zezé Motta ícone volta aos cinemas para celebrar 50 anos de seu lançamento e reacende um debate que atravessa décadas
Créditos: Divulgação
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Em 1976, mais de três milhões de brasileiros foram ao cinema ver uma mulher negra, ex-escravizada, subjugar sem pudor os homens brancos que a cercavam. O filme Xica da Silva, de Cacá Diegues, se tornou um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema nacional e também um dos mais controversos. Meio século depois, o filme volta aos cinemas brasileiros a partir de 16 de julho, pela Sessão Vitrine Petrobras, trazendo de volta uma pergunta: Xica foi uma revolução na representação da mulher negra no audiovisual, ou mais uma forma de aprisioná-la num estereótipo?
A escravizada que virou rainha nas telas
O filme é inspirado na vida de Francisca da Silva de Oliveira, nascida na condição de escravizada nas proximidades do Arraial do Tejuco, atual município de Diamantina, em Minas Gerais, entre 1731 e 1735. Ela se tornou uma das mulheres mais poderosas do Brasil colonial. Foi alforriada por João Fernandes de Oliveira, administrador da exploração de diamantes da região, com quem manteve uma relação pública por cerca de 15 anos. Tiveram 13 filhos e, mesmo após a partida dele para Portugal, ela seguiu mantendo patrimônio e prestígio próprios.
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A adaptação de Cacá Diegues, baseada no livro Memórias do Distrito de Diamantina da Comarca do Serro Frio (1868), transformou essa mulher histórica em uma figura irreverente, sensual e subversiva. A produção foi lida à época de sua estreia como uma crítica indireta à ditadura militar que governava o país na década de 1970.
Para a atriz Zezé Motta, que viveu Xica e se tornou, com o papel, a primeira mulher negra a protagonizar um filme no Brasil, a personagem carrega um significado que ultrapassa a tela. Depois de estrelar o filme, ela passou a questionar mais profundamente o racismo que sentia na pele e se aproximou do ativismo. “Com o sucesso de Xica da Silva, me perguntavam como era ter protagonizado um filme sendo uma mulher negra. Ficava frustrada, pois tinha o sentimento da mulher negra, mas não o discurso articulado. Fui fazer um curso com a antropóloga, socióloga e ativista Lélia Gonzalez, que disse: ‘Não temos tempo para lamúrias. O que temos que fazer é arregaçar as mangas e virar esse jogo'”, contou à Tpm em 2019.
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O outro lado do mito
Nem todo mundo vê o filme de Cacá Diegues como uma pedra fundamental da representatividade negra. Já nos anos 1970, em plena efervescência da revolução sexual e do debate sobre o protagonismo feminino, setores da esquerda e da imprensa alternativa acusaram o cineasta de usar o apelo da comédia erótica para vender ingressos reforçando, sob o pretexto da subversão, a imagem histórica da mulher negra como objeto sexual.
A historiadora mineira Júnia Ferreira Furtado, autora de Chica da Silva e o contratador dos diamantes: o outro lado do mito (2003), vai além da crítica estética. Baseada em documentação de arquivos do Brasil, de Portugal e dos Estados Unidos, ela argumenta que Francisca da Silva, a mulher real por trás da ficção, não foi um ícone da luta contra o racismo. Pelo contrário, teria sido um exemplo entre negros alforriados que buscavam diminuir o estigma da cor reproduzindo os mecanismos da sociedade escravista. Afinal, Xica se tornou dona de terras e de escravizados.
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Zezé Motta: as dores e delícias de ser Xica da Silva
Essa ambiguidade em torno do mito histórico também marcou a vida de Zezé Motta, que precisou lidar com o ônus e o bônus de encarná-lo. Se por um lado o filme lhe trouxe visibilidade e reconhecimento no Brasil e fora dele, por outro a transformou num desconfortável símbolo sexual.
Em entrevista à Tpm, ela relembrou o quão traumática foi a repercussão imediata do filme: “Quando fiz o teste para Xica da Silva, saiu uma nota assim no jornal: ‘Quem passou no teste foi uma negra feia, porém exuberante'”, contou Zezé. A atriz também revelou o impacto da personagem em seus relacionamentos: “Essa história me causou problemas, porque eu tinha esse compromisso de ser uma Mulher-Maravilha, não podia decepcionar os parceiros. Estava tão preocupada que esquecia meu próprio prazer. Precisei trabalhar isso na minha análise”, disse. Ela também relatou ter sido abusada sexualmente por um taxista que a reconheceu pela personagem.
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Ainda assim, Zezé fez as pazes com o peso da personagem em sua carreira: “Quando as pessoas começaram a me chamar de Xica na rua, fiquei bem incomodada. Já tinha uns oito anos de carreira no teatro, tinha feito filme, novelas, e queria que meu nome artístico emplacasse, mas as pessoas só me chamavam pelo nome da personagem. Mais tarde, percebi que a Xica era minha madrinha, que não tinha que reclamar da vida, não. Estava tudo certo.”
Um filme de dois gumes
Cinco décadas depois, o clássico Xica da Silva segue sendo as duas coisas ao mesmo tempo e talvez seja exatamente aí que more sua importância. O filme, de fato, abriu caminhos: consagrou Zezé Motta como um dos grandes nomes da dramaturgia brasileira e referência para gerações de atrizes negras que vieram depois dela, como Taís Araújo, que encarnou a personagem na novela de 1996. Mas também expôs, na pele de uma mulher real, os limites de uma representação pensada majoritariamente por olhares brancos – algo que os debates de gênero e raça seguem revisitando até hoje.
Voltar aos cinemas 50 anos depois não resolve essa tensão. Mas talvez seja uma boa oportunidade para assistir a um marco do cinema nacional com outros olhos: não perguntando se Xica foi heroína ou fantasia, mas entendendo por que essas duas leituras sempre coexistiram e o que isso ainda diz sobre o lugar da mulher negra nas telas brasileiras.
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