Benditos sejam os ventres (que sustentam o capitalismo)
Rafaela Azevedo leu a Bíblia para criar "A Igreja da Fran" e descobriu como o cristianismo usa a maternidade para controlar as mulheres
A atriz e diretora Rafaela Azevedo escreve sobre a relação entre patriarcado e doutrina cristã, tema de sua nova peça "A Igreja da Fran". / Créditos: Celina Barbi
Quando comecei a trabalhar na minha nova peça A Igreja da Fran, o meu principal interesse era pesquisar a aliança entre o patriarcado e a religião cristã. Logo no início desta pesquisa, descobri que a maioria das pessoas que se consideram cristãs (católicas, evangélicas, batistas, presbiterianas e pentecostais) não faz a menor ideia da história da doutrina que escolheu seguir.
Pois bem, esse tinha que ser o meu ponto de partida. Fiz o exercício de ler a Bíblia, livro considerado sagrado pela parcela cristã. Depois de estudar essa obra – esforço que, pasmem, raros devotos e devotas realmente fizeram –, posso afirmar: a misoginia é uma das bases da cultura religiosa cristã.
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Três lindos trechos da Bíblia, este best-seller atemporal:
Coríntios 14:34-35 – Permaneçam as mulheres em silêncio nas igrejas, pois não lhes é permitido falar; antes permaneçam em submissão, como diz a lei. Se quiserem aprender alguma coisa, que perguntem a seus maridos em casa; pois é vergonhoso uma mulher falar na igreja.
Efésios 5:22-24 – Mulheres, sujeitem-se a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos. Ou até mesmo que uma mulher vítima de estupro deve se casar com o estuprador que a violentou.
Deuteronômio 22:28-29 – Se um homem se encontrar com uma moça sem compromisso de casamento e a violentar, e eles forem descobertos, ele pagará ao pai da moça cinquenta peças de prata e terá que casar-se com a moça, pois a violentou. Jamais poderá divorciar-se dela.
Reparem que não há margem para dupla interpretação. Para além dos versículos que destilam misoginia sem figura de linguagem, a construção arquetípica das personagens femininas da Bíblia tem como função a desumanização da mulher por meio de narrativas simbólicas.
“As personagens femininas da Bíblia têm a mesma função: a desumanização da mulher”
O meu trabalho no teatro também acontece por meio de técnicas narrativas como a inversão de papéis de gênero e a consequente desumanização do homem. Risos. Mas, notem, tudo isso acontece com uma licença ficcional em que todos ali assumem um acordo quase contratual de que estamos em uma espaço-tempo 100% simbólico; e mais: em um espaço de humor. Ninguém acha que a Fran, minha personagem-palhaça, vai realmente assassinar um homem da plateia em King Kong Fran, minha primeira peça. Ou acham? Risos.
A Bíblia, por outro lado, é um compilado de ficções fabulistas, muitas delas plágios de mitologias ainda mais antigas, reestruturadas por meio de uma construção psicológica de terror, obediência cega, pânico moral, culpa e medo para exercer controle sobre nós. Enquanto isso, o exercício necessário (e saudável) de pensamento crítico é punido. Não deixa de ser curioso (para dizer o mínimo) que, dentro dessa fantasia bíblica, o conhecimento seja simbolizado como “demoníaco”.
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Vocês já pensaram, por exemplo, sobre as nuances do arquétipo da Santa Mãe Virgem Maria? O que, à primeira vista, pode parecer uma exaltação, é, na verdade, mais uma forma de controle, opressão e objetificação feminina. A gravidez virginal de Maria não deixa de ser mais uma tentativa simbólica de dissociar a função de gestar do ato sexual, que é a prática necessária para que exista uma gestação – importante lembrar!

Quando se constrói uma fábula religiosa dogmática como essa, o interesse é que esse arquétipo influencie simbolicamente a cultura e consequentemente o comportamento de uma sociedade. O enaltecimento da maternidade, transformando a personagem Mãe Virgem Maria em um ideal feminino de procriação, submissão, pureza, passividade, amor incondicional, dedicação ao cuidado, é a expressão da função social que as mulheres devem ocupar dentro da cultura patriarcal.
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Gerar filhas e filhos também é gerar mão de obra para o sistema capitalista. A própria palavra “proletariado” vem de “prole”. Pois bem, imagine agora se, em um grande acordo, todas as mulheres do mundo decidissem parar de gerar essa mão de obra? Esse sisteminha querido começaria a entrar em colapso. Logo, foi preciso nos convencer de que a maternidade é algo fundamental e indissociável da nossa existência. E, convenhamos, o cristianismo tem feito um ótimo trabalho ao aplicar esse verniz maternal sobre nossos ventres.
“Gerar filhas e filhos é gerar mão de obra para o capitalismo. A palavra ‘proletariado’ vem de ‘prole'”
Além dessa construção cultural romântica da maternidade, existe também a ideia de que a completude de uma mulher só é alcançada quando ela realiza a função de ser mãe – e, claro, de que a desempenhe de forma exemplar, seguindo o ideal construído da Virgem Maria: com dedicação absoluta e sobrecarga física, mental e emocional. Tudo isso em função de um Salvador e performando satisfação plena em ser explorada com a crença de que esse é seu instinto feminino.
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Se pensarmos em instinto, é claro que teremos que olhar para o sexo, que é absolutamente necessário na existência humana. É fonte de prazer e de fruição da nossa saúde física, mental, emocional. Mas não para a religião cristã. Esta demoniza o sexo, caracterizando-o como algo ruim, impuro e indigno – uma estratégia quase infalível para instaurar a culpa e a vergonha (quem nunca?). Esse conceito artificialmente criado, que define o instinto sexual como pecaminoso e algo a ser combatido, gera uma batalha interna que, adianto, nunca será solucionada. Exceto, é claro, se essa mesma doutrina vender a solução, isto é, a de nos “salvar” de um “pecado” que ela criou.
“A sexualidade é vital, embora seja demonizada por doutrinas cristãs. Enquanto isso, crimes sexuais cometidos por padres, pastores e homens cristãos são acolhidos”
Importante lembrar: o exercício de uma sexualidade saudável é fundamental para o bem-estar feminino, ainda que seja severamente enquadrado como algo a ser corrigido e até abominado por muitas doutrinas cristãs. Por outro lado, crimes como estupro, abuso infantil, assédio e importunação sexual, cometidos por padres, pastores, bispos, papas e também por homens cristãos em geral, são protegidos pelas instituições religiosas. Mais que isso, esses criminosos acabam acolhidos pela comunidade cristã que, de forma intrigante, aceita essa violência se ela for cometida por alguém que usa o infalível álibi do “nome de deus”. Sim, “deus” em minúsculo, pois não tenho nenhuma intenção de reforçar um costume que propaga violência há milênios.

Para mim, a doutrina cristã é política e extremamente autoritária. Ela exerce o controle por meio de um sistema de crenças, práticas, rituais e símbolos. Nós, como um país colonizado, tivemos nossa cultura destruída e substituída por uma matriz religiosa que abaixou a cabeça para o extermínio de milhares dos nossos ancestrais e foi instrumento de uma catequização forçada. A nossa espiritualidade, que abrange todas as formas de simbolizar e lidar com a própria subjetividade, foi sequestrada.
“Virgem Maria que me desculpe, mas prefiro figuras femininas demasiadamente humanas que gozam, gargalham alto, descansam, questionam e lutam”
Hoje, ainda repetimos o comportamento cristão que, além de toda violência, vem de um povo que nos invadiu. E invadiu em tudo: na terra, na política, na cultura, na mente e no corpo (sobretudo o da mulher). Não há dúvidas que a religião cristã e o patriarcado se retroalimentam para manutenção e preservação de uma cultura que beneficia e centraliza o poder nos homens enquanto inferioriza, abusa, explora e violenta mulheres.
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Por tudo isso, Virgem Maria que me desculpe, mas eu prefiro usar outras referências: figuras femininas demasiadamente humanas que transam sem culpa, se masturbam, gozam, gargalham alto, descansam (!!!), pensam, criam, questionam, e lutam! São mulheres independentes. É com elas que quero dividir o desejo de destruir esse sistema falido, misógino, racista, pedófilo e homofóbico e de construir uma sociedade mais igualitária.
Fica aqui o convite. Estamos às vésperas da estreia do meu novo trabalho no teatro, A Igreja da Fran. Algumas sessões já estão esgotadas, mas ainda há ingressos disponíveis para outras datas. Eu te convido a assistir ao espetáculo e sonhar comigo uma utopia de liberdade (e um pouco de vingança).

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