Pervcam: o close que não queremos mais ver na Copa
A tática de dar zoom com apelo sexual em mulheres nas arquibancadas foi banida pela Fifa para combater o machismo nos estádios, mas a hipersexualização não some das telas facilmente
A "pervcam", também chamada de "honey shot" ou "babe cam", consiste em filmar mulheres em eventos esportivos como isca de audiência masculina, sem qualquer motivo jornalístico. / Créditos: Daniel Lo/Unsplash
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Enquanto o planeta acompanha com entusiasmo a Copa do Mundo de 2026, uma batalha antiga continua sendo travada bem longe da bola. Trata-se da disputa que define como os corpos das mulheres são projetados e consumidos através das telas. Quem tem o hábito de assistir a transmissões de jogos certamente já viu a imagem cortar subitamente do campo para um close estático e demorado em uma mulher considerada atraente na arquibancada.
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Essa busca deliberada por atributos físicos femininos sob o pretexto de registrar a atmosfera da torcida não tem nada de inocente. É uma escolha de enquadramento fundamentada no olhar masculino, que assume que a audiência esportiva é feita por e para homens. Hoje, essa prática de hipersexualização é denunciada e combatida no esporte sob o nome de pervcam (uma junção de pervert, pervertido em inglês, e câmera). Na indústria televisiva, a prática também ficou conhecida por termos como honey shot e babe cam.
A pervcam consiste em filmar mulheres em eventos esportivos como isca de audiência masculina, sem qualquer motivo jornalístico.
De torcedoras à atletas: ninguém escapa do close do machismo
Quando direcionada às torcedoras, a pervcam transforma o estádio, que deveria ser um território de lazer, em um ambiente de constante vigilância e desconforto. Um dos casos mais emblemáticos dessa engrenagem foi o da paraguaia Larissa Riquelme, alçada ao posto de musa da Copa de 2010 após aparecer na arquibancada com um aparelho celular entre os seios. Esse tipo de abuso era tão normalizado que, na Copa de 2018, a agência de fotografia Getty Images chegou a publicar uma galeria inteira dedicada às “torcedoras mais sensuais” do Mundial, precisando retirá-la do ar logo em seguida após uma enxurrada de críticas legítimas.
Nos campos, nas quadras e pistas, esse tipo de enquadramento invasivo reduz atletas de elite a meros objetos de desejo. A câmera pervertida opera por meio de closes excessivos em partes do corpo como seios e nádegas, ângulos de baixo para cima e repetições em câmera lenta de posturas e gestos erotizados. Até pouco tempo atrás, isso era comum até mesmo em jornais impressos, que estampavam imagens estereotipadas de profissionais que não traduziam em nada o espírito esportivo.
Esse tipo de enquadramento invasivo reduz atletas de elite a meros objetos de desejo.
Em 2023, uma pesquisa da agência VML com a Lux para a campanha “Change The Angle” revelou que as mulheres têm 10 vezes mais chances de ser objetificadas pelas câmeras em eventos esportivos do que os homens. Para escancarar o problema, a iniciativa jogou o jogo da própria mídia durante a transmissão do Durban Open Beach Volleyball, na África do Sul: as atletas usaram QR codes nas áreas do corpo mais visadas de forma sexista pelas lentes, transformando o enquadramento invasivo em um canal de informação sobre a campanha.
A ditadura dos uniformes impostos
Esse ecossistema de erotização das telas é historicamente facilitado e estimulado por regulamentos que obrigam as mulheres a usarem trajes desconfortavelmente justos, curtos e cavados em diversas modalidades esportivas.
Em entrevista ao Trip FM em 2020, a jogadora de vôlei de praia Carol Solberg expôs o incômodo de estar na quadra de biquíni e se sentir vulnerável diante de operadores de câmera que abusam dos enquadramentos. “Às vezes você está ali para sacar e fica com a bunda literalmente na cara de uma pessoa com uma câmera, sabe? É muito desagradável. Tem zilhões de sites com bunda de jogadora de vôlei, em posições que você está com a perna pro alto. Muitas vezes a gente joga em lugares com o clima frio e rola esse assunto: ‘Mas vai jogar de roupa? É ruim para a televisão!’ É triste pensar que um esporte está ligado à pessoa ligar a televisão e ver um monte de mulher de biquíni, não é esse o jogo. Tem uma mulher ali exposta dentro de uma quadra fazendo o trabalho dela.”
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A opressão estética coleciona episódios absurdos na história do esporte. Nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, após conquistarem as primeiras medalhas femininas do país, as jogadoras brasileiras Sandra Pires, Jacqueline Silva, Adriana Samuel e Mônica Rodrigues foram orientadas pela organização a subir ao pódio usando biquínis em vez do agasalho oficial do Brasil, sob a justificativa de que seria “mais bonito”.
“É triste pensar que um esporte está ligado à pessoa ligar a televisão e ver um monte de mulher de biquíni.”
Carol Solberg, atleta de vôlei de praia
Décadas depois, a resistência das atletas começou a sacudir as federações. Em 2021, a equipe feminina norueguesa de handebol de praia se recusou a usar biquíni e optou por shorts durante o campeonato europeu, sendo punida com uma multa de 1.500 euros pela escolha. No mesmo ano, as ginastas da Alemanha abandonaram os collants tradicionais nos Jogos de Tóquio e adotaram macacões de corpo inteiro como um manifesto explícito contra a sexualização na ginástica.
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A mudança estrutural na marra
A desconstrução desse padrão televisivo misógino não aconteceu por boa vontade das emissoras, mas sim por meio de intensa pressão política e social. Durante a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, a organização Fare Network identificou dezenas de casos de assédio contra mulheres. Diante desse cenário, a Fifa foi pressionada a tomar providências e respondeu com uma diretriz inédita, ordenando que as redes de transmissão interrompessem os closes demorados em mulheres com conotação sexual. Essa postura foi mantida no Catar em 2022 e se consolidou como padrão obrigatório para as transmissões de Copas do Mundo.
Na mesma linha de combate ao sexismo, o Comitê Olímpico Internacional (COI) estabeleceu seu guia técnico de representação igualitária e inclusiva, adotando o lema de valorizar o apelo esportivo em vez do apelo sexual. “A cobertura esportiva desempenha um papel importante na formação de normas e estereótipos de gênero e na promoção de novos modelos positivos e diversos. No entanto, ainda existem diferenças fundamentais na forma como as mulheres atletas e o esporte feminino são retratados em comparação com os homens. Além de terem menos exposição e, portanto, menos visibilidade, as atletas recebem uma cobertura que tende a se concentrar em características não relacionadas ao esporte, como aparência física, vestuário e vida pessoal, e a ter suas conquistas marcadas por seu gênero ou papel de gênero”, afirma o documento do COI.
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A pervcam migrou de tela
Mas a mudança de regra nas transmissões dos jogos não apagou o hábito. Ele simplesmente migrou de tela: das transmissões oficiais para as páginas da web e as redes sociais. Segundo apuração da agência de checagem Aos Fatos, uma trend batizada de “torcedoras gatas” tem circulado nas redes durante a Copa de 2026. Diversas publicações compartilham imagens de mulheres supostamente flagradas nas arquibancadas para sugerir qual país teria as torcedoras mais atraentes. Só que essas imagens são geradas por inteligência artificial. Além de gerar engajamento à custa da objetificação, esse conteúdo também alimenta um golpe: usuários aproveitam a viralização das imagens fake para divulgar a venda de pornografia gerada por IA.
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A crescente e irreversível presença feminina na prática, nas arquibancadas e no jornalismo esportivo desafia a caricatura ultrapassada que tentava nos reduzir a meras musas ou marias-chuteiras. Por isso, não basta dar mais visibilidade, é preciso repensar e fiscalizar a forma como os corpos femininos são retratados na mídia impressa e digital. Afinal, para que o esporte seja verdadeiramente para todos (e todas), é necessário mudar a forma como as mulheres, em toda a sua diversidade, são vistas e se veem nesse espaço.
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