Pedro Henrique Tavares
Rafael Gonzaga

por Pedro Henrique Tavares
Rafael Gonzaga

Nas arquibancadas e na internet, mulheres que amam o esporte começam a retomar seu lugar de destaque na torcida, na organização dos clubes e dentro do campo

Em março, semanas depois do seu lançamento oficial, a página Movimento Toda Poderosa Corinthiana deu a primeira bola dentro. Numa quinta-feira pós-rodada, o jornal Lance! chegou às bancas e à internet com uma capa para lá de infeliz, com destaque para a modelo Thais Garcia, ~musa~ do São Bernardo (que perdera para o Corinthians de 3 a 0 na noite anterior). A capa do diário “apenas ressalta uma dívida histórica da sociedade para com as mulheres, sejam elas torcedoras ou jogadoras, que por décadas foram tratadas como um ‘não público-alvo’ do esporte, proibidas e boicotadas”, dizia a nota de repúdio compartilhada pela página. “Foi quando ganhamos destaque”, lembra Rosiane Siqueira, 28, jornalista e uma das 600 integrantes do grupo. “Enquanto milhares de mulheres seguem seus times por paixão à camisa ou dedicam uma vida como profissionais em campo, é ainda preciso diariamente fazer mais: lutar contra o machismo e a invisibilidade seletiva”, concluía a nota.

LEIA TAMBÉM: Atletas mulheres continuam a ganhar menos que jogadores e times masculinos

A Toda Poderosa é uma das muitas iniciativas recentes de mulheres engajadas em combater o machismo dentro e fora dos campos de futebol – empurradas, certamente, pelo momento histórico de organização feminina na luta por equidade de gênero em tantas outras frentes. Em comum, estes grupos têm a intenção de discutir o papel da mulher na torcida, na organização dos clubes e dentro do campo, como atleta ou como profissional. Usam as redes sociais para difundir sua mensagem e angariar participantes, levam cartazes aos estádios e começam a pressionar as organizadas e os dirigentes de clubes por mudanças de postura.

Os questionamentos das mulheres do Toda Poderosa, por exemplo, vão desde problemas pontuais – como ausência de papel higiênico em banheiros no estádio – até a falta de representatividade em cargos. Monica Toledo, 48, advogada e membro do grupo, conta que uma pesquisa feita pelo Núcleo de Estudos do Corinthians (Neco) apontou que 60% dos formados em atividades ligadas ao futebol são mulheres. “Mas quem você vê trabalhando como fisioterapeuta dentro do Corinthians? E eu estou falando do Corinthians, mas vale para outros clubes também.”

LEIA TAMBÉM: Entrevistamos Marta, a rainha do futebol

O Movimento Toda Poderosa Corinthiana nasceu justamente quando um grupo organizado de torcedoras ligadas ao Neco decidiu questionar a representatividade feminina dentro do clube. Dos 15 cargos de diretoria, do Presidente ao Secretário Geral, nenhum é ocupado por mulheres na gestão atual. Mais: entre os 400 conselheiros do Corinthians, só 8 são mulheres.

Mesmo quando o assunto é torcida em estádio, a questão da representatividade não alivia. Segundo a pesquisa Ibope mais recente sobre o assunto, publicada em 2015, metade da torcida do Corinthians é formada por mulheres. Porém, outro levantamento, desta vez divulgado pelo Movimento por um Futebol Melhor em 2015, conta que apenas 20% dos 135 mil sócios-torcedores do Corinthians, o clube com maior número de associados em programas do tipo no país, são mulheres (procurado, o Corinthians não abre os dados sobre o programa).

Para as integrantes do Toda Poderosa, a resistência masculina em abrir mão de um espaço de dominação é um dos principais entraves na hora de atrair novas torcedoras ativas. “A sociedade patriarcal diz que aquele [o estádio] não é lugar para mulher”, avalia a publicitária Analu Tomé, 46, funcionária da webrádio Coringão e membro da Toda Poderosa. “A mulher tem que gostar de vôlei, de tênis, sei lá, de pingue-pongue, mas não pode falar do futebol. Quando a gente posta alguma coisa na fanpage aparecem comentários de homens dizendo para a gente não se meter no futebol deles. É como se a gente não tivesse o direito de estar ali e, sim, isso acaba inibindo mulheres.”

O clube ocasionalmente acerta o tom nas redes sociais, como quando se posicionou, em 28 de maio, sobre o episódio do estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro. Manifestando apoio à luta das mulheres pela garantia de direitos básicos, a página oficial do Corinthians postou uma montagem com várias torcedoras nos estádios acompanhada da seguinte mensagem: “Como já dissemos uma vez: lugar de mulher é onde ela quiser, ela se veste como quiser. Tolerância zero a qualquer forma de violência às mulheres! #‎EstuproNuncaMais #‎EstuproNãoéCulpaDaMulher #‎VaiCorinthians”. O post teve mais de 1,8 mil compartilhamentos.‬‬‬‬

LEIA TAMBÉM: Fernanda Gentil conta como se destacou num mercado dominado por homens

A luta pela representatividade feminina na arquibancada, na diretoria e no esporte não está restrita ao exemplo corintiano. Na organizada Setor Alvinegro, do Ceará Sporting Club de Fortaleza, torcedoras batalharam por espaço e, atualmente, contam com uma presidente em sua diretoria. A cearense Alana Silva, 26, frequenta os jogos do Ceará há mais de dez anos. Durante uma viagem à Salvador, em 2011, ela se aproximou da organizada. Seu clube enfrentaria o Bahia em um jogo decisivo para a permanência do time na segunda divisão do Campeonato Brasileiro. “Foi neste jogo que comecei a conhecer os membros da Setor. Pouco tempo depois, comecei a me envolver mais no dia a dia da organizada: ajudava na publicidade, redes sociais e venda de produtos”, conta. “Esse contato direto com os torcedores foi importante para a decisão, que partiu da diretoria, de me indicar para a presidência.”

A partir daquele momento, ela começou a tomar a frente da modernização do grupo, como o envolvimento maior com as redes sociais e venda de produtos com a marca do Setor Alvinegro. O anúncio de Alana como presidente da organizada foi feito em 2015, durante uma das convenções anuais. Segundo ela, a diretoria entendeu que seria um bom momento para promover mais inclusão de mulheres que, até então, tinham receio de frequentar os jogos.

A causa defendida por Alana ganhou ainda mais evidência em novembro do ano passado, no Estádio Presidente Vargas, na capital cearense. Em um jogo do Ceará contra o Bragantino pela Série B, uma faixa chamava a atenção na ala reservada à organizada: “Lugar de mulher é onde ela quiser”, dizia a mensagem. A ideia era estimular outras torcedoras a frequentarem os jogos do Vovô, como é conhecida a equipe. “Comecei a receber muitas mensagens de meninas que se sentiram encorajadas a frequentar. E não só na nossa torcida, mas em outros clubes do nordeste”, conta Alana. “Não temos dados precisos, mas diria que a presença feminina na torcida praticamente dobrou.”

Maíra Liguori, fundadora do Olga Esporte Clube, projeto da ONG brasileira Think Olga para transformar a relação das mulheres com o esporte, alerta para um risco comum deste exemplo: a “tokenização” da mulher. “Quando o homem que manda decide colocar a mulher em uma posição de destaque, pra ‘calar a boca’, parar de reclamar, ele transforma a mulher em um token”, explica. Ainda assim, para ela, presidentes mulheres de torcida são um avanço e isso é importante porque inspira outras a terem maior envolvimento com o esporte. “Há avanços. Algumas medidas de demanda feminista foram aprovadas na Confederação Brasileira de Futebol e uma delas é a criação de um departamento de futebol feminino [em Junho de 2016]. Agora a luta é colocar uma mulher a frente deste departamento.”

LEIA TAMBÉM: Milly Lacombe tenta explicar por que o futebol é, sim, coisa de menina

O machismo é uma marca profunda do futebol, o que torna a presença de mulheres e outros grupos nos estádios digna de luta. Desde 2013, o coletivo Palmeiras Livre balançava nas arquibancadas do Palestra Itália uma bandeira que representa a luta contra o racismo, a homofobia e o machismo. Na primeira semana de junho, a página do movimento sofreu uma onda de ataques por parte da própria torcida alviverde. A principal articuladora do Palmeiras Livre, que prefere não ser identificada, conta que membros do grupo foram vítimas de ameaças de agressão e morte: “Ficou difícil levar nosso movimento para dentro do estádio, nos sentimos ameaçados.”

A hostilidade não ficou só nas redes sociais. No último clássico entre Palmeiras e Corinthians, no segundo domingo de junho no estádio palmeirense, o Allianz Parque, ouviu-se a já tradicional onda de xingamentos “Ô bixa!” a cada vez que o goleiro do time rival se direcionava para bater um tiro de meta. A luta contra a banalização das ofensas dentro do estádio de futebol é um dos objetivos do Palmeiras Livre, que sofre sem um apoio mais consistente do clube, que não se manifesta. “Alguns dirigentes já nos procuraram para saber mais sobre o grupo, mas nada avançou”, conta.

A veterana entra as torcidas antimachistas é a Galo Queer, fundada em 2013 pela cientista social Nathalia Duarte, 26. Ela conta que criou o movimento depois que começou a estudar o impacto da diferença de gênero e, durante um jogo do seu time, se viu como a única pessoa a não entoar um grito homofóbico. Hoje, o trabalho da Galo Queer por visibilidade e respeito é feito apenas no âmbito da internet, “porque infelizmente não nos sentimos seguras o suficiente para nos manifestar nos estádios”, conta Nathalia. Mas elas querem mais. “Queremos valorização igualitária do futebol feminino, queremos juízas, técnicas e comentaristas mulheres, mesmo nos jogos masculinos. Afinal de contas, os times de mulheres são comandados por técnicos homens, por que é tão absurda a ideia contrária?”

A organização contra o machismo no futebol veio para ficar. “A gente não está aqui pedindo nada, estamos exigindo porque isso é direito nosso”, conta a corintiana Analu. “Nós não queremos ser de torcida organizada e cortar o melão da festa. Se todo mundo cortar, eu posso até cortar também. Mas se um dia tiver eleições para conselheiro da Gaviões da Fiel eu também vou querer concorrer. Nós queremos ser conselheiras, queremos ser diretoras, queremos mulheres técnicas de futebol.”

LEIA TAMBÉM: Casagrande, passando a limpo

Créditos

Imagem principal: Michele Kanashiro

matérias relacionadas