por João Prata

Prestes a lançar um livro sobre sua relação com o jogador Sócrates, Walter Casagrande fala sobre a nova onda da democracia corinthiana, vício e impeachment

Casagrande senta-se para começar a entrevista. É sujeito demais para tão pouca cadeira. Estica as pernas para o lado, se ajeita com dificuldade. Justifica que ao acordar tropeçou no carpete e bateu o ombro direito no chão. Um menino de seus 15 anos surge e interrompe o princípio de conversa. Mãos trêmulas, gaguejando, confirma se aquele é mesmo quem ele pensa. Respira, olha vidrado sem conseguir falar. Finalmente toma coragem e pede uma selfie. Pergunto se é corintiano. Palmeirense. Casão levanta-se, posa para o celular, dá a mão esquerda para cumprimentar o garoto que, antes de ir embora, diz ser fã dos comentários e manda lembranças ao Galvão.

É o tempo todo assim, ele diz. Onde quer que vá, aparece gente puxando assunto, tirando foto, dando palpite. No geral é um público um pouco mais velho, que lembra os tempos de jogador ou vem questionar algum comentário durante a transmissão. Também pudera. A tranquilidade com que leva a vida hoje, a calma com que conversa, é avessa a vida superlativa que levou até uns tempos atrás.

Grande Casa, do alto de seus 1,91m, tornou-se homem-gol do seu clube do coração, o Corinthians, com 18 anos de idade. Participou de festas homéricas, se tornou parceiro de artistas e intelectuais, defendeu a seleção brasileira em Copa do Mundo (quando isso era invejado por muitos), foi um dos símbolos políticos que lutou pela volta da democracia, casou-se com a mulher de seus sonhos e foram viver felizes por uns bons tempos na Itália, com dinheiro e tudo do bom e do melhor.  

Mas a vida... e a vida o que é, diga lá meu irmão?, questionaria o amigo Gonzaguinha, com quem jura ter tido a conversa mais longa de sua vida, das onze da manhã às sete da noite. Isso no dia que se conheceram. A vida seguiu e, junto com o fim da carreira bem-sucedida de jogador de futebol, ela cobrou um preço alto. A força que Casagrande teve para conquistar todos os sonhos de sua vida o empurrou com a mesma intensidade ladeira abaixo. A cerveja, a maconha, a cocaína e tudo o mais que ele dominava, se divertia e vencia com tranquilidade, aos poucos, reagiu. Quando deu por si, abriu os olhos em uma clínica de reabilitação depois de passar dias em coma por causa de um acidente de carro. Perdia de goleada.

Foi quando a família interferiu e montou uma marcação implacável, mais dura do que qualquer zagueiro que ele enfrentou. Passaram-se dez anos desde que deixou a clínica. Precisou de tempo para reconquistar a confiança dos três filhos. Hoje é das pouquíssimas personalidades que tem coragem de vir a público falar sobre o tema. Vive uma luta diária pela saúde, que envolve a presença de quatro psicólogos e assistência 24 horas por dia para não vacilar novamente. Nem um inocente bombom de licor pode passar impune na nova vida do grande ídolo corintiano.

Para manter-se ligado e também não tirar da memória sua fase mais libertária, Casagrande decidiu passar a limpo sua vida. Primeiro, em 2013, lançou a biografia Casagrande e seus Demônios, escrita pelo jornalista Gilvan Ribeiro. Agora, depois de um estalo quase que sertanejo, teve a ideia de reunir as histórias que viveu ao lado de sua grande dupla: Sócrates, que morreu em 2011 vítima do abuso de álcool.

Conheceram-se jovens, cabeludos e rebeldes. Chamaram a atenção também daqueles que nunca ligaram para uma partida de futebol. Eram muito parecidos. Sócrates, como um irmão mais velho, é quem dava as duras. Mais para frente a relação se inverteria e Casagrande passaria a apontar os vacilos do parceiro. Nunca brigaram de fato, porque nunca um se meteu na vida do outro. “Talvez tenha sido um erro”, analisa Casagrande. Viveram grudados no início dos anos 80, tempos da Democracia Corintiana e se afastaram, sem mais nem menos.

Além das tabelas com Magrão, Walter Casagrande Júnior, hoje 53 anos, emprestou seus dotes de comentarista da Rede Globo e deu seus pitacos sobre o momento do Brasil. Do governo ao ponta esquerda, ninguém escapou da opinião sincera e direta dele que é, segundo o publicitário Washington Olivetto, o primeiro ídolo pop do futebol. Um pré-Neymar.

O Dunga fez certo em utilizar o Neymar na Olimpíada em vez da Copa América? O Neymar é o maior jogador do Brasil. Tem duas coisas aí: o emprego do Dunga e a medalha olímpica. Pelo que ouço, o Marco Polo [Del Nero, presidente da CBF] cobrou melhor rendimento. Teria dito que se não for bem na Copa América poderia cair. O Dunga optou pela medalha, mas não sei nem se chega lá.

Não chega na medalha de ouro? Acho que não. Não confio.

Então o Dunga errou? Pra mim, o mais importante é ir bem nas eliminatórias, classificar para a Copa do Mundo. A Olimpíada é tudo menos o futebol. Se o Brasil não for bem na Copa América, vai pesar. A imprensa vai cair em cima, vai cobrar. Vai escolher um treinador substituto. Vão criar enquete para o público. Se for mais ou menos na Copa América e mal na Olimpíada, aí acho que cai.

E as eliminatórias, vai ser a pior da história do futebol brasileiro? Que seja a pior. É isso que nós temos que perder. A Argentina já foi para a Copa jogando repescagem com a Nova Zelândia e não é por isso que eles morreram lá. O importante para o Brasil é classificar. Acho que se classifica de terceiro para trás. Terceiro, quarto, ou repescagem. Mas não importa. Remontar qualquer coisa depois daquele 7 a 1 é muito complicado. Até hoje nos achamos os melhores do mundo, mas isso já era. A seleção não é boa, mas acham que é. Toda vez que o Brasil entra em campo, acham que é favorito. E nós não somos mais favoritos em nada. É muito raro um jogo que a gente seja favorito.

Qual seria sua seleção titular? Goleiro é o Alisson, acho que esse moleque vai ficar muito tempo na seleção. Ainda confio no Daniel Alves. Colocaria Miranda e Gil na zaga. Chamaria o Marcelo. Mudaria esse negócio de dois volantes marcadores. Entraria com Elias, Rafinha, Renato Augusto, que é o jogador mais importante do Brasil. No ataque: William, Neymar e Gabigol, que pra mim já deveria ser o camisa 9 da seleção, deveria jogar de centroavante.

Onde você acha que estará o Del Nero durante a Copa América? [Risos] O Galvão [Bueno] fala que estará no Rio de Janeiro, que não vai para a Copa América. Também acho que ele não vai. O presidente da CBF é investigado pelo FBI. É muito esquisito isso.

Como salvar a CBF? A corrupção na CBF e no país vem lá de trás. Não foi o PT que inventou a corrupção. Só que chegou um momento que resolveram acabar com isso. O modo de se limpar é como a Fifa está fazendo com ajuda do FBI. Investigar todo mundo e depois fazer uma eleição direta.

E quem poderia mudar esse quadro? Acho que deveria ter mais jogador tipo Raí, Leonardo... Jogadores mais preparados. Cafu, Roberto Carlos... Jogadores que foram campeões do mundo, a memória do brasileiro é favorável a eles. O mundo todo faz isso. No Brasil, a gente exclui os ídolos. Sabe por quê? Porque aí não vai dar para desviar dinheiro. O ex-jogador gosta de futebol e vai fazer o possível para que a coisa seja direita. Não estou falando que jogador de futebol é o mais honesto do mundo, só que a maioria dos grandes quer o bem do futebol. Dirigente não, quer ganhar em cima. E veta a presença dos jogadores.

Em 2013, o Paulo André, o Alex, o Dida e outros jogadores criaram o Bom Senso FC, que tinha como principal objetivo contestar os mandos e desmandos da CBF. O que achou dessa iniciativa? Depois da Democracia Corintiana foi o primeiro movimento interessante de jogador de futebol no Brasil. Mas aí um vai pra China, outro vai para a Ucrânia, outro para não sei onde e acaba... O jogador de futebol, a grande maioria, não quer se envolver com política. O movimento tem que ser constante, porque senão vai sempre começar do zero. A Democracia só sobreviveu porque foi constante. Se envolvia com tudo e aparecia a todo momento para ganhar terreno.

Falta mais atitude do Bom Senso? Não adianta aparecer, conseguir uma coisa e depois sumir. Quem é o Bom Senso hoje? Tem que ter marca. Constante.

O Bom Senso é declaradamente inspirado na Democracia Corintiana. A Democracia Corintiana foi muito importante. Mas quando acabou, acabou com a gente. Não teve jogador que quisesse se envolver depois. É um meio muito egoísta e não é um egoísmo mau. O jogador se comporta para garantir o contrato com o clube. Só que hoje eles ganham pra caralho e ficam preso ao egoísmo financeiro. Tem muitos jogadores que podem se envolver, mas não se envolvem porque está cômodo.

O Adilson Monteiro Alves e o Vladimir voltaram a levantar a bandeira da Democracia para lutar contra o processo de impeachment da Dilma. O que acha? Isso não existe. A Democracia Corintiana acabou em 1985. E outra, ninguém é dono da Democracia. Tem mais: eles usaram muito a imagem do Sócrates. O Sócrates morreu em 2011, ninguém sabe o que ele pensa. Tudo bem. Dá para deduzir o que ele pensaria. Mas o cara não está aqui. Não pode usar. Achei muito oportunismo de todo mundo.

“Eu não mudei de partido. Sou um petista decepcionado”
Walter Casagrande

Mas concorda com o que eles defendem? Também sou contra o golpe. Sou a favor da democracia e sempre vou ser. Mas nesse caso específico... Entendo a intenção deles, mas não concordo em usar o nome. Não é justo com o Sócrates. É oportunismo. Ficaram putos comigo porque falei isso pra eles. Mas é, cara. Ele morreu.

Em 1984, você participou da campanha para governador do Lula em São Paulo. Chegou a promover shows no Parque São Jorge. Como vê o PT hoje? A minha formação política é basicamente em cima do PT. Comecei a participar da política em 76, 78. Logo apareceu o Lula, apareceu essa linha que eu comecei a seguir e sigo até hoje. Claro que estou decepcionado. É o que sou hoje, sou um petista decepcionado. Eu não mudei de partido. Sou um petista decepcionado.

Tem alguém do partido que você ainda confia. No [Eduardo] Suplicy. É um ídolo meu na política brasileira. Nunca o vi envolvido em nada. Acho até que ele é engolido na política porque é correto demais. No próprio PT ele foi engolido.

A Dilma volta? Acho que não volta. Difícil. Mas não dá para querer tirar por incompetência. Isso não é motivo. A corrupção dos últimos cem anos caiu no colo do PT. Mas é claro, óbvio, que o Brasil precisa urgente de novas eleições. Isso que está acontecendo não é democracia.

Agora em 2016 faz 20 anos que você largou o futebol. Qual é o balanço que faz da carreira? Putz. Já fiz esse balanço algumas vezes. Fico olhando e penso: caraca, joguei uma Copa do Mundo e podia ter jogado mais. Aceitei jogar no Ascoli, que é um clube pequeno da Itália. Fiquei lá quatro anos. Poderia ter jogado em times maiores. Aí fico decepcionado. Mas também penso: poderia também não ter feito nada disso. Poderia não ter sido um jogador conhecido. Poderia não ter participado da Democracia Corintiana. Aí fico contente com minha vida. Por isso prefiro a segunda parte. Sou tranquilo com minha história. Joguei uma Copa do Mundo, mas e daí? Eu joguei. E joguei mal.

Se fosse outro técnico na Copa de 1986 em vez do Telê Santana, a história podia ter sido outra? Não, a culpa não foi dele. Cheguei em declínio físico. Fui com muita sede ao pote. A Copa era em junho e eu treinei feito um cavalo. Em maio, era considerado o melhor jogador da seleção brasileira. Mas em junho entrei em declínio físico. Na época não entendi isso. Fiquei puto com o Telê. Fui contra ele. Mas depois que fui amadurecendo, entendi. Cheguei doente na Copa do Mundo. A melhor coisa a fazer era não ter ido.

LEIA TAMBÉM: Entrevista com Walter Casagrande nas Páginas Negras, em 2002

Como era ser ídolo do Corinthians com 18, 19 anos? Me perdi. Tinha um certo momento que achava que podia fazer tudo, nada me parava. Me colocaram como o representante da juventude da época, o que era uma grande responsabilidade. Mas eu não tinha essa responsabilidade. Fazia as coisas do jeito que eu queria. E incomodava pessoas. Achava que todo mundo gostava de mim e não era verdade. Muita gente esperava uma falha para me derrubar. Governo, polícia...

E você acabou sendo preso no final de 1982, por porte de cocaína. Na biografia você diz que foi plantada pela polícia. O meu melhor ano no profissional foi apagado por causa disso. Fui campeão paulista. Fui artilheiro com 28 gols. Fazia 16 anos que um jogador do Corinthians não era artilheiro. Tinha tudo para deslanchar, ser titular absoluto da seleção brasileira. Fui preso e voltei à estaca zero.

O Sócrates, por ser mais velho, te ajudou? Ouvia muito o que ele falava. Estava sempre onde ele estava. Me sentia seguro do lado dele. Pouco antes de ser preso, deram o toque lá no Corinthians que queriam me pegar. Então ficava muito com ele. Os outros jogadores também se revezavam pra não me deixar sozinho. Mesmo assim não teve jeito.

Como foi isso? Teve uma reunião da Democracia Corintiana e ficou definido que cada hora um ficaria do meu lado. A maioria dos dias ficava com o Sócrates. Tenho muito do Sócrates na minha personalidade. E isso nasceu comigo, não é porque imitei. O Sócrates me falava: "você sou eu com 18 anos". Ele me falou isso diversas vezes. E ele tinha razão. Ele me ajudava muito com conhecimento, cultura, e eu dava vida, minha juventude. Foi uma troca muito honesta.

O Sócrates sabia que você fumava maconha nessa época? Ele nunca usou. Fumei uma vez na frente dele e ele saiu do quarto. Mas ele tirava uma com a minha cara [risos]. Ele colocou na cabeça que se eu chegasse no bar e bebesse coca-cola era porque eu tinha fumado maconha. Se eu chegasse e bebesse cerveja com ele, não tinha fumado. Isso porque uma vez comentei que quando fumava não gostava de beber. Ele colocou isso como uma marca. Então, toda vez que chegava no bar e pedia uma coca-cola, ele já falava: "Puta que o pariu.... Lá vem..." Era engraçado.

Ele ficou puto quando você fumou na frente dele? Ele não gostou e saiu.  Eu respeitei e nunca mais fiz isso. E ele nunca tocou no assunto. Ele nunca chegou pra mim e falou: "esse seu problema com droga". Nunca. Quando fui preso ele foi testemunha.

E como foi no julgamento? O Sócrates brincava um pouco antes e dizia: "fica tranquilo Casão, só vou dizer que sempre achei estranho que você entrava em campo e se ajoelhava na linha do cal. Não entendia porquê, mas agora entendo" [risos]. Eu dizia: "você vai me foder". E ele ria.

Você também não interferia no problema com bebida dele? Foi uma falha dos dois, vai. Nenhum se preocupar com o problema do outro. Mas também não era muito explícito.

No livro você revela uma certa mágoa dele por ser um pouco egoísta. O Magrão sempre atrasou, nunca cumpriu com as coisas dele. Ele começava uma coisa e nunca terminava. Isso começou a me irritar com o passar do tempo. Ele tinha todas as possibilidades do mundo, mas não fazia nada. Parou com o teatro no meio do caminho. Com a medicina, a mesma coisa. Com a música... Aí vai virar político, para. Tudo ele parou. Isso me pegava.

Foi por isso que se afastaram? Foi. Em 2002, 2003, o Gilvan Ribeiro, que escreveu minha biografia, uma vez tentou aproveitar um evento que eu e ele participaríamos para nos juntar. Aceitei. O evento era as nove da noite. Cheguei às oito. Sentamos, ficamos esperando... Ele só foi aparecer às onze. Ficou todo mundo lá esperando. Imprensa, patrocinadores, torcedores. No palco, fizemos um evento maravilhoso. O Paulo Cézar Caju, que apresentou, veio elogiar: "o entrosamento de vocês continua até no palco. Um começa a falar, o outro emenda". Mas saí e fui embora. Não quis papo. A única coisa que ele levou até o fim foi o alcoolismo.

E você não dava umas broncas nele? Dava. Dizia que ele não terminava nada. Teve uma vez até que estava o Juca Kfouri na mesa. O Juca veio me dizer que ficou impressionado: "foi a primeira vez que vi os valores invertidos. Desta vez foi você que deu uma dura nele e ele ficou quieto. Antes era o contrário".

O que ele fez que mais te irritou? Um dia ele me ligou pedindo emprego. Soube que a Globo procurava mais um comentarista. Falei com o pessoal, mas já sabiam como ele era. Não andou. Isso foi numa terça-feira. Na quinta, entro no Lellis Trattoria e tá ele, o [José] Trajano, o Juca Kfouri e mais outros caras. Vou lá cumprimentar e ele fala assim: "Ó aí o cara que se vendeu para a Globo". Eu quis matar ele.  Fiquei com a cara fechada, cumprimentei todo mundo, virei as costas e fui embora.

Mas não foi só uma brincadeira, uma ironia? Claro que foi uma brincadeira, mas foi desnecessária.

“Era louco para experimentar heroína. No Brasil não tinha. Fiquei infernizando a vida de uns amigos para arranjar”
Walter Casagrande

Vocês fizeram as pazes? Nós nunca fizemos as pazes porque nunca brigamos. A gente se afastou primeiro por razões normais da vida. Quando voltei da Itália, depois de oito anos, a primeira coisa que fiz foi ligar na casa dele em Ribeirão Preto.

Nessa passagem pela Europa, quando foi negociado com o Porto, você conta que comprou dois apartamentos. Conseguiu fazer um bom pé de meia? Não. Comprei o apartamento que dei para o meu pai e outro para mim. Comprei três casas na Penha, que é o bairro onde nasci [na Zona Leste de São Paulo]. Tinha 23 anos e consegui organizar a minha vida e da minha família.

Mas e os outros sete anos? Eu tenho que trabalhar até hoje. Não posso parar. Não me banco um ano fora da Globo. Naquela época não se ganhava muito dinheiro. Ganhei um bom dinheiro na Europa, mas me separei, né? Aí fodeu. Nem você ganha nem a sua mulher ganha. Vendemos sítio, vendemos casa para repartir. A única coisa foi que comprei uma casa em Alphaville, a casa ficou pra ela. Isso foi bom. Meus filhos cresceram lá. Tem os mesmos amigos desde pequeno.

Foi na Europa também que você experimentou heroína. Era louco para experimentar aquela porra. No Brasil não tinha. Fiquei infernizando a vida de uns amigos para arranjar. Nas primeiras vezes, fumamos. Mas eu queria mesmo era me aplicar. Fiz umas três, quatro vezes e depois joguei fora a seringa. Percebi que tinha me fodido. Tinha me arrebentado. A dependência é bem rápida. O corpo começa a pedir. Mas passei os outros anos da Europa sem usar nada. O problema é que a dependência não tem data pra voltar. Você passa dez anos sem usar e lá na frente ela te pega na curva.

Como foi na Itália? Minha permanência na Itália foi o núcleo da minha vida atual. Aquele período foi a base da minha vida. Fiquei muito família. Ficava bastante em casa. Nasceu um filho meu lá, o segundo. O mais velho era pequenininho. Me estruturei. Trabalhei muito, tinha dedicação para garantir uma boa condição para minha família. Só tinha o trabalho e a família. Ninguém me tirava dessa rota. Não saia, não caia na noite. Só ia aos lugares com minha mulher e meu filho.

Foi seu melhor momento? Joguei pra caralho no Ascoli, mas é um pra caralho diferente. O time jogava para não cair. No Torino também joguei bem, mas aí era para ganhar. Jogamos a Copa Itália, final de Copa Uefa, foi muito bom. Mas meu melhor período foi no Corinthians, na época da Democracia Corintiana.

Você voltou ao Brasil em 1994 e foi para o Flamengo. Teve aquele clássico jogo contra o Corinthians no Pacaembu. Esse jogo... Ainda me sentia um pouco europeu. Estava muito focado só no trabalho. Antes do jogo, pensei: a torcida vai me vaiar, encher meu saco. Isso vai me dar força. Tudo certo. Fiz meu plano psicológico em cima da vaia. Quando subi para fazer o aquecimento no gramado começou: "volta, Casão, seu lugar é no Timão". Acenei e achei que pararia ali. Me troquei, subi para o jogo e aquilo não parava. Aí começou a passar um monte de coisa na minha cabeça. Ficava constrangido. Foi uma confusão emocional. Tinha culpa por ter ficado feliz. Os sentimentos começaram a me confundir e fiquei uma estátua. Na minha cabeça, queria fazer dois, três gols no Corinthians. Porque você encara como inimigo. Aí você chega e a torcida torce para você e deixa de ser inimigo. Você não consegue fazer nada.

E aí voltou para o Corinthians. Não teve jeito. Mas foi a maior cagada que fiz na minha vida. Acelerou o processo de parar de jogar. Foi um erro meu, da diretoria e da torcida.

Por quê? Eles queriam o Casagrande de 82. Eu queria ir para o Corinthians por causa de 82. Quando fui me apresentar vinha na cabeça o Sócrates, o Zenon [de Souza Farias], pessoas que eu não ia ver, porque era outro mundo. O tempo passou. Nada será como antes amanhã. Tinha que ter ficado no Flamengo.

Mas a torcida do Corinthians gostou. É... valeu pelo final, para me despedir dos torcedores. Mas tinha que ter ficado no Flamengo. Teria feito muito mais gols. No Corinthians já tinha dado.

“Queria fumar maconha. Passaram três cabeludos e falei: vou atrás desses caras. Conheci o pessoal dos Novos Baianos assim”
Walter Casagrande

Você criou fama de roqueiro, cita sempre bandas de rock nas entrevistas, mas pela sua biografia dá pra ver uma ligação muito forte com a MPB. Vivia nos shows do Caetano, do Gil, ficou amigo do Gonzaguinha, do Fagner... Explica esse seu lado? Tenho um lado MPB muito forte. Eu cresci ouvindo MPB. Tenho na memória todas as coisas. Belchior, Ednardo, a música nordestina. Zé Ramalho, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, os Novos Baianos. Caetano, Gil, Gal. Era minha pegada. Elis Regina pra mim é o máximo. Pra mim Elis Regina e Janis Joplin não tem igual. Meu caminho inicial era a MPB mesmo. Mas sempre puxada pro rock. O rock’n roll era muito escondido. Peguei amizade com o Luiz Carlini, guitarrista do Tutti Frutti, gostava do Bicho de Seda, uma porrada de banda escondida. Mas no começo dos anos 80 a pegada era MPB.

Como entrou para o mundo da música? O primeiro contato foi muito engraçado. A gente tava na Bahia, um calor infernal. Estava no quarto do hotel com a porta aberta. Queria fumar maconha, mas não tinha levado nada. Aí passaram três cabeludos. Falei: vou atrás desses caras. Comecei a conversar com os caras, disse que queria fumar um. Eles: "beleza, vem aí com a gente". Fui atrás e entramos no quarto do Paulinho Boca de Cantor. Conheci o pessoal dos Novos Baianos assim.

E a amizade com o Gonzaguinha? Aí foi diferente. Teve um evento no Parque São Jorge e ele apareceu. Foi o recorde de conversa que tive na minha vida. Começou umas onze horas da manhã e paramos só sete da noite. Ficamos na cerveja e conversando. Não lembro quais foram os assuntos. Mas foi o dia inteiro. Nos tornamos grandes amigos.

Tem também uma história boa quando você conheceu o pessoal do samba. Fui jogar futebol no sítio do Chico Buarque. Tinha 19 anos, tava deslumbrado. Tinha um monte de artista. Quando acabou, um sambista conhecido chamou todo mundo para ir na casa dele. Fui. Sentamos em uma mesa redonda. Aí começou a girar o prato embaixo da mesa com cocaína. A mulher do cara fazia linguiça e não podia saber de nada. Mas ela começou a ficar desconfiada porque ela vinha com a comida e ninguém aceitava [risos]

E os caras te sacanearam, né? Fizeram um tiro pra cada um, mas não queriam dar para um ator ali que era mais velho e tinha problema no coração. No início da roda, um cheirou a desse mais velho e foi passando. Quando chegou em mim, só tinha a minha. Passei o prato vazio e esse cara mais velho ficou puto. E os outros: "foi o Casagrande que cheirou". O cara queria me matar [risos].

Ainda te confundem com o Lobão? [Risos] Sempre fui fã da música do Lobão, me identificava. Teve uma época que me confundiam muito com ele. Era todo dia. Fui assaltado uma vez em São Paulo. A polícia pegou os bandidos. Formou uma roda de curiosos. Aí o cara comentou: ‘aí Lobão, você vem do Rio pra São Paulo pra ser assaltado. Que merda, hein?’.

Você não desmentia? No começo eu tentei. Mas depois eu desisti. Comecei a dar autógrafo em nome do Lobão e ele fazia o mesmo por mim. Ficamos amigos por causa disso.

E sua tentativa de produzir shows do Raul Seixas? Chegou a ficar próximo dele? Fiquei. Fiquei uns seis meses conversando com o Raul. Tive uma empresa de promoção de eventos. Em 1983, sugeri fazer o Raul. Sou fã dele, queria conhecê-lo. Ele tava em baixa. Queria levantar ele também. Ele é o máximo. É Raul e Rita Lee. Rei e Rainha do rock.

“Durante minha vida o diabo me deu muitos toques, porque eu acreditava nele. Mas ele me fez mal, muito mal”
Walter Casagrande

Acha que o Raul é pouco reconhecido? No Rock’n Rio, em 1985, não terem chamado o Raul foi um absurdo. Fiquei puto. Não ter o Raul Seixas em um festival de rock no Brasil foi foda. Tinha que ter de qualquer maneira, o tempo que ele aguentasse.

O Raul, na música "Rock do diabo", diz: "existem dois diabos, só que um parou na pista, um deles é o do toque e o outro é aquele do exorcista". No ápice dos seus delírios, você via demônios. É por aí? A letra tem pra mim bastante sentido porque tinha muito ela na cabeça. Sempre me comportei indo atrás do toque do diabo. Achava que o diabo dava o toque. Ele era muito mais rápido. O Freud ficava explicando. E realmente durante minha vida o diabo me deu muitos toques, porque eu acreditava nele. Mas ele me fez mal, muito mal. Por isso hoje eu espero Freud explicar.

O que você tava usando para ver demônios? Nessa época eu estava estudando, lendo diversos livros sobre o assunto, por isso comecei a projetar essas imagens. Mas não posso te dizer o que era alucinação, o que era realidade. No começo era heroína. Depois cocaína em pó, injetável, comprimidos diversos e álcool.

Na sua biografia você comenta que ligou para os pais e chamou um padre para exorcizar sua casa, mas depois que o padre foi embora você ficou com mais medo. Pensei: me fudi [risos]. Agora eles se invocaram. Trouxe a pessoa que não devia ter trazido. Eles agora vão vir pra cima com mais raiva. Mas esse dia foi o fim. Fugi da minha casa, fui para o hotel. Na sequência saí de carro e sofri o acidente, que me levou para a clínica de reabilitação.   

Foi quando caiu na real que precisava de ajuda? O meu livro e a minha história mostram muito a cara da droga. Ela é gostosa, divertida, só que ela é prepotente arrogante, dominadora. Enquanto você na sua vida consegue usar e se divertir é do caralho. Quando você passa para o outro lado e ela começa a te usar e se divertir com você, aí é foda. A visão da droga começa a mudar. Quem já passou do nível, como é o meu caso, não tem mais volta. Não posso mais brincar com ela. Mas também não sou contra as drogas.

Não usa mais nada hoje? Nem um chopinho? Nada. Nem bombom de licor. Nem creme de papaia com cassis. Fumo quatro, cinco cigarros por dia e pretendo parar. Tô com uns adesivos pelo corpo pra parar. Mas não me incomodo. Saio com os amigos, vejo beber um vinho e não me incomodo. As pessoas me respeitam.

Deixou de sair à noite? Me controlo mais. Não vou mais no barzinho de bebança, porque é situação de risco pra mim. Se estou em um lugar muito agitado e sinto vontade de ir no banheiro, eu evito. Se tiver perto da minha casa, vou na minha casa. Porque sei que no banheiro pode ter gente cheirando. Evito situações de risco. Sou treinado para isso. Meu tratamento me ajuda nisso.

“Eu fui preso por causa de um baseado. Isso é ridículo. É óbvio. Mas para a liberação do consumo não é o momento”
Walter Casagrande

Como é a sua rotina? Na segunda-feira vou para a clínica onde fui internado. Tenho uma terapia com um psiquiatra, uma terapia com um psicólogo e faço dois grupos terapêuticos. Saio de lá, almoço e vou para um grupo de prevenção de recaída. A gente analisa a semana, vê as situações de risco e como evitá-las. Tenho dois focos no momento hoje: o meu trabalho e o meu tratamento.

O Uruguai regulamentou a venda de maconha em 2014. Desde então não houve mortes ligadas ao comércio da droga. Alguns Estados nos Estados Unidos também optaram pela legalização ou regulamentação. Em Portugal, desde 2001, ninguém pode ser preso por usar droga. O Brasil poderia optar por um desses caminhos? O Brasil não tem estrutura para isso. Olha a confusão que nós somos. Temos tantas coisas na política, no social para resolver. Não sou nem contra nem a favor. Não cabe. Temos prioridades. Sou a favor de regulamentar e definir que o usuário não pode ser preso. Eu fui preso por causa de um baseado. Isso é ridículo. É óbvio. Mas para a liberação do consumo não é o momento.

Quando você foi ao Faustão, logo depois de sair da clínica, você se abriu para todo o país. O momento que deixou todo mundo emocionado foi a declaração do seu filho mais novo, o Symon, que disse ter perdido o seu melhor amigo, mas que esperava que você o reconquistasse. Como está hoje a relação com seus filhos? O Symon... nós acabamos de voltar da Itália. Viajamos eu e ele. Ele está direto em casa. O meu tratamento tem isso também. O meu grande problema é a solidão. Me sinto sozinho mesmo no meio de pessoas.

“Fiquei lúcido um pouquinho na clínica, falei: 'caralho, perdi tudo.'”
Walter Casagrande

A solidão é interna. As pessoas revezam para ficar comigo. O meu motorista é meu acompanhante terapêutico. Fica comigo de segunda a quinta. Na sexta, vem o Leonardo com a namorada, o do meio. Não sei se reconquistei meus filhos, tem que perguntar para eles. Mas me reaproximei de todos.

Eles leram sua biografia? Leram. Mas nunca falaram nada.

Conversa com eles sobre drogas? Eles nunca usaram e eu acredito, porque o trauma deles em relação a drogas é muito pesado. O mais velho, o Victor, tem estrutura. É independente, bem resolvido. O Symon e o Leonardo têm pavor. Eles viram tudo o que aconteceu de perto.

E dos três filhos nenhum é corintiano. Não. Um é palmeirense, outro são-paulino e outro santista.

Como assim? Nunca falei de futebol em casa. Vivia treinando e jogando. Não falava nada, nem comentava. Nunca fiquei sentado com eles falando dos times. Deixei rolar. Não interferi. Acho legal.

Você contou sempre com o apoio da Globo. Mudou sua relação com a emissora depois de todos os problemas enfrentados? A Globo foi determinante. Quando fiquei lúcido um pouquinho na clínica, falei: caralho, perdi tudo. Minha mulher pediu divórcio, meus filhos ficaram putos e ainda perdi o emprego. Aí um diretor foi lá e falou: "fica tranquilo que tá tudo certo, nós vamos te apoiar, só se preocupa em se tratar". Me deu um gás. Só saio da Globo se eles não quiserem mais.

Qual é a responsabilidade de comentar futebol na emissora de maior audiência do Brasil? A Globo é um canhão. Você pode destruir uma pessoa com duas palavras. Precisa ter muito equilíbrio. Não ensaio nada. Gosto de fazer tudo ao vivo, gosto do sentimento, da verdade, e ela está no ao vivo. Não falo qualquer coisa. Tenho também a preocupação, com a responsabilidade.

O criticado nunca entende a crítica, né? É muito difícil. Muitas vezes você fala uma coisa no jogo, diz que o cara tá mal. O cara leva como uma coisa permanente. A única coisa que tenho que me preocupar é com a honestidade. Quando tiro o terno da TV Globo, não quero mais saber. Vou para minha casa, ver um filme, saio para jantar e não quero ficar discutindo críticas que fiz.

Já tá acostumado com o terno da Globo? Já. Moldaram pra mim. Depois de dez anos conseguimos acertar. Porque no começo a gravata ficava para um lado, pro outro. Era uma luta [risos].

Em 2012, você se emocionou ao vivo ao comentar a conquista do Corinthians no Mundial. Foi o momento mais marcante da sua carreira como comentarista? Foi sim. Nasci corintiano, meu sonho sempre foi jogar no Corinthians. E esse título foi um projeto que nós pensamos lá atrás. Em 1984, nós fomos para o Japão para divulgar o Corinthians. O nosso pensamento era ganhar Brasileiro, Libertadores e Mundial. Chamava Projeto Tóquio e ficou famoso na época. Saiu na Placar. E ele foi realizado só em 2012. Me emocionou. Você chega lá e só tem corintiano. Para onde você andava só tinha corintiano. Os japoneses sumiram. Foi muito louco.

Pensa em continuar na TV por mais quanto tempo? Tenho contrato até 2019 e pretendo fazer mais um contrato de cinco anos. Tenho 53, sou jovem para comentarista. O Júnior tem 63 e faz os jogos da seleção brasileira junto comigo. Pensando assim, tenho pelo menos mais dez anos.

Você vai lançar agora um novo livro de histórias com o Sócrates. Como surgiu a ideia? Quando o Sócrates morreu, em 2011, fui fazer o jogo Corinthians e Palmeiras. Cheguei lá e veio todo mundo em cima de mim. Aí um repórter perguntou: "e agora, como vai ficar Sócrates e Casagrande?". Pensei: caralho, não dá para falar de um sem falar do outro. É uma coisa só. Virou uma coisa só. Existe muita curiosidade de todo mundo para saber o que aconteceu para virar essa dupla Sócrates e Casagrande. O livro explica isso. Fala da nossa admiração um pelo outro.

É no mesmo estilo da sua biografia? Sim. O Gilvan que escreveu. Relembrei histórias, pegamos o depoimento de um monte de pessoasque viveu com a gente e reconstruímos nosso período juntos.

Tá pronto? Falta só o prefácio do Marcelo Rubens Paiva. Só que ele está no Rio para fazer a abertura da Paralimpíada. Ele deve me mandar o texto. Deve sair no finalzinho de junho, começo de julho. Já está revisado, editado, já escolhemos as fotos. Tudo certo. Só falta o prefácio.

E o terceiro livro? Vai ser só de fotos. Comecei a escolher fotos para o livro do Sócrates e começou a aparecer foto de um monte de admirador. Comecei a compartilhar e tem um monte de gente que curte. Aí resolvi fazer um livro de fotos. Lançaremos logo depois, mas ainda não tem data. Por enquanto, é isso.


PENSA RÁPIDO, COM WALTER CASAGRANDE

Qual foi o melhor atacante brasileiro que você viu jogar? Romário e Ronaldo. São dois estilos diferentes. 

Um só. Romário, vai.

Você se coloca entre os melhores? Fui um ótimo centroavante.

Dentro de campo, Pelé ou Maradona? Pelé.

Fora de campo, Pelé ou Maradona? Maradona fez cagada pra caralho, teve problema com droga, mas era mais ativo. Participativo. Maradona.

Quem seria o técnico ideal para a seleção brasileira? O Tite.

E o Guardiola? Também. Tem o mesmo estilo do Tite. Seria injusto com o Tite.

E o Dunga? Não sou fã do trabalho do Dunga, tenho uma visão diferente da dele. Mas ele pegou a maior bomba da história. Tem que valorizar porque ele topou treinar o time depois dos 7 a 1. Muita gente não ia topar. Não sei se toparia.

Não toparia se chamassem você para ser técnico? De jeito nenhum. Todo mundo chamando de burro no estádio. Tá sempre ruim.

Créditos

Imagem principal: Ramón Vasconcelos / Globo

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