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Kyra Gracie: o legado que virou futuro

Primeira mulher faixa-preta de uma família de campeões que está completando 100 anos, ela transformou seu legado em luta por voz, respeito e espaço para outras mulheres – dentro e fora do tatame

Kyra Gracie / Fotos: Lucas Seixas (@retratoslucas)

Kyra Gracie / Créditos: Lucas Seixas (@retratoslucas


Por Spaten

em 26 de novembro de 2025

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Bisneta de Carlos e sobrinha-neta de Hélio Gracie, os grandes responsáveis por adaptar e difundir o jiu-jitsu no Brasil, um século atrás, Kyra Gracie cresceu dentro de um legado que moldou gerações. Primeira mulher de sua família a conquistar a faixa-preta, oito vezes campeã mundial e a primeira a entrar para o Hall da Fama do ADCC, prestigiado torneio de lutas, ela decidiu olhar para essa herança com um novo propósito: preservar o que o jiu-jitsu tem de mais valioso e transformá-lo num espaço em que cabem todos – e, principalmente, todas.

Kyra entendeu que seu caminho era resgatar o jiu-jitsu não só como uma competição, mas como uma ferramenta de emancipação e transformação. “Meus bisavós plantaram uma raiz muito forte e, dessa árvore da família Gracie, cada um foi criando os seus galhos”, diz. “Resolvi resgatar um jiu-jitsu muito mais amplo e completo, capaz de transformar as pessoas de dentro para fora – algo que os meus bisavós já faziam e foi se perdendo”.

Kyra Gracie / Fotos: Lucas Seixas (@retratoslucas)
Kyra Gracie, a primeira mulher de sua família a conquistar a faixa-preta / Fotos: Lucas Seixas (@retratoslucas)

Ela desenvolveu uma metodologia própria, que prioriza bem-estar, filosofia e ética; incentiva a presença de professoras mulheres; e acolhe crianças, idosos e pessoas atípicas em sua escola de jiu-jitsu ao lado do marido, que tem duas unidades no Rio de Janeiro e 175 academias licenciadas pelo Brasil. “Cresci vendo mulheres sempre em segundo plano, não só no tatame, mas nas decisões e nos incentivos. Quando percebi que podia sonhar grande, entendi que a melhor coisa foi nascer mulher na família Gracie – para eu conquistar e quebrar barreiras que os homens não conseguiriam”.

Embaixadora de Spaten há dois anos, desde que a marca de cerveja premium de origem alemã que faz parte do portfólio da Ambev lançou sua plataforma proprietária de lutas, ela quer mostrar para cada vez mais pessoas qual é a sua batalha: “É mostrar que a luta não é só você subir no ringue e lutar. É sobre você ser forte de dentro para fora. É sobre você ter princípios, valores”, diz.

A seguir, você confere o papo que ela bateu com a Trip.

Kyra Gracie / Fotos: Lucas Seixas (@retratoslucas)
“Eu percebi que existia um jiu-jitsu para além da competição e desse ambiente machista”, diz Kyra Gracie / Fotos: Lucas Seixas (@retratoslucas)

Como foi sua infância e quais lembranças você carrega desta época?
Kyra Gracie. Eu tive uma infância feliz, muito divertida, com a casa lotada de crianças. Lembro de ir para os campeonatos ver os meus tios e primos e já sentir aquela adrenalina. Cresci assistindo aos desafios da família Gracie, que aconteciam muitas vezes na nossa própria casa, e eu ficava ali, testemunha ocular, quietinha, vendo aquela movimentação. Era uma alegria quando o fim de semana chegava porque eu sabia que todos os primos iam se encontrar. Em casa a gente se resolvia no tatame. O primeiro a escolher o videogame era quem ganhava no tatame… Até a comida. Percebi ainda pequena que na minha família era preciso ser campeã no tatame até para poder opinar fora dele.

Em quantos primos vocês eram? É até difícil contar… Meu bisavô teve 21 filhos, meu tio-bisavô, nove. E todos esses filhos tiveram mais muitos filhos. Meu avô teve 12 filhos, dentre eles a minha mãe, que teve eu e minha irmã. É uma família gigante. Eu cresci entre todos os primos, brincando no tatame. Minha mãe [filha de Robson Gracie] se separou do meu pai antes de eu nascer, então as figuras masculinas presentes no começo da minha vida foram os meus tios. Minha mãe era muito nova quando me teve, e precisava formar uma criança, criar uma bebezinha sem o pai junto. Esse amparo dos meus tios e da minha avó foi o que fez eu me desenvolver na infância.

É verdade que você começou a andar e brincar de jiu-jitsu quase ao mesmo tempo? Em casa a gente tinha um tatame no terceiro andar. Eu levava minhas bonecas, brincava com meus primos e tios. Mas eu via uma diferença muito grande entre meninos e meninas em relação ao jiu-jitsu dentro da minha família. Nós não éramos incentivadas a continuar nesse caminho e eu achava que o jiu-jitsu era só para os meninos. E isso só mudou quando eu vi minha mãe praticar e chegar à faixa azul. Eu tinha por volta de nove, dez anos, e ela me mostrou que uma mulher podia seguir esse caminho. Falei que queria treinar regularmente e na hora ela me colocou numa turma infantil. Participei de uma competição aos 11 anos e amei, gostei da sensação da vitória. Acho que existia também aquela lembrança da minha infância de que dentro de casa e da minha família eu só poderia ter voz se fosse campeã.

E como foi crescer dentro do tatame? Cresci vendo a mulher sempre em segundo plano – não só no tatame, mas nas decisões e nos incentivos. Os meninos tinham mais acesso, tinham prioridade. Isso vai criando uma autossabotagem, uma sensação de não merecimento. Você começa a sonhar pequeno. Com vinte e poucos anos, achava que ser campeã no tatame me bastava. Depois, comecei a perceber que eu tinha os títulos mais importantes do jiu-jitsu, mas era uma mulher sem coragem de falar, de colocar limites, deixava passar coisas que não deveria, não conseguia ter um relacionamento saudável, minha vida como empresária travava o tempo inteiro… Aquilo estava me matando por dentro. Fora do tatame eu não era campeã. Tive que voltar ao meu passado e rever minha infância para entender a raiz desse problema. Quando consegui virar essa chave, tudo começou a fluir. Vi que podia sonhar grande, conquistar os meus objetivos e que, na verdade, a melhor coisa da minha vida foi nascer mulher na família Gracie – para eu conquistar e quebrar barreiras que homens não conseguiriam.

Kyra Gracie / Fotos: Lucas Seixas (@retratoslucas)
“Hoje, na minha própria escola, as mulheres são tratadas com respeito. Se algum professor der em cima de uma aluna, está fora do meu time”, afirma Kyra Gracie / Fotos: Lucas Seixas (@retratoslucas)

Como foi herdar esse legado de seus tios, avôs e bisavôs? Minha família ensina jiu-jitsu há 100 anos. Sou muito grata aos meus bisavós pela resiliência, comprometimento e disciplina para que hoje eu possa viver o que eu vivo dentro do jiu-jitsu. Há 100 anos eles vestiram um quimono, se transformaram com disciplina, com alimentação saudável, com cuidado da mente.

Como era seu bisavô? Meu bisavô era um adolescente rebelde, e o jiu-jitsu canalizou toda a energia dele para a disciplina e a organização. Eu tinha 11 anos quando ele faleceu, mas, ao estudar a história da família, vejo que ele viu essa transformação e quis passar adiante. Começou a dar aula para os irmãos mais novos e isso foi virando um negócio de família. Eles se mudaram de Belém do Pará para o Rio de Janeiro e começaram a dar aulas na sala do nosso apartamento, tiravam os móveis e davam aula em cima do tapete. Depois, o quarto do apartamento virou uma sala de aula particular para só depois eles de fato terem uma academia. E não foram meses, mas 20 anos, depois mais 20 anos. Sou muito grata pelo legado e por eles construírem essa estrada.

Quando você enxergou a necessidade de renovar as tradições? Aprendi tudo com eles, principalmente a filosofia da arte marcial. Sou da quarta geração e, a partir da segunda para a terceira, o jiu-jitsu passou a ser olhado quase exclusivamente pela perspectiva da competição. A performance virou sinônimo de valor. Se o atleta ganhava, era admirado – independentemente de quem ele era fora do tatame. E isso foi afastando a essência da arte marcial. Eu, criada como competidora, passei a pensar um jiu-jitsu muito mais amplo e completo – algo que os meus bisavós já faziam, mas que foi se perdendo. Fui para Miami buscar a orientação dos irmãos Valente, que são discípulos diretos do tio Hélio e que trabalham de uma forma completa e muito atrelada à filosofia. E isso abriu minha cabeça de uma forma maravilhosa.

Kyra Gracie / Fotos: Lucas Seixas (@retratoslucas)
Foto: Lucas Seixas (@retratoslucas)

O que mudou? Comecei a avaliar também o que era bom para mim, o que me fazia sentir confortável, o que não… Eu odiava o ambiente super machista, diversas vezes eu pensei em parar. Hoje, no meu próprio negócio, se algum professor der em cima de aluna, está fora do meu time. As mulheres são tratadas com respeito. Dou oportunidade para que mais mulheres possam dar aulas, tanto para homens quanto para mulheres, e que estejam numa posição de liderança. Também me incomodava o cheiro ruim que as salas tinham, os quimonos sujos. Meus bisavós plantaram uma raiz muito forte e, dessa árvore da família Gracie, cada um foi criando os seus galhos. Eu estou ali também trilhando e contribuindo para mais 100 anos. Estou de quimono desde que eu nasci, e tenho certeza que vou embora daqui de quimono, nessa minha missão de realmente passar adiante o que os meus bisavós plantaram.

Você foi oito vezes campeã mundial. Sempre foi cobrada a se manter forte? Hoje você se permite ser vulnerável? Eu permiti que a minha vulnerabilidade aflorasse quando vi que estava morrendo por dentro. Porque as pessoas me viam muito forte, muito campeã, mas eu não me sentia assim. Quando evoluí nessa área é que consegui contar a minha história. Quero que as pessoas se inspirem e vejam uma luz no fim do túnel. Lembro que eu queria ter um relacionamento bacana e pensei: “Preciso me organizar, até para ter a mesma energia dessa pessoa legal e me conectar”. Porque se eu estou em outra energia, não vou conectar com quem eu busco para a minha vida. Precisava mudar para construir o que eu buscava. Não é da noite para o dia, requer muito trabalho, voltar nas suas feridas, relembrar a infância, pai, mãe, enfim, e fazer diferente para você. 

Kyra Gracie / Fotos: Lucas Seixas (@retratoslucas)
Fotos: Lucas Seixas (@retratoslucas)

Você é casada com o ator Malvino Salvador e a parceria de vocês é tanto na vida pessoal quanto profissional. Além de serem sócios na academia de jiu-jitsu, também começaram a produzir conteúdos para alertar sobre a violência contra a mulher. Como é fazer esse trabalho com ele? Conversando com o Malvino sobre como poderia atingir mais mulheres, ele sugeriu gravar vídeos. Falei: “Ótimo, você me ensina a ser atriz e a gente fala sobre esses temas, com as situações que as mulheres têm mais medo”. Os vídeos viralizaram e toda sexta-feira tem um novo. Também criamos a palestra chamada “A violência não começa com um soco”, mostrando que a raiz já vem da infância, quando dizem a um menino que fez algo errado que está “igual a uma menininha”. A menina cresce se sentindo inferior, porque tudo o que é ruim é coisa de mulher. É muito importante fazer essa palestra com o Malvino, porque ele fala com os homens e é uma escuta que, muitas vezes, eles não teriam vindo de uma mulher.

Você é mãe de Ayra, de 11 anos, Kiara, de 9, e o Ryan, de 4. Seus filhos praticam jiu-jitsu? Sim, mas de uma forma leve, lúdica. Meu objetivo é que eles tenham autoconfiança para a vida. Se quiserem ser atletas, eu apoio. Se não quiserem, tudo bem. O mais importante é que levem conceitos da arte marcial como a disciplina, o respeito, a benevolência.

Quais são os principais desafios da maternidade? São muitos. Meu desafio é criar minhas filhas para que tenham mentalidade de campeãs. Não quero que se sintam menos por serem mulheres, e nem mais por serem filhas de pessoas conhecidas. É um equilíbrio de ego. Como mãe, mostro para elas que ser mulher é maravilhoso e que elas podem sonhar grande. A gente faz um “caderno do sonho”, em que elas escrevem o que buscam para a vida. Porque eu cresci ouvindo que não ia arrumar um marido, que se eu abrisse uma academia iria falir, que ninguém ia querer ter aula com uma mulher. Escrevi todas essas frases e coloquei do lado da minha cama. Quando me dava um cansaço, falava: “Vamos lá, ainda tem muito para mostrar”.

Kyra Gracie em capa da revista TPM, em 2006 / Fotos: Calé / Acervo Trip
Kyra Gracie na capa da revista Tpm, em 2006 / Fotos: Calé / Acervo Trip

Como você cuida de seu corpo e de sua mente? Cheguei aos 40 com cabelos brancos, feliz e reflexiva. Estou nessa busca de evolução contínua e de ir atrás dos meus sonhos fora do tatame, de fortalecer minha família. Sou muito grata por meus erros e acertos. Meu corpo não é o mesmo de quando era atleta, tenho três filhos, e me sinto feliz com isso. Faço tratamentos estéticos no rosto, mas nada exagerado. Não quero parecer ter 20 anos. Em relação à alimentação, tenho uma nutricionista que cuida da minha família. Em casa, não dou nada industrializados. Não é que minhas filhas não comam açúcar, mas tem o dia certo. A comida é simples: arroz, feijão, peixe, salada, purê, muita fruta e açaí. Eu gosto de um chocolatinho, mas me organizo pra isso. Treino jiu-jitsu, faço yoga com o Método Orlando Cani, um grande mestre, gosto de meditar, sou muito positiva, acredito que as coisas vão dar certo. Gosto de encontrar pessoas e trocar energia. Hoje sou professora e tenho a minha aula que se chama “Positividade”, onde a gente se conecta. Esse é o meu objetivo: evoluir.

Qual a importância de ter marcas como Spaten apoiando sua trajetória e o universo das lutas? Sou embaixadora de Spaten há dois anos e eu tenho muito orgulho de estar junto da marca, principalmente pelo propósito que ela trouxe para o mundo da luta. Quando recebi o projeto da Spaten fiquei encantada. É mostrar que a luta não é só você subir no ringue e lutar. É sobre você ser forte de dentro para fora. É sobre você ter princípios, valores. Tudo isso está muito conectado com o que eu acredito e com o meu propósito de colocar a luta num outro patamar.

Kyra Gracie / Fotos: Lucas Seixas (@retratoslucas)
Foto: Lucas Seixas (@retratoslucas)

Conteúdo oferecido por Spaten. Beba com moderação.

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