O golpista mais eloquente do WhatsApp
Rodrigo Labanca cruza os golpes clássicos do WhatsApp com a nova cobrança da Meta por mensagens de serviço, e propõe que o PIX vire a resposta brasileira para quem deve lucrar com a palavra
Rodrigo Labanca cruza os golpes clássicos do WhatsApp com a nova cobrança da Meta por mensagens de serviço, e propõe que o PIX vire a resposta brasileira para quem deve lucrar com a palavra
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“Ei, Gabriel, sou eu, Shakira. Você pode me emprestar 2000? Estou presa na fronteira de Kasumbalesa. Vou te pagar 20 vezes mais.”
E, para provar a autenticidade, o perfil encerra a mensagem cantarolando o refrão de Waka Waka — porque golpista bom sabe que assinatura vale mais que documento.

Todo brasileiro tem uma dessas no celular. A Shakira sem passagem, o filho com número novo, o leilão da Receita, o PIX que precisa cair AGORA. O golpe do WhatsApp virou gênero literário nacional: começa doce, cria urgência, termina no boleto. Rimos do meme justamente porque conhecemos a gramática de cor.
A cantora britânica RAYE conhece também. No disco novo, ela dedica uma faixa inteira ao arquétipo: “The WhatsApp Shakespeare” — a história de um golpista do amor que escrevia tão bem que parecia poeta de outro século. Um Romeu de fachada, lobo em pele de cordeiro (de jeans, ela faz questão de anotar), que seduzia por mensagem com juras dignas de soneto até a vítima descobrir que era apenas mais um nome numa lista de enganadas. A música narra tudo como tragédia moderna disfarçada de conto de fadas e termina debochando das nossas correntes: encaminhe para dez pessoas ou algo ruim vai te acontecer.
A lição da faixa cabe num verso: no WhatsApp, eloquência não é prova de boa intenção. Guarde a lição.
Leia também: O plano do Google para uma internet sem cliques
Nas comunidades de quem constrói produtos dentro do WhatsApp não se fala de outra coisa: a Meta anunciou que, a partir de outubro, vai cobrar pelas “mensagens de serviço”. São as respostas que as empresas te enviam quando, por exemplo, um atendente resolve seu problema às 23h. Elas costumavam ser gratuitas. Agora, cada uma terá preço. E há um detalhe nesse novo preço: quem usar a inteligência artificial da própria Meta paga um pacotinho camarada por token; quem usar IA de terceiros (ou, imagine só, seres humanos) paga a tarifa por mensagem e carrega o resto do custo nas costas.
A jornada estratégica traçada pela Meta, devo reconhecer, é lindíssima. Anos de sedução impecável: API aberta em 2018, mensagens grátis, venha, traga sua empresa, more aqui. O bairro inteiro se mudou. Agora chegou o reajuste do aluguel — e o inquilino preferido do dono, ficou claro na tabela, não respira.
E não dá para simplesmente se mudar. O WhatsApp está em 99% dos smartphones brasileiros e é, disparado, o maior canal de atendimento do país. A Índia passa dos 500 milhões de usuários; México, Paquistão e boa parte da África vivem penetração perto do total; até a Europa, sempre arisca, aderiu de vez. O aplicativo caminha para ser o WeChat de fora da China — mensagem, compra, pagamento e serviço num lugar só. Quando um app vira infraestrutura da sociedade, mudar o preço da palavra não é decisão comercial. É política pública terceirizada, decidida em Menlo Park, sem plebiscito.
O impacto não é abstrato: encarece o pequeno negócio que vive de conversa, empurra empresas a trocar gente por máquina não por escolha, mas por planilha, e nos aproxima de um cotidiano em que a mensagem bem escrita do outro lado pode não ter ninguém por trás. A eloquência sem intenção — de novo ela.
Na música da RAYE, The WhatsApp Shakespeare, o lobo veste jeans. Na vida real, o dono do aplicativo trocou a camiseta cinza de sempre por corrente de ouro pique “Vale o escrito”. Coincidência de figurino, com certeza.
Mark Zuckerberg será o vilão dessa tragédia moderna ou apenas um senhorio fazendo o seu trabalho? (Talvez esta seja só uma pergunta retórica). Ser ou não ser — sim, eu sei, é o clichê mais surrado do bardo, mas nenhum outro verso pergunta tão bem.
A questão que me tira o sono, aliás, é outra: num palco onde a palavra humana ficou oficialmente mais cara que a sintética pela decisão de uma “Big Tech”, onde é que mora a esperança?
Encontrei uma pista no lugar mais improvável: no extrato bancário.
Circula há bastante tempo por aí um meme que é pura literatura brasileira contemporânea. Pessoas bloqueadas no WhatsApp — o contatinho que pisou na bola, a ficante premium rebaixada ao plano gratuito, o ex em recuperação judicial — descobriram um canal de comunicação que nenhum bloqueio alcança: o PIX. Transferem um centavo e escrevem a súplica no campo de mensagem do comprovante: “desbloqueia eu fazendo um favor… já tô surtando de ansiedade”. O banco entrega. O banco sempre entrega.
Rimos, mas repare no que aconteceu ali: o povo brasileiro hackeou o sistema financeiro para transformá-lo em mensageiro. Enquanto a Meta anunciava que ia cobrar pela palavra, o Brasil já tinha descoberto que a palavra podia pegar carona no dinheiro. Por um centavo.
E se a gente parasse de tratar isso como gambiarra e começasse a tratar como projeto de país? O PIX já está no bolso de praticamente todo brasileiro, já é infraestrutura pública, já carrega mensagem junto com cada transferência. Falta um passo — deliberado, ousado, nosso — para virar plataforma de comunicação de verdade. E com uma inversão que nenhum aplicativo do Vale do Silício teria coragem de propor: se uma empresa quer falar comigo, que pague para MIM, não para o Mark Zuckerberg. Sai mais barato para a empresa e é mais honesto com o povo. O opt-out vira tabela pessoal: cada um define quanto custa a própria atenção. Quer me mandar promoção? Minha caixa postal aceita PIX.
Soa utópico? Talvez não tanto. Os Estados Unidos abriram, por ordem direta do presidente Trump e sob pressão das suas empresas de pagamento, uma investigação comercial contra o Brasil que cita o PIX como “prática desleal” — com direito a ameaça de tarifa e audiência marcada em Washington. Quando a Casa Branca e o Vale do Silício apontam o dedo juntos para um sisteminha gratuito do nosso Banco Central, não é porque ele falhou. É porque ele assusta. Estão nos ameaçando por causa do PIX? Ótimo sinal. Eu dobraria a aposta. (Pessoal do BC, se estiver lendo: me chama pra ajudar aí… nunca te pedi nada).
Assim, quem sabe, a gente aposenta os Shakespeares do WhatsApp e inaugura os Vinicius de Moraes do PIX — a poesia chegando junto com o comprovante, e o valor da palavra, pela primeira vez, caindo na conta de quem lê.
As correntes de WhatsApp sempre mentiram sobre a maldição. Esta aqui, não: encaminhe este texto para cinco pessoas, ou você vai receber um PIX de um centavo do seu ex tóxico pedindo desbloqueio no zap.
A palavra vale bilhões. Que eles sejam nossos então.
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