Santos sempre foi caminho. Quando virou destino?
O fotógrafo Marcos Piffer ajudou a revelar a cidade que era passagem e virou endereço até do Trip FM, que estreia na rádio santista You FM
Créditos: Marcos Pfiffer
Por décadas, Santos foi o lugar pelo qual todo mundo passava para chegar à praia do vizinho. O porto, a fila de caminhões, os prédios tortos da orla. Uma cidade que o resto do país aprendeu a ver de relance, pela janela do carro, a caminho de outro lugar. Agora, é onde muita gente quer ficar.
A virada, no fundo, não foi de Santos. Foi de São Paulo. Segundo o Ipsos e a Rede Nossa São Paulo, 67% dos paulistanos sairiam da capital se tivessem a chance. Segundo a Fundação Seade, a cidade encolheu pela primeira vez em cem anos. O cansaço virou número, e parte de quem podia escolher desceu a serra.
A 70 quilômetros da capital, Santos era a saída mais óbvia que ninguém via. Com o trabalho remoto, dá para resolver o dia de manhã, cair no mar à tarde e ainda chegar a São Paulo quando precisar. Só que chamar isso de fuga para a praia é perder o ponto: quem chega não procura descanso, procura outra cidade.

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E Santos virou lugar de quem mora. Tem cozinha autoral como o Madê, do chef santista Dário Costa, citado entre os melhores restaurantes do Brasil e os 50 melhores do mundo, segundo o ranking da revista britânica Restaurant. Tem arte à beira-mar na Pinacoteca Benedicto Calixto, que ocupa o último casarão dos barões do café na orla. Tem os maiores jardins de praia do mundo logo na frente. Cultura e lazer viraram rotina, não programa de feriado.

Quem chega a Santos não procura descanso, procura outra cidade
Até a ficção reparou. Em Onde Está Meu Coração, série do Globoplay, Santos não faz o papel de outra cidade. Aparece como ela mesma, com o próprio porto na trama. Depois de tantos anos como figurante na imaginação dos outros, a cidade enfim faz o papel de si.

Nada disso surgiu do zero. A identidade santista tem raiz, só que fora do óbvio. Foi ali que Plínio Marcos foi palhaço de circo antes de virar o dramaturgo dos marginalizados. Foi ali que Pagu manteve um grupo de teatro. Cidade de porto, de imigrante, de mistura, Santos sempre teve atitude, mas faltava plateia.

Talvez ninguém conheça essa cidade como Marcos Piffer. Fotógrafo e arquiteto santista, professor por 18 anos, autor de quase 30 livros, foi ele quem revelou Santos no preto e branco do filme, numa época em que a cidade não tinha um único livro de fotografia sobre si. “Santos significa muito pra mim. Por conta disso, eu tenho uma relação de amor e de tristeza muito grande com a cidade”, ele conta.

O amor veio primeiro. “Nasci em Santos, cresci em Santos, me formei em arquitetura e urbanismo em Santos”, diz. Foi lá que conheceu a mulher, casou e teve a filha. “Criei minha filha na beira da praia de Santos.” Anos depois, deu aula para ela na mesma faculdade onde estudou, o que chama de “uma das maiores alegrias da minha vida”. Quando lançou seu primeiro livro sobre a cidade, recebeu um texto de Paulo Lima, fundador da Trip, com uma ideia que poderia abrir esta reportagem: para fazer uma grande viagem, não precisava ir tão longe.
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O que torna a cidade desejável é o mesmo que o boom imobiliário ameaça apagar
Só que o olhar que mais amou Santos é o mesmo que mais sofre com ela. Para Piffer, a cidade foi destruída de forma sistemática nas últimas três décadas. Ele vê a especulação imobiliária engolir a parte baixa: prédios de até 48 andares no lugar onde antes havia quatro casas, “paliteiros” que sufocam a ventilação, o sol e a rua. “Dubai do brejo”, como dizia o poeta santista Flávio Viegas Moreira. São, nas palavras dele, “edifícios preciosos, com nomes ridículos”, colados uns nos outros, enquanto a praia some, comida pela dragagem de canais cada vez mais fundos. A mesma cidade dos maiores jardins de praia do mundo virou também uma das ilhas de calor mais intensas do país.

É a contradição que mora no coração de Santos hoje. O que torna a cidade desejável: o mar, a escala humana, a vida que cabe num bairro, é o mesmo que o boom imobiliário ameaça apagar. Quem foge do exagero de São Paulo torce para não trazer o excesso na mala.
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Talvez seja esse o retrato mais honesto de Santos em 2026. Uma cidade que enfim foi vista e que agora precisa decidir o que quer ser: lugar de identidade viva ou mais um paliteiro de frente para o mar.

De um jeito ou de outro, a cidade ganhou voz nova. A You FM, no dial 102,1, nasceu em Santos no fim de 2025 trazendo soul, jazz e pautas de comportamento e vida urbana. Uma rádio de Santos, mas que fala com o mundo. Para Cláudio Mussi, proprietário do Grupo Mussicom Brasil – responsável pela You FM e outras duas rádios locais –, o alcance da transmissão está se ampliando cada vez mais. “Antigamente, você só podia nos sintonizar aqui, na Baixada Santista. Hoje, pelo streaming, dá para ouvir em qualquer lugar do mundo. A rádio virou um sistema multiplataforma de comunicação”, disse em entrevista ao Diário do Litoral.
O Trip FM agora integra a programação da You FM, no dial santista
E é nessa frequência que entra o Trip FM. A partir de agora, o programa passa a integrar a programação da You FM, no dial santista. Faz sentido. A Trip sempre falou de comportamento, de cultura e de gente que escolhe viver do próprio jeito, e poucos lugares hoje traduzem isso melhor que esta cidade litorânea que decidiu se levar a sério. A mesma Santos que Piffer revelou em preto e branco, e sobre a qual Paulo Lima escreveu que não era preciso ir longe para fazer uma grande viagem, ganha agora trilha sonora nova.
Sintoniza lá: Trip FM na rádio You FM
Onde: no dial 102,1 (litoral paulista) ou no site da rádio
Quando: toda sexta-feira às 18h. Reprises aos domingos às 9h.
Ouça todos os episódios do Trip FM aqui no site ou nas plataformas de aúdio: Spotify, Deezer, Apple Podcasts e YouTube
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