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A incrível trajetória do arquiteto que projetou Itamambuca

Da infância marcada pelo desenho ao projeto de Itamambuca, Sidonio Porto construiu uma carreira guiada pela leitura do território e por uma visão de arquitetura que vai além dos prédios e pensa a cidade como um todo

O arquiteto Sidonio Porto projetou a ocupação da praia de Itamambuca, em Ubatuba

Sidonio Porto, o arquiteto que projetou a ocupação de Itamambuca / Créditos: Louis Carramaschi / Divulgação


em 24 de abril de 2026

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Sidonio Porto é um dos nomes centrais da arquitetura brasileira — um decano com quase 60 anos de trajetória, marcada por projetos que integram paisagem, urbanismo e uma ocupação mais consciente do território. Em conversa com Paulo Lima, no Trip FM, ele revisita o começo da carreira, as referências que o levaram à arquitetura e como enxerga hoje o papel do arquiteto nas cidades.

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A escolha pela profissão veio cedo. Filho de pais ligados às artes, teve apoio em casa para seguir um caminho que, à época, estava longe de ser óbvio. Uma lembrança de infância ajuda a explicar o rumo: “Vi uma prancheta com o desenho de uma casa e aquilo me impressionou. Pensei: quero fazer isso”, conta.

Outro ponto de virada foram as visitas à Pampulha, em Belo Horizonte, onde teve contato com a obra de Oscar Niemeyer. A influência ficou — não só pelo impacto estético, mas pela ideia de uma atuação contínua, de longo prazo, que ele enxergava na carreira de Niemeyer.

/ Créditos: Klaus Mitteldorf

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Na conversa, Sidonio evita se prender a projetos específicos e amplia o foco: para ele, arquitetura não se resolve só no edifício. O trabalho do arquiteto está diretamente ligado à organização das cidades. “As cidades deveriam ter as qualidades necessárias para o bem viver, para o encontro social, para o desenvolvimento físico. O sentido da vida profissional do arquiteto é participar do processo de elaboração desse ambiente para o bem ”, resume.

Um exemplo claro dessa visão é o projeto da praia de Itamambuca, em Ubatuba. Desenvolvido em 1966, ainda no início da carreira, ele partiu de uma leitura cuidadosa do território. Antes de desenhar qualquer coisa, era preciso entender o lugar. “Era uma área sem infraestrutura, com acesso difícil, e a primeira impressão foi de que aquilo precisava ser preservado”, lembra.

A solução foi estabelecer um limite claro de ocupação: manter uma faixa significativa de proteção entre o mar e as construções. A decisão ajudou a preservar a paisagem e evitou a descaracterização da praia — e acabou definindo todo o desenho do loteamento.

Para Sidonio, é aí que está o centro da profissão. Mais do que projetar edifícios, o arquiteto precisa entender contexto e assumir decisões que moldam a forma como as pessoas vivem e ocupam o espaço.

Você pode ouvir o programa no play desta página, no Spotify, Deezer e no YouTube da Trip. Abaixo, um trecho da conversa.

Quando você percebeu que queria ser arquiteto?
Sidônio Porto
. Desde muito pequeno, essa influência da minha mãe desenhando foi importante, mas uma coisa marcante foi que meu pai me levou um dia na casa do escritório de um topógrafo e eu vi lá uma prancheta onde ele tinha desenhado uma casa. Aquilo me impressionou demais. Vi aquilo lá e falei: eu quero fazer um negócio desse, porque o cara senta numa mesa e faz o projeto de uma casa toda. Aquilo me influenciou absurdamente.

O Oscar Niemeyer aparece como referência nesse momento? Via na figura do Oscar Niemeyer uma figura que me impressionava muito, porque o cara vivia disso, só fazia isso, e teve as maiores oportunidades que um arquiteto poderia ter no Brasil, em todos os momentos da vida dele.

E, para você, qual é o papel da arquitetura hoje? Classicamente falando, o sentido da arquitetura é você ter ambientes adequados para a sua vida, para o seu trabalho, criar conforto, abrigo. Agora, vendo por um lado mais amplo, que é o urbanismo, é a importância que o arquiteto deveria ter nas cidades. Eu acho que nós hoje somos seres urbanos, que é onde você tem a possibilidade e a necessidade de viver. As cidades deveriam ter as qualidades necessárias para o bem viver, para o encontro social, para o desenvolvimento pessoal e físico. O sentido da vida profissional do arquiteto é participar da elaboração desse ambiente. Não só construir casas e prédios, mas, fundamentalmente, pensar a urbanização — uma cidade humana, com segurança, conforto e distâncias razoáveis.

/ Créditos: Klaus Mitteldorf

Itamambuca é um bom exemplo dessa visão? Foi em 1966, eu era recém-formado e tinha acabado de chegar em São Paulo. Quando fui conhecer o terreno, era uma área muito bonita, sem estrada, sem nada. Uma estradinha de terra, estreita, e a gente ainda tinha que atravessar o rio para entrar.

O que guiou o projeto ali? O conhecimento do local foi fundamental. Você tem que conhecer, sentir, respirar aquele ar, ouvir o barulho das ondas. A primeira ideia que veio na minha cabeça era respeitar aquela praia maravilhosa e não deixar que ela fosse construída. Aí eu deixei no projeto 75 metros da linha d’água até o primeiro terreno.

/ Créditos: arquivo pessoal
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