Sandro Saltz: Como a separação de um casal nos EUA ajudou a forjar uma referência do snowboard brasileiro
Empresário de turismo, criador de conteúdo digital e editor de uma revista especializada em snowboard e ski, Sandro Saltz, 52 anos, esquia Valle Nevado desde antes de o resort se tornar o maior do hemisfério sul. A Trip o encontrou nos Andes, e ouviu por que o destino que ele frequenta há muitos anos é o mais brasileiro do Chile
Sandro em um heliski no Valle Nevado / Créditos: Arquivo pessoal
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Tem coincidência que parece roteiro. Fui ao Chile a convite da própria estação de Valle Nevado, em parceria com a Wines of Chile — destino que conheço desde os tempos em que cobria esportes de prancha para a Folha de S. Paulo. Um detalhe importante, fazia 15 anos que eu não pisava na neve. A Trip, cabe mencionar, tem história com esse esporte: pilotou uma das primeiras expedições brasileiras de snowboard no início da década de 90 e apoiou a realização do primeiro Campeonato Brasileiro de Snowboard, lá em 1996, que completa 30 anos nesta temporada.
Passei quatro dias na montanha e não esperava cruzar, hospedado a poucas portas da minha, o caminho de Sandro Saltz. Gaúcho de Porto Alegre, ele é fundador da Point da Neve (uma agência especializada em viagens de esqui e snowboard) e hoje uma das vozes mais ouvidas do snowboard brasileiro dentro e fora das redes sociais.
Quando nos encontramos, a 3.000 m de altitude, a temporada de inverno nos Andes não podia estar mais incerta. O ano de 2026 começou fraco para os esportes, com cerca de 90% das pistas do Chile fechadas por falta de neve. Foi esse o cenário que encontramos: montanhas ainda sem cobertura, boa parte das pistas interditada e os canhões de neve artificial trabalhando à força máxima para garantir a qualidade mínima das pistas onde era possível esquiar. A grande virada só veio um pouco depois: cerca de dez dias após irmos embora. Em meados de julho um temporal histórico despejou muita chuva em Santiago e arredores e trouxe sérios danos à população. Por outro lado, gerou a maior nevasca dos últimos anos sobre a Cordilheira, mais de 2 metros de neve se acumularam em poucos dias, chegando a interditar a estrada de acesso a Valle Nevado por seis dias. Não pegamos essa neve, mas ela veio.

Cabe mencionar que essa nevasca considerada tardia não apaga totalmente a tensão que paira por trás das pistas de esqui ao redor do mundo. A crise climática, somada aos efeitos do El Niño, vem deixando as temporadas de inverno mais imprevisíveis, e a produção de neve artificial é limitada pela área de cobertura que consegue alcançar. Além disso, os canhões que a produzem só funcionam com temperatura ambiente próxima a zero grau Celsius.
Valle Nevado vive uma virada positiva importante, considerando que o resort andino já esteve à beira do fim. Até 2022, a estação arrastava uma dívida estimada em US$ 21 milhões, fechou por conta da pandemia em 2020 e viveu anos de reorganização por via judicial até uma das famílias chilenas gestoras (os fundadores foram franceses e já haviam saído anos antes) deixar definitivamente a sociedade e o negócio.
Em março de 2023, a empresa norte-americana Mountain Capital Partners (MCP), dona de 14 estações na América do Norte, assumiu o controle da área, quitou os débitos e começou a reformar tudo: os teleféricos, as máquinas de produção de neve artificial, toda a hotelaria e os restaurantes. No ano seguinte, a MCP comprou também a vizinha La Parva. As duas estações, interligadas pelos lifts a El Colorado e Farellones, formam hoje os Tres Valles, unificando a maior área esquiável contínua do hemisfério Sul.
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Uma nota que vale citar: a intenção da MCP de expandir o investimento na região, esbarrou num obstáculo há poucos dias: o plano de comprar também as estações de El Colorado e Farellones, consolidando toda a área sob a gestão de um único grupo, caiu depois que o órgão antitruste chileno concluiu que a fusão criaria uma situação de quase-monopólio no mercado de esqui do país.
Foi nesse cenário — resort renovado, ansiedade pela chegada da neve –, que sentei com o Sandro para entender como esse snowboarder e empresário gaúcho virou referência de snowboard no Brasil.
Trip: Você não escolheu o snowboard, foi ele que te escolheu. Como foi isso?
Sandro Saltz: Eu tinha 15 anos em 1990 e o plano era fazer um intercâmbio na Califórnia: surf, praia. Uma semana antes do embarque, o casal da família que ia me receber se separou. Às pressas, me realocaram para uma outra casa em Boise, Idaho. No caminho do aeroporto para lá, meu irmão americano de intercâmbio, o Chad, me falou de um esporte novo chamado snowboard. Fui a uma loja, comprei uma prancha e passei a temporada inteira andando em Bogus Basin, montanha a meia hora da cidade. Voltei para o Brasil convertido, e sem ninguém aqui para trocar ideias sobre aquilo. Recebia fitas de vídeocassete dos meus amigos americanos pelo correio. Dessa obsessão nasceu um negócio.
Trip: É o começo da sua agência?
Sandro Saltz: Isso, sem dinheiro para viajar todo ano, comecei a juntar amigos e negociar com agências: se eu trouxesse dez pessoas, ganhava a minha viagem. Fiz isso por oito anos, formando grupos para Valle Nevado, Las Leñas e Chapelco. Em 1998 abri minha própria agência, a S7. Depois conheci o Beto Valle, que já era o primeiro representante de Valle Nevado no Brasil — ele vinha do esqui, eu do snowboard. Juntamos as operações, chamamos o Cris Simões, e resolvemos criar uma marca nova, sem puxar brasa para nenhum dos dois negócios anteriores. Nasceu a Point da Neve.

Trip: Você já viu Valle Nevado nas mãos dos franceses, dos chilenos e agora dos norte-americanos. O que mudou?
Sandro Saltz: Acompanhei as três fases. Valle Nevado nasceu de um grupo francês que, segundo o que sei, tinha ligação com mineração de cobre na região e ajudou a construir a estrada de acesso como parte de um acordo com o governo chileno. Depois veio a fase chilena, com altos e baixos na hotelaria. Agora é a vez da empresa americana, e os avanços resultantes do investimento são visíveis. Mas para mim o lugar é sobretudo memória afetiva: trouxe minha esposa aqui na primeira vez que ela viu neve, trouxe cada um dos meus filhos aos quatro anos, competi aqui os campeonatos brasileiros. Tenho uma relação muito especial com essas montanhas aqui e até um ritual: espero os teleféricos fecharem, a pista esvaziar, fico uns minutos ouvindo o silêncio da montanha e depois desço sozinho.

Trip: O esqui e o snowboard já foram rivais. Isso mudou?
Sandro Saltz: Completamente. Quando comecei, o snowboarder era visto como uma espécie de bagunceiro das pistas — várias estações nem deixavam entrar. Hoje esquiadores e snowboarders dividem as pistas com o mesmo snowpark fazendo as mesmas manobras. E o ouro do Lucas Pinheiro Braathen no slalom gigante de Milão-Cortina, a primeira medalha olímpica de inverno do Brasil, turbinou o interesse geral pelo esporte. Ele, aliás, deve voltar a Valle Nevado nesta temporada.
Trip: Existe um número real de quantos brasileiros esquiam por ano?
Sandro Saltz: Não existe estatística oficial fechada. Minha estimativa, cruzando dados de Bariloche, Valle Nevado, Club Med e Aspen com nosso próprio volume de vendas, é de 250 a 300 mil brasileiros por ano viajando para esquiar. [A apuração da Trip encontrou números mais recentes que valem contrapor: em 2025, o presidente da Confederação Brasileira de Desportos na Neve, Anders Pettersson, falou em 600 mil brasileiros rumo a destinos de neve, bem acima da estimativa que o Sandro cita para a confederação. E a fatia brasileira nas pistas do complexo de Aspen Snowmass, hoje a maior entre os públicos internacionais da região, é estimada em torno de 20 mil por temporada, número acima dos 15 mil de uma década atrás.]
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Trip: Depois da chegada dos americanos na gestão da estação, dá pra sonhar com a primeira Olimpíada de Inverno no hemisfério sul?
Sandro Saltz: Acho difícil, exigiria estruturas caríssimas para modalidades que nem existem aqui, tipo saltos e pistas de gelo. Mas como destino turístico, o crescimento é real: hoje cerca de 25% do público de Valle Nevado já são americanos, e a integração com La Parva deve puxar ainda mais gente para cá.
10 RAZÕES PARA ESCOLHER VALLE NEVADO, SEGUNDO O SNOWBOARDER E INFLUENCIADOR SANDRO SALTZ
- É a maior área esquiável da América do Sul, ainda mais agora que La Parva passou a fazer parte da área esquiável integrada, ampliando bastante o terreno disponível.
- É a estação mais prática de acessar: o Valle Nevado fica a uma hora e meia de carro de Santiago, que recebe voos diretos de várias capitais do Brasil.
- Estamos falando de montanhas com 3.000 m de altitude, a maior probabilidade de neve boa da América do Sul. A altitude é o que garante a qualidade da neve para esquiar.
- Hotéis para todos os gostos e bolsos: do Três Puntas (3 estrelas), passando pelos apartamentos particulares, até o Valle Nevado (5 estrelas) e o Puerta del Sol (4 estrelas) e agora o novo edfício de apartamentos para aluguel de alto padrão batizado de Aconcágua..
- Gastronomia para todos os gostos. Restaurante chileno, francês, japonês, italiano, buffet com grelhados — a cada noite você pode experimentar uma cozinha diferente.
- A infraestrutura de montanha melhorou muito. Hoje é a mais moderna do Chile. Gôndolas, teleféricos de alta velocidade, equipamentos novos para alugar, bons professores e um cuidado exemplar com a qualidade das pistas, principalmente depois da compra pela MCP, que preza acima de tudo pela qualidade da área esquiável.
- Pistas para todos os níveis: de iniciantes a experts, com muitas opções de fora de pista para quem já tem mais experiência.
- A loja de aluguel de equipamentos mais completa da região. Equipamento novinho, que chegou esse ano, com excelente qualidade e atendentes que conhecem o esporte. E pra quem precisa comprar algo de última hora, o resort conta com várias lojas, inclusive uma da Burton Snowboards.
- Um dos lugares mais práticos do mundo pra fazer heliski. E mais do que isso, é uma aventura dentro da aventura: só o trajeto de helicóptero pelo meio da Cordilheira dos Andes já impressiona. Ele te deixa num pico isolado, no meio do silêncio, pra descer um fora de pista puro, compartilhado só com os amigos, sem nenhuma infraestrutura por perto. Inesquecível…
- Uma das melhores montanhas para quem está começando. A escola de ski do Valle Nevado tem muitos instrutores que falam português. O que facilita demais pra quem está dando os primeiros passos na neve e quer aprender sem barreira de idioma.
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