Logo Trip

A Ilhabela que o turismo quase apagou

Acervo digital Baú da Dedé traz ao público 50 anos de registros inéditos da cultura caiçara do litoral paulista feitos pela folclorista Iracema França

Montagem de quatro fotos antigas de Ilhabela. A principal exibe uma praia com coqueiros e carros modelo Fusca estacionados na grama. As menores mostram: uma igreja amarela com grande cruz branca à frente; pessoas aglomeradas em um cais; e um grupo de jovens com tambores e violão. Paisagem litorânea e montanhosa.

Créditos: Acervo Iracema França


em 26 de março de 2026

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

A professora e folclorista Iracema França, conhecida carinhosamente como Dona Dedé, dedicou a vida a estudar, preservar e promover a cultura caiçara de Ilhabela (SP), cidade de origem de sua família materna. Ao longo de cinco décadas, ela acumulou um dos acervos mais ricos do litoral paulista. Por isso, tornou-se referência para estudiosos e comunidades da região. Sua pesquisa, com ênfase no século XX, documentou festas populares, lendas e modos de vida que o turismo comercial foi, aos poucos, apagando da paisagem da Ilha.

A professora e folclorista Iracema França, conhecida como Dona Dedé, dedicou a vida a registrar a cultura caiçara de Ilhabela (SP)
Foto de Iracema França sobre cartão postal de 1950 que mostra a Igreja Matriz de Nossa Senhora D’Ajuda e o Fórum de Ilhabela. / Créditos: Acervo Iracema França

A mulher que ousou levar a cultura popular a sério

A pé ou de canoa, Iracema percorreu o litoral paulista a partir da década de 1960 registrando manifestações centenárias como a Congada de São Benedito, o caiapó (cortejo tradicional caiçara), a Folia de Reis. Além disso, documentou elementos do cotidiano caiçara: a pesca artesanal, as casas de farinha, o artesanato e as moradias. Ela não apenas observava, mas convivia com as comunidades e zelava para que essas tradições não desaparecessem. Sua atuação rendeu também um cargo público: foi secretária de Cultura de Ilhabela entre 1989 e 1990. “Sempre me encantou a dança dos caiapós e gostaria de fazer alguma coisa para não deixá-la desaparecer assim com as tradições da Ilha”, escreveu Iracema em um dos textos do acervo.

A professora e folclorista Iracema França, conhecida como Dona Dedé, dedicou a vida a registrar a cultura caiçara de Ilhabela (SP)
Farol da Ponta do Boi de Ilhabela (SP) em 1941. / Créditos: Acervo Iracema França

Baú da Dedé aberto em acervo digital e exposição

Após a morte da folclorista, em 2009, sua família guardou todo esse material. Neste ano, o projeto Baú da Dedé digitalizou e abriu o acervo ao público. Juliana Borges, sobrinha-neta da folclorista e produtora executiva da iniciativa, conduziu o trabalho. “Depois de 15 anos fechado, era urgente que esse acervo fosse restaurado, digitalizado, organizado e, principalmente, acessível para as pessoas”, afirma Juliana.

A professora e folclorista Iracema França, conhecida como Dona Dedé, dedicou a vida a registrar a cultura caiçara de Ilhabela (SP)
Registros sobre a Congada de São Benedito com cartaz de 1992. / Créditos: Acervo Iracema França

LEIA TAMBÉM: Rolê de moto na ilha

O resultado reúne mais de 5 mil fotografias, 50 fitas de áudio e vídeo e centenas de manuscritos. Também estão disponíveis depoimentos de antigos caiçaras e anotações da própria Dedé. No site do projeto, é possível ouvir músicas gravadas em festas e assistir a imagens em Super 8. Além disso, o visitante pode consultar documentos sobre aspectos variados da cultura caiçara – da relação com o mar às expressões linguísticas típicas. Uma exposição com uma seleção do acervo está em cartaz até o final de julho na Casa do Patrimônio, em São Sebastião (SP).

A professora e folclorista Iracema França, conhecida como Dona Dedé, dedicou a vida a registrar a cultura caiçara de Ilhabela (SP)
Registros dos cortejos do Caiapó (à esq.) e da Congada de São Benedito em Ilhabela. / Créditos: Acervo Iracema França

LEIA TAMBÉM: O que as enchentes no litoral de SP dizem sobre o futuro

Em uma de suas anotações disponíveis no acervo, Dona Dedé deixou uma definição certeira: “Todo homem tem uma expressão de cultura erudita (que se aprende na escola); uma expressão de cultura de massa (que se recebe pelos jornais, rádio, televisão) e uma expressão de cultura informal na família, na mesa dos amigos, sem hora marcada. São conhecimentos espontâneos, não estão nos livros. É esta cultura espontânea que chamamos de folclore”. É exatamente essa memória que o Baú da Dedé mantém viva.

Vai lá: Acervo Baú da Dedé

Onde: no site Baú da Dedé e na Casa do Patrimônio, São Sebastião (SP)

Quando: exposição de terça a sexta-feira (9h às 14h) até 31/07
A professora e folclorista Iracema França, conhecida como Dona Dedé, dedicou a vida a registrar a cultura caiçara de Ilhabela (SP)
Fita cassete com gravação dos cortejos do Caiapó e da Congada na década de 1970. / Créditos: Acervo Iracema França