A Ilhabela que o turismo quase apagou
Acervo digital Baú da Dedé traz ao público 50 anos de registros inéditos da cultura caiçara do litoral paulista feitos pela folclorista Iracema França
Créditos: Acervo Iracema França
A professora e folclorista Iracema França, conhecida carinhosamente como Dona Dedé, dedicou a vida a estudar, preservar e promover a cultura caiçara de Ilhabela (SP), cidade de origem de sua família materna. Ao longo de cinco décadas, ela acumulou um dos acervos mais ricos do litoral paulista. Por isso, tornou-se referência para estudiosos e comunidades da região. Sua pesquisa, com ênfase no século XX, documentou festas populares, lendas e modos de vida que o turismo comercial foi, aos poucos, apagando da paisagem da Ilha.

A mulher que ousou levar a cultura popular a sério
A pé ou de canoa, Iracema percorreu o litoral paulista a partir da década de 1960 registrando manifestações centenárias como a Congada de São Benedito, o caiapó (cortejo tradicional caiçara), a Folia de Reis. Além disso, documentou elementos do cotidiano caiçara: a pesca artesanal, as casas de farinha, o artesanato e as moradias. Ela não apenas observava, mas convivia com as comunidades e zelava para que essas tradições não desaparecessem. Sua atuação rendeu também um cargo público: foi secretária de Cultura de Ilhabela entre 1989 e 1990. “Sempre me encantou a dança dos caiapós e gostaria de fazer alguma coisa para não deixá-la desaparecer assim com as tradições da Ilha”, escreveu Iracema em um dos textos do acervo.

Baú da Dedé aberto em acervo digital e exposição
Após a morte da folclorista, em 2009, sua família guardou todo esse material. Neste ano, o projeto Baú da Dedé digitalizou e abriu o acervo ao público. Juliana Borges, sobrinha-neta da folclorista e produtora executiva da iniciativa, conduziu o trabalho. “Depois de 15 anos fechado, era urgente que esse acervo fosse restaurado, digitalizado, organizado e, principalmente, acessível para as pessoas”, afirma Juliana.

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O resultado reúne mais de 5 mil fotografias, 50 fitas de áudio e vídeo e centenas de manuscritos. Também estão disponíveis depoimentos de antigos caiçaras e anotações da própria Dedé. No site do projeto, é possível ouvir músicas gravadas em festas e assistir a imagens em Super 8. Além disso, o visitante pode consultar documentos sobre aspectos variados da cultura caiçara – da relação com o mar às expressões linguísticas típicas. Uma exposição com uma seleção do acervo está em cartaz até o final de julho na Casa do Patrimônio, em São Sebastião (SP).

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Em uma de suas anotações disponíveis no acervo, Dona Dedé deixou uma definição certeira: “Todo homem tem uma expressão de cultura erudita (que se aprende na escola); uma expressão de cultura de massa (que se recebe pelos jornais, rádio, televisão) e uma expressão de cultura informal na família, na mesa dos amigos, sem hora marcada. São conhecimentos espontâneos, não estão nos livros. É esta cultura espontânea que chamamos de folclore”. É exatamente essa memória que o Baú da Dedé mantém viva.
Vai lá: Acervo Baú da Dedé
Onde: no site Baú da Dedé e na Casa do Patrimônio, São Sebastião (SP)
Quando: exposição de terça a sexta-feira (9h às 14h) até 31/07

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