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Elas declararam guerra às big techs

Daniela da Silva e Tatiana Dias fundaram a CTRL+Z, organização que junta jornalismo investigativo, ação judicial e mobilização para fazer empresas de tecnologia pagarem por seus danos

Três pessoas posam descontraídas atrás de três bonecos infláveis do tipo joão-bobo com rostos impressos de magnatas da tecnologia: Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos. Luã Curz, homem negro de camisa bege apoia-se no inflável de Musk à esquerda; Tatiana Dias, mulher branca de terno terracota senta-se inclinada apoiada no inflável de Zuckerberg ao centro; e Daniela da Silva, mulher de macacão azul posa à direita. Ao fundo, painel vermelho e branco com a frase "NO QUE VOCÊ DARIA CTRL+Z?".

Daniela da Silva (dir.), Tatiana Dias e Luã Cruz fundaram a organização CTRL+Z para combater violações cometidas por big techs no Brasil. / Créditos: Rebeca Figueiredo


em 21 de julho de 2026

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Em janeiro de 2025, a Meta decidiu abandonar políticas de moderação de conteúdo que até então limitavam a circulação de conteúdos impróprios, discurso de ódio e desinformação em suas plataformas (Instagram, Facebook e WhatsApp). Tudo em nome de uma suposta liberdade de expressão. O gesto foi interpretado como uma aproximação da empresa a Donald Trump, que semanas depois iniciaria seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos. Para Daniela da Silva, então chefe de Políticas Públicas do WhatsApp no Brasil, aquele anúncio foi a gota d’água de uma virada que ela já vinha observando de perto: a da big tech priorizando alinhamento político em detrimento de áreas como integridade e transparência. Pouco depois, ela deixou a Meta compartilhando sua discordância nas redes sociais.

Daniela não está sozinha neste movimento. Nos últimos anos, outras ex-funcionárias de big techs se opuseram publicamente às práticas dessas empresas. Em fevereiro de 2026, a pesquisadora Zoë Hitzig deixou a OpenAI após a empresa anunciar planos de monetizar dados de usuários do ChatGPT. No mês seguinte, também da OpenAI, Caitlin Kalinowski, chefe da equipe de robótica, pediu demissão depois que a empresa fechou um acordo para usar seus modelos de inteligência artificial em uma rede sigilosa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Em 2025, a ex-executiva de políticas públicas da Meta Sarah Wynn-Williams expôs o assédio e a cultura corporativa tóxica da empresa no livro Careless People (2025), que foi parar no topo da lista de mais vendidos do New York Times. E, em maio de 2021, a cientista de dados Frances Haugen deixou o Facebook levando consigo milhares de documentos internos. O vazamento ficou conhecido como “Facebook Papers” e provou que a empresa sabia dos danos causados à saúde mental dos usuários, mas escondia isso do público.

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Montagem com duas fotos. À esquerda, três pessoas posam sorridentes em frente ao painel "NO QUE VOCÊ DARIA CTRL+Z?": Tatiana Dias, mulher branca de terno terracota à esquerda, Luã Cruz, homem negro de óculos e camisa bege sentado ao centro, e Daniela da Silva, mulher branca de macacão azul-bic em pé à direita. À direita, detalhe de caixas de fósforos roxas empilhadas com o texto em amarelo "FOGO NOS TECNOFASCISTAS" e a sigla "CTRL+Z", com uma caixa aberta mostrando palitos de cabeça verde.
Tatiana Dias, Luã Cruz e Daniela da Silva fundaram uma organização para fazer as big techs pagarem por seus danos. / Créditos: Rebeca Figueiredo

Sem espaço para mudar o sistema por dentro, Daniela se juntou à jornalista Tatiana Dias e ao advogado Luã Cruz para fundar a CTRL+Z, organização que nasceu com uma proposta direta: combinar jornalismo investigativo, litígio estratégico e mobilização popular para combater as violações cometidas por big techs no Brasil. Lançada oficialmente em abril deste ano, a CTRL+Z já soma 27 mil seguidores no Instagram e mais de 1.300 assinantes de sua newsletter, com conteúdos que já alcançaram mais de 1 milhão de pessoas, segundo relatório da organização.

O sucesso não é acaso. Ele acontece num momento em que o modelo de negócios das redes sociais é contestado por organizações e governos de diversos países e os danos associados às plataformas digitais são sentidos por milhares de usuários. Um levantamento produzido pela organização de Daniela e Tatiana mapeou 270 mil reclamações de brasileiros contra Google, Facebook e Instagram no portal Consumidor.Gov nos últimos cinco anos – o equivalente a três Maracanãs e meio lotados de gente insatisfeita. O Google concentra 63% desse total, principalmente por dificuldades em ativar ou recuperar contas. Já a Meta lidera as queixas de suspensão indevida de perfis, com tendência de alta em 2026.

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Na prática, isso significa que, de uma hora para outra e sem qualquer aviso, alguém pode simplesmente perder acesso à sua conta profissional no Instagram ou a tudo o que guardou no Google: fotos, e-mails, senhas salvas, documentos de uma vida. E não existe uma pessoa do outro lado da linha para explicar o que aconteceu, apenas uma tela de erro e, muitas vezes, um formulário automatizado que nunca é respondido.

Esse tipo de caso é o que move o Arquivo de Danos Digitais, um dos projetos centrais da CTRL+Z que coleta relatos de vítimas de decisões arbitrárias das plataformas. O repositório não só acolhe as histórias, mas também conecta quem sofreu esse tipo de dano a advogados que podem oferecer assistência jurídica. Além disso, a organização opera o Vaza Bigtech, canal de denúncias anônimas para funcionários de empresas de tecnologia, e publica investigações semanais, muitas em parceria com veículos jornalísticos.

Mas nem tudo na CTRL+Z é denúncia. O que há de novo no front da guerra às big techs também é compartilhado nas redes sociais da organização. O chamado boletim de vitórias celebra as derrotas das gigantes da tecnologia em decisões judiciais, recuos de políticas arbitrárias ou conquistas de usuários lesados. E, para quem quer ir além de só acompanhar o problema, a organização produz guias com alternativas tecnológicas: já saíram indicações de navegadores e buscadores fora do ecossistema Google, além de dicas para tentar usar redes sociais sem ser completamente sugada por elas.

Na conversa com a Tpm, Daniela e Tatiana falam sobre os bastidores da criação da CTRL+Z, os limites da regulação brasileira e por que acreditam que a resistência às big techs está sendo puxada, sobretudo, por mulheres.

Tpm. Como nasceu a CTRL+Z?

Daniela da Silva. Antes de ir para a Meta em 2024, passei anos trabalhando com ativismo digital e organizações da sociedade civil, dez deles na Fundação Open Society, cuidando justamente da pauta de responsabilização de empresas de tecnologia. Ir para o setor privado foi, na verdade, um desvio no meu caminho. Quando saí, em fevereiro de 2025, conversei com muita gente para entender os próximos passos, e foi assim que me aproximei de um grupo do qual o Luã Cruz, que é advogado e cofundador da CTRL+Z, fazia parte. Eles já vinham identificando que faltava uma organização mais de campanha, mais visível, frontalmente desafiadora das big techs. Depois disso, comecei a conversar com a Tati, que fazia a cobertura desse setor de tecnologia no jornalismo investigativo há muitos anos. Eu sou jornalista de formação e conheci a Tati na faculdade. A gente se cruzou várias vezes na vida em projetos relacionados à internet política. 

Tatiana Dias. A Dani sempre esteve envolvida nessa luta por transparência, então eu já acompanhava o trabalho dela. Alguns marcos mudaram a visão idealista que se tinha sobre as tecnologias: o caso Edward Snowden, em 2013 [ex-analista da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos que revelou um esquema de vigilância em massa da população, feito em parceria com grandes empresas de tecnologia], a primeira eleição de Trump, em 2016, e o escândalo da Cambridge Analytica, em 2018 [empresa que usou dados de usuários do Facebook para direcionar propaganda política a favor da campanha de Trump]. A gente tinha uma visão utópica do potencial democratizador da internet e viu isso se transformar na construção de grandes territórios privatizados por poucas empresas, que priorizam conteúdo por interesse comercial, não público. Passei sete anos no Intercept fazendo essa cobertura crítica do poder por trás da tecnologia, mostrando como ela é usada como instrumento de manipulação e controle. Ano passado, eu já buscava novos rumos, e quando a Dani me chamou, falei: “O que você quiser fazer, eu quero estar nisso. Não sei o que vai ser, mas conte comigo.”

“Nossa missão é desfazer essa sensação de apatia em relação à internet” – Daniela da Silva

Como vocês financiam esse trabalho?

Tatiana Dias. A gente tá fazendo como as organizações da sociedade civil: tentando o financiamento por meio de filantropias e fundos. Hoje, somos financiados por uma fundação global de filantropia, a Luminate, mas estamos em captação com outros fundos que trabalham na área de tecnologia, defesa de direitos digitais e mobilização. No futuro, pensamos também em um programa de membros para pessoas físicas, porque a resposta do público tem sido muito positiva.

Daniela da Silva, mulher branca de macacão azul-bic sentada em um banco diante do painel com a frase "NO QUE VOCÊ DARIA CTRL+Z?". Ao lado dela, estão em pé dois bonecos infláveis com os rostos de Elon Musk e Mark Zuckerberg. No chão, à frente, o boneco inflável com o rosto de Jeff Bezos aparece deitado na horizontal, com o pé esquerdo da mulher apoiados sobre ele.
Daniela da Silva era executiva do WhatsApp no Brasil quando viu a Meta abandonar medidas de proteção aos usuários. “Se as plataformas foram projetadas para transformar a atenção das pessoas em lucro, podem ser reconstruídas para atender ao interesse público”, diz. / Créditos: Rebeca Figueiredo

Vocês estruturam o trabalho em três frentes: investigação, litígio e mobilização. Como isso funciona na prática?

Tatiana Dias. A gente se posiciona como uma organização jornalística, porque acredita no jornalismo investigativo como ferramenta necessária de responsabilização. Para traduzir os problemas, descobrir coisas novas e transformar isso em ação, a gente precisa de um caminho que, na minha visão, é jornalístico, mesmo sabendo que isso estica alguns limites do que se considera jornalismo, já que também somos ativistas. Só que muitas vezes uma reportagem não é suficiente para uma empresa mudar de postura, e é aí que entra o litígio. Nesse momento, nossa estratégia está focada em danos a pessoas físicas: criadores de conteúdo, comerciantes, veículos pequenos. A gente vê um crescimento de remoções arbitrárias de páginas e perfis, com a população LGBTQIA+ especialmente afetada, e muita gente fica paralisada: a conta foi suspensa, só um robô responde, entrar na Justiça parece custoso demais. Queremos ajudar as pessoas a entenderem os caminhos possíveis contra essas empresas, sabendo que, se muita gente fizer isso, a gente eleva o custo dessas decisões automatizadas arbitrárias para as big techs. A gente sempre fala que um caso é só um caso, mas muitos casos são evidência. Se conseguirmos mostrar o volume desses danos, teremos uma resposta mais assertiva, porque a estratégia dessas empresas é fragmentar, deixar cada pessoa lutando sozinha. Por isso também oferecemos assistência jurídica gratuita em alguns casos, a partir de uma triagem com um escritório de advocacia parceiro.

Daniela da Silva. E o terceiro pilar, a mobilização, conecta tudo isso com a ideia de construir um movimento. Nossa missão principal é desfazer essa sensação de apatia que a gente desenvolveu em relação à internet. A gente quer mostrar que esse sistema foi construído por pessoas, não é um passe de mágica tecnológico. Então, da mesma forma que esses sistemas foram construídos para maximizar o engajamento, o tempo de tela, para minerar a atenção das pessoas e transformar isso em lucro, eles poderiam ser reconstruídos com outros princípios. Só que a gente precisa de uma pressão popular muito forte para conseguir reverter as tendências das empresas mais poderosas do mundo. Esse é o nosso trabalho de mobilização: a gente quer fazer isso com muita gente.

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A CTRL+Z tem uma presença em plataformas independentes, como Mastodon e Bluesky, mas também está no Instagram, que pertence à Meta. Não é meio paradoxal lutar contra as big techs e, ao mesmo tempo, divulgar esse trabalho justamente nas redes que pertencem a elas?

Tatiana Dias. Nosso trabalho é baseado em trazer as pessoas para serem protagonistas disso, o que é uma estratégia diferente de outras organizações. Por isso, a gente quer, sim, crescer nas redes sociais. Isso pode parecer uma contradição, mas é uma das tantas contradições que o capitalismo nos impõe todos os dias. A gente tem que ocupar os espaços para poder destruí-los. A gente não é “antitecnologia”, pelo contrário, somos heavy users. Mas precisamos nos apropriar das tecnologias para mudá-las por dentro. Nosso problema são os donos das máquinas, não as máquinas. E pensamos muito também em discutir o imaginário que a gente carrega. Crescemos com uma visão de tecnologia toda sci-fi distópica, Blade Runner, seca, metálica, morta, masculina. É uma ideia de futuro uó, cafona. Parte do nosso trabalho é propor alternativas inclusive estéticas para descolonizar a nossa mente, que foi completamente tomada por esses caras do Vale do Silício.

“Somos empurrados para essas tecnologias. Mas pra que você quer 5 agentes de IA trabalhando por você?” – Tatiana Dias

E falando de práticas internas, a operação da organização funciona sem depender de produtos e plataformas geridos por big techs? Isso é um desafio para vocês?

Tatiana Dias. É, mas também não é uma coisa de outro mundo. A gente usa o Proton como substituto do Google Workspace. Tem tudo lá, até o equivalente ao Meet. Usamos ferramentas de IA, mas com algumas regras de segurança importantes: não colocar informação pessoal ou sensível, não colocar informação estratégica, e não terceirizar o pensamento para elas. Tudo que chega ao público final passa por revisão humana. A gente precisa entender que praticamente toda tecnologia digital baseada em extração de dados e vigilância, como o Google e o Instagram, é, no fundo, uma máquina de expropriação da nossa vida para transformá-la em lucro de outra pessoa. As IAs vão na mesma lógica: uma forma de expropriar conhecimento humano em escala massiva e canalizar isso para poucos bilionários. Somos empurrados o tempo todo para essas tecnologias: ‘Se não usar, vai ficar para trás’. Vejo muita gente do nosso próprio campo, até bem-intencionada, se afobando para adotar essas ferramentas. Mas para que você quer cinco agentes de IA trabalhando por você? A gente precisa produzir só o necessário, precisa desacelerar. Quem quer que a gente aumente produtividade o tempo todo são os donos das máquinas, os capitalistas. Na nossa organização, entendemos que não precisamos embarcar nisso.

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Vocês percebem uma mudança na percepção das pessoas aqui no Brasil sobre as big techs e as redes sociais? 

Daniela da Silva. Eu acho que a gente tá num momento de virada bem importante e a CTRL+Z chega junto com o timing dessa discussão. As pessoas têm expressado muito mais sua insatisfação com esse ecossistema de informação, conexão e vida social que se estabeleceu. Um exemplo disso foi o caso Felca no ano passado, que, além de impulsionar uma legislação que regula essas empresas, o ECA Digital [que atualiza o Estatuto da Criança e do Adolescente para o ambiente online], gerou uma comoção social em torno da segurança de crianças e adolescentes nas redes. Ao mesmo tempo que as pessoas sentem uma certa impotência, quase uma apatia, existe uma carência enorme por alternativas. Me surpreendeu a demanda por nossos conteúdos do tipo: “o que fazer para deixar seus documentos salvos mais seguros?”. Toda vez que a gente fala sobre alternativas, recebe uma enxurrada de comentários de pessoas contando o que estão fazendo e testando em busca de mais autonomia e consciência. Isso mostra que existe apetite genuíno para essa conversa.

Tatiana Dias. Acho que a nossa geração foi meio que um laboratório. A gente tá vivendo algo parecido com o que aconteceu com o cigarro: só entendemos o impacto real duas décadas depois. Só agora estamos começando a perceber e entender esses impactos, daí esse primeiro movimento de controle que o Brasil está impondo, assim como vários outros países estão fazendo em relação a crianças. Daqui a 30 anos, a gente vai olhar pra trás e achar completamente absurdo que uma criança ficasse sozinha com celular assistindo ao YouTube, do mesmo jeito que hoje achamos um absurdo uma criança fumando, algo que era normalizado nos anos 1920. A gente também olha muito para questões de soberania e autonomia tecnológica, porque hoje vivemos numa posição de consumidor passivo: você joga suas fotos na nuvem e pronto, problema resolvido. A gente quer desnaturalizar isso. Cara, tenha sua própria tecnologia, compre seu HD, guarde seus próprios arquivos. A gente perdeu a autonomia sobre as tecnologias que usamos no dia a dia.

“Estamos vivendo com as tecnologias o que aconteceu com o cigarro. Daqui a 30 anos, vamos achar absurdo que uma criança ficasse sozinha assistindo ao YouTube” – Tatiana Dias

O site da CTRL+Z afirma que “o Brasil tem potencial para liderar globalmente a luta por responsabilização de plataformas e a construção de outros futuros digitais”. Por que vocês acreditam nisso?

Daniela da Silva. Historicamente, o Brasil se colocou numa posição de vanguarda em relação às tecnologias. A gente parou de beber um pouco dessa fonte nos últimos anos, mas nada impede que a gente volte. Acho que isso tem a ver com nossa ligação com redes e comunidades, com a cultura da gambiarra, com a cultura digital que nasceu aqui ainda nos anos do Gilberto Gil no Ministério da Cultura, com o próprio Marco Civil da Internet, que permite participação da sociedade civil. Além disso, somos um mercado importante o suficiente para virar ponto de atenção geopolítica para essas empresas, e muito do que se faz aqui em termos de regulação pode ser replicado na América Latina e em outros países do Sul Global. Converso com pessoas de fora do Brasil, gente engajada nessa luta nos Estados Unidos e na Europa, que dizem: “Se tem algum lugar que pode resolver isso hoje, é o Brasil”. Temos a flexibilidade regulatória necessária para testar novas regras e abordagens, e ao mesmo tempo um terreno fértil de inventividade no uso da tecnologia.

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Montagem com duas fotos. À esquerda, Tatiana Dias, mulher de terno na cor terracota e blusa preta fala ao microfone roxo sentada em um puf verde, em frente a uma parede de cimento queimado. À direita, Daniela da Silva, mulher de macacão azul-bic e cabelos presos segura um lenço rosa e amarelo com o texto "GENTE > MÁQUINA" e bordas repetindo "CTRL Z". Ao fundo, painel com o texto "NO QUE VOCÊ DARIA CTRL+Z?".
Em 3 meses de existência, a CTRL+Z já mapeou 270 mil reclamações de brasileiros contra big techs, expôs uma rede de falsos médicos de IA que colocava idosos em risco e ajudou produtores de conteúdo a recuperarem suas contas. / Créditos: Rebeca Figueiredo

O Brasil já tem o Marco Civil da Internet, o ECA Digital, decisões recentes do STF sobre o dever de cuidado das plataformas e a LGPD. Essas leis estão sendo respeitadas na prática?

Daniela da Silva. As big techs sempre fazem um movimento de implementação mínima. Como são empresas globais, quanto menos precisarem customizar seus produtos para um contexto regulatório local, melhor para elas. O lançamento de contas para adolescentes no Instagram, por exemplo, foi uma antecipação à entrada em vigor do ECA Digital. Só que um levantamento recente da Folha de S.Paulo mostrou canais com conteúdo pornográfico acessível nessas contas de adolescentes. Ou seja, a moderação não funciona na prática. Essas empresas querem investir cada vez menos em moderação humana e cada vez mais em automação via IA, que tem gargalos evidentes. Prometer uma internet mais segura para crianças enquanto se demite o time de segurança são dois movimentos que não podem coexistir.

Ainda assim, eu não diminuiria a conquista que é ter regulação no Brasil. O que a gente precisa é ficar muito atento à forma como essas regras são implementadas, porque essas empresas são engenhosas em transformar o problema que elas mesmas criam em produto: lançam assinaturas premium com suporte melhor enquanto seguem fazendo remoções em massa de contas. Minha avaliação, neste momento, é que nada do que está escrito nas legislações está sendo cumprido como deveria. Cabe à sociedade um trabalho de solidificar a interpretação desses conceitos legais e de exigir soluções técnicas melhores, porque é justamente aí, na arquitetura dos produtos, que essas empresas não querem mexer.

“Big techs criam o problema para depois vender a solução” – Daniela da Silva

O lançamento da CTRL+Z é muito recente, mas vocês já têm noção do volume de denúncias recebidas? E, já que vocês oferecem um canal de denúncia anônima para funcionários e prestadores de serviço de big techs, dá para dizer que essas pessoas estão se sentindo mais confortáveis para denunciar?

Daniela da Silva. A gente ainda não tem esses números consolidados. Mas trabalhamos com dados de outras fontes que trazem indícios interessantes, já que estamos só começando. No caso do Vaza Bigtech [canal de denúncia anônima para funcionários e prestadores de serviço de big techs], como as denúncias são anonimizadas e sensíveis, a gente nem teria como divulgar isso de forma bruta. A ferramenta é aberta e pode receber denúncias de fora do Brasil, mas fazemos um esforço grande para criar uma cultura de denúncia corporativa no país. O que é complicado, porque não temos um arcabouço jurídico específico que proteja o denunciante corporativo como existe no setor público. A gente se apoia no princípio constitucional da liberdade de expressão, que é soberano em relação a qualquer termo de confidencialidade assinado, e no sigilo da fonte jornalística. 

Adoraria dizer que as pessoas já estão bem confortáveis para denunciar, mas não é verdade. O que a gente vê é um movimento de retaliação dessas empresas, com políticas de vigilância corporativa cada vez mais rígidas. Não é só pela minha experiência de ter trabalhado dentro desse mercado, mas também por acompanhar o cenário internacional. O que se fala sobre a cultura dentro dessas empresas hoje aponta para um momento de moral baixíssima: gente muito insatisfeita, seja pelas demissões em massa, seja pela direção que as empresas estão tomando não só politicamente, mas em relação à automação do trabalho. É um processo bastante desumanizador. A gente espera que a CTRL+Z apareça como um lugar de refúgio nesse cenário: a segurança de que existe uma organização jornalística apurando a denúncia, com anonimato garantido.

Em um cenário dominado por IA e big techs, ainda dá para ser otimista? Movimentos de resistência como o da CTRL+Z podem de fato mudar o jogo?

Daniela da Silva. Acredito que daqui a dez anos vamos estar usando tecnologias significativamente melhores do que as de hoje, e que a sensação das pessoas ao usá-las vai ser muito diferente desse entorpecimento que a gente sente agora. Isso não vai acontecer porque as empresas vão se autorregular naturalmente. É uma luta social, como tantas outras coisas importantes que só mudaram na história porque pessoas organizadas insistiram para que suas vozes fossem ouvidas.

“É evidente o protagonismo das mulheres nesse movimento de resistência e reconstrução” – Tatiana Dias

Tatiana Dias. Acho importante o papel das mulheres nessa luta. Uma coisa que nos surpreendeu desde o início é que 65% do nosso público nas redes é feminino. A gente está vendo um protagonismo das mulheres nessa insatisfação, mesmo sabendo que a indústria de tecnologia é tão masculina, e as mulheres que estão dentro dela sofrem tanto. Por isso tenho a convicção de que esse movimento de resistência, essa implosão da indústria, também vai vir das mulheres. Teve o caso da Sarah Wynn-Williams [ex-executiva do Facebook que expôs no livro Careless People (2025) a cultura interna tóxica da empresa, incluindo episódios de assédio sexual] e vejo várias outras mulheres na linha de frente disso. Acho que é porque a gente sente mais os impactos negativos desse modelo: sofremos ataques, discurso de ódio, misoginia e assédio online. Acho que o caminho da resistência passa também por transformar essa dor em potência.

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