por Fernando Gabeira
Trip #214

Fernando Gabeira explica o novo papel da masculinidade no século XXI

Símbolo histórico de poder e domínio, o pênis chega ao século XXI acusado até mesmo de derrubar as bolsas de valores. 30 anos depois de seu livro O crepúsculo do macho, Fernando Gabeira explica o novo papel da masculinidade

No comecinho da década de 1980, o homem tinha uma relação com seu próprio corpo muito diferente da que tem hoje. Era a época em que usei a tanga de crochê na praia, por exemplo. Naquele tempo, os homens achavam que só os aspectos intelectual e econômico seriam suficientes para dar conta de tudo na vida. Mas as mulheres começaram a ficar mais exigentes, e os homens passaram a cultuar seu corpo, sua aparência. Hoje, os chamados metrossexuais confundem-se com o universo das celebridades, tornaram-se algo até mesmo banalizado.

Foi naquele contexto que escrevi O crepúsculo do macho, em 1980, e vejo que muitas daquelas questões sobre masculinidade seguem atuais. A mulher hoje já ocupa muito mais espaço na sociedade, por exemplo. Temos até mulher presidenta da república. Mas muitos dos temas ali postos continuam na pauta do dia, como o direito da mulher de dispor do próprio corpo na questão do aborto. Em países igualmente católicos, como a Itália ou Portugal, já avançamos muito nessa direção, mas por aqui esse debate ainda tem muito o que avançar.

A crítica ao machismo, por exemplo. Vem desde O crepúsculo do macho e só fez aumentar desde então, especialmente quando se encontrou com o avanço da causa homossexual no Brasil. Em 1979, quando voltei do exílio para o Brasil, escrevi no jornal Lampião, pioneiro das questões ligadas à homossexualidade. Eles eram a vanguarda, não existia nem o conceito de orgulho gay. Hoje, o movimento gay põe milhões de pessoas na rua, isso é debatido de forma aberta.

O declínio da supremacia masculina – ou, pelo menos, do chavão machista – não significa que o fascínio pelo pênis tenha desaparecido. A quantidade de spams oferecendo serviços de “enlarge your penis” em nossas caixas de correio prova isso. O corredor norte-americano Le Shawn Merrit, cortado da Olimpíada de Londres devido ao exame antidoping (cujo resultado, segundo o atleta, foi graças a uma substância encontrada em seu remédio para aumentar o pênis), mostra que ainda hoje há quem arrisque uma medalha pela promessa de alguns centímetros a mais.

A cultura masculina ridiculariza o pênis pequeno e estigmatiza a disfunção erétil, popularmente chamada de impotência. A relação entre o vigor do pênis e o orgulho masculino dificilmente declina. E sobrevive diante de fatos perturbadores, como o de que, entre as mulheres, o tamanho do pênis não é decisivo. (Já no século passado, era evidente que boa parcela das mulheres não goza com a penetração, mas com a fricção no clitóris.)

 

"A cultura masculina ridiculariza o pênis pequeno e estigmatiza a chamada impotência. A relação entre o vigor do pênis e o orgulho masculino dificilmente declina"

 

Foi Sigmund Freud quem formulou a teoria da inveja do pênis. Segundo ele, as mulheres tinham inveja do pênis e sentiam sua ausência como uma castração – e só se libertavam desse desconforto quando tinham um filho homem. Mas, dentro da própria psicanálise, a tese foi contemporizada. Jung, antigo aliado, depois rival, considerava que os símbolos que representavam o pênis aludiam a uma realidade mais rica do que apenas a sexual. Eram símbolos do poder e da fertilidade. As feministas, então, contestam a inveja do pênis desde Simone de Beauvoir, autora de O segundo sexo. A única qualidade especial que vem no pênis é o conforto de fazer pipi de pé.

Neurociência
Se a psicanálise freudiana do século passado se deixou levar pela visão patriarcal, a neurociência do século 21 pende para outro caminho. Ela deixa de lado os genitais e concentra muitas pesquisas no cérebro humano. Aí se dissipam muitas das vantagens atribuídas aos homens. Lise Eliot, autora do livro Pink brain, blue brain (em tradução livre, Cérebro rosa, cérebro azul, inédito no Brasil), afirma que as meninas, dos 3 aos 13 anos, usam mais o lobo central e, com isso, são mais maduras – daí a conhecida imagem do grupo de meninos com muito mais dificuldade em ficar parados. Essa maturidade se revela também nos resultados universitários: as mulheres são maioria, inclusive nas universidades brasileiras, onde ocupam 55% das vagas.

A vantagem não repercute em salários, que são maiores entre os homens, em parte porque as pesquisas revelam também que as mulheres preferem áreas menos bem remuneradas, enquanto os homens se concentram em computação e engenharia. O neurocientista inglês John Coates, da área de pesquisa em finanças da Universidade de Cambridge, vai ainda mais longe. Em seu recente livro The hour between dog and wolf – The biology of financial risk-taking (em tradução livre, A hora entre o cão e o lobo – A biologia do risco financeiro, inédito no Brasil), ele defende que o grande culpado pelo desastre na bolsa de valores é a testosterona. A testosterona é um hormônio encontrado em quantidade 30 vezes maior no corpo masculino. Segundo as pequisas que empreendeu quando trabalhava no mercado financeiro, Coates defende que os homens secretam mais testosterona com os ganhos, e se arriscam cada vez mais. Essa corrida irresponsável movida por hormônios acaba levando os homens a assumir riscos superiores à sua capacidade. Em termos bem populares: isso é o que dá pensar com o pau. (Ou, como diria Robin Williams, Deus nos deu o cérebro e o pênis, mas não o sangue suficiente para acionar os dois ao mesmo tempo.)

Vêm daí a surpresa e a indignação que costumam assaltar homens que perdem suas mulheres para outras mulheres. Eles têm dificuldade em processar a perda, porque, na fantasia, só admitem perder para um pênis maior. É uma tese parecida à que considerei ao analisar o famoso assassinato da socialite mineira Ângela Diniz em 1976: o matador Doca Street ficou enlouquecido ao ver que ela namorava uma alemã na praia dos Ossos, em Búzios. Era um absurdo perder Ângela para outra mulher.

Peitos e pênis
No século 21, é possível dizer que o machismo e os valores do culto ao pênis (potência, quantidade, competitividade, tamanho) estão em xeque. Mas o fascínio exercido pelo falo não sofre rupturas – no máximo, lentas mudanças culturais que se processam.

A poderosa indústria farmacêutica pode atestar isso, a partir do sucesso de remédios como Viagra e Cialis. No linguajar popular, o pênis é o equivalente aos seios para as mulheres. “Ter peito” e “ter colhões” são sinônimos de ter coragem e ser destemido. Quem viu o despertar do movimento feminista na década de 1960 sabe como era importante para as mulheres queimar sutiãs e mostrar os seios. Além de sua beleza, os seios simbolizavam a capacidade de alimentar e desenvolver as pessoas. Até na Rio+20, conferência ambiental da ONU, foi possível ver a sobrevivência dessa atitude de mostrar os seios entre algumas manifestantes feministas. A diferença, nesse caso, entre “ter colhões” e “ter peito” é o avanço da ciência no campo das próteses de silicone.

Não parece coincidência que a editora alemã Taschen, especializada em livros de arte, tenha combinado o livro The big penis book com outro lançado pouco antes, The big book of breasts. Diferentemente dos volumes anteriores da série (The big book of pussy, The big book of legs e The big butt book), há edições em 3-D desses dois volumes. Há quem culpe James Cameron também por isso.

Seja como for, a história continua. O pênis ainda vai viver múltiplos papéis. O mais recente é este, o de compartilhar do fascínio das grandes criações virtuais, o que o torna mais inofensivo que no passado mítico em que um deus greco-romano ameaçava os ladrões de seu vinhedo com seu falo.

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