por Pedro Carvalho
Trip #269

Da juventude barra-pesada ao posto de principal treinador do surf mundial, a batalha de Leandro Dora

É uma história sobre psicologia, não sobre esporte. Em julho de 2015, o surfista Adriano de Souza, o Mineirinho, então com 28 anos, se preparava para disputar a etapa da África do Sul, a sexta do circuito mundial. Seu estilo aguerrido, mas não muito polido, o mantinha distante do título de campeão do mundo – nos anos anteriores, ele tinha chegado em oitavo e 13º lugares. “Eu sempre começava o campeonato bem e, da metade para o final do ano, pecava em algo”, conta Mineirinho. Mas, naquele momento, uma mudança ocorria nos bastidores de sua carreira. Após quase uma década na elite competitiva, o surfista passava a ter um treinador: Leandro Dora, o Grilo. Os dois tinham sido apresentados cerca de um ano antes pelo surfista catarinense Ricardo dos Santos. “Numa conversa com o Ricardo, ele me falou: cara, o Grilão pode ajudar. Ele conseguiria fazer você manter o nível até o fim.”

Grilo e Mineiro, então, passaram um semestre afastados das famílias, em uma bolha de foco, serenidade, meditação, boa alimentação e treinamentos. “Eu tinha que cuidar da parte emocional dele”, diz Leandro. “Tinha que tirar o peso que ele carregava de que ‘precisava’ ser campeão do mundo.”

O resto virou história. Após uma surpreendente arrancada, Mineirinho conquistou o título mundial em Pipeline, no Havaí, sendo o primeiro brasileiro a vencer essa etapa final, a mais tradicional do calendário. “O Grilo foi extremamente fundamental”, diz o surfista. “Ele faz um trabalho excepcional, desenvolve não só o surf, mas a alma. Para manter você equilibrado e 100% preparado para o seu combate. Às vezes, o atleta não consegue enxergar que está nos 80 ou 90. Ele consegue.”

Mineiro virou um campeão tão improvável quanto o auge de Leandro como treinador, que também é técnico da havaiana Tatiana Weston-Webb e do carioca Lucas Silveira, campeão mundial na categoria Júnior em 2016 – o que fez Grilo acumular os títulos Júnior e Profissional. Além disso, ele treina a revelação do surf brasileiro deste ano: Yago Dora, 21, seu filho. “Hoje, é o principal técnico do mundo”, diz o experiente Marcelo Trekinho, competidor do circuito entre 2002 e 2010.

(FAR)OESTE DO PARANÁ
Filho de um fazendeiro e de uma dona de restaurante que tinha um programa de culinária na TV (“eu era a Ana Maria Braga da cidade”, diz dona Leny Dora), Leandro nasceu longe do mar, em Cascavel, no oeste paranaense, em 7 de novembro de 1970. A uma hora da tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, a cidade era um entreposto de mercadorias – “skates, tênis maneiros, bicicletas, Cascavel tinha uma molecada transada, apesar de caipira” – e de aventureiros de várias espécies. “Era rota de contrabando, total velho oeste. Via muito tiroteio, meu pai andava de revólver”, ele diz. Um dia, aos 10 anos, Leandro estava sentado na calçada com o irmão e dois amigos quando um carro entrou na rua em alta velocidade e parou ao lado de um homem. Fuzilaram o sujeito. “Foi uma infância selvagem. Aprendi a nadar com meu pai me jogando no rio”, lembra. Outro tiro, quando ele tinha 12 anos, levou seu pai. “Os amigos dele sempre me dizem que não foi suicídio”, diz Leandro, que nunca quis saber o que aconteceu.

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A tragédia fez dona Leny sair de Cascavel. A família se mudou para Curitiba, no bairro Capanema, perto da favela da Vila Pinto. Sua escola, a Hidelbrando de Araújo, era barra-pesada: “Hidelbrando, entra burro, sai malandro”, diziam os alunos.  Visto como “um playboy no meio dos favelados”, ele se meteu em meia dúzia de brigas para ganhar respeito. Seu irmão mais velho, por conta de drogas pesadas, desenvolveu um grau de esquizofrenia. “Rolava uma revolta por isso tudo, saca?”, conta Leandro. Mas ele não tinha interesse em ser mais um adolescente brigão e chapado. “Eu gostava da convivência da minha turma, mas não curtia esse lance de briga, nem de usar droga – só muito de leve”, conta. Ele se divertia mesmo era nas pistas de skate, nas trilhas de bike ou nas idas para Pontal do Sul (Paraná), onde a mãe comprou uma casa – e onde ele se apaixonaria pelo surf.

No Capanema, todo dia passava um trem de carga que mais adiante cortava o Jardim Ambiental, onde havia uma boa pista de skate. No horário de sempre,  Leandro e um amigo pulavam na locomotiva em movimento e seguiam até o point. Ali, matavam aulas e faziam manobras ao lado de futuros ídolos do esporte, como Ferrugem e Piolho. Perto das 18 horas, ouviam ao longe uma buzina – era hora de saltar de novo no trem, voltando. 

NA CORRIDA
“Imagina um trem em alta velocidade. Qual é o melhor jeito de entrar nele? Vai ficar parado, esperando ele chegar, para pular dentro? Não. Tem que começar a correr antes”, diz Leandro a um atento grupo de aspirantes a surfistas de elite, durante um curso realizado em julho na Barra da Lagoa (era uma metáfora sobre como entrar em uma onda). Ele estava de passagem, apenas seis dias em Florianópolis, a cidade onde mora – ou pelo menos onde tem um endereço para correspondências. Na ocasião, ele vinha de três meses viajando por etapas do circuito mundial de surf, e já estava de partida para outros três meses no tour, acompanhando seus atletas.

Antes de ser técnico, Leandro viveu em dois lados desse esporte: foi surfista profissional, no início dos anos 90, com uma prancha cheia de adesivos de patrocinadores; e, assim que parou de competir, criou uma grife de surf, a icônica Cruel Maniac – que, no auge, patrocinava 30 atletas ou músicos. “Sei como é importante para a marca o surfista ter uma atitude bacana”, diz. “Mas o essencial, sempre, é ser ele mesmo. Não pode se transformar em algo que uma marca quer que ele seja.”

O estilo do surfista profissional Leandro Dora passou mesmo longe de se curvar às grifes. Sua onda era o punk e a cultura underground. Em vez de bermuda florida, sua galera preferia a jaqueta preta de couro. “Meus amigos surfistas gostavam de ouvir Dead Kennedys e tomar pinga. Nosso ídolo era o Dadá Figueiredo [um notório rebelde do esporte]”, ele conta.

Era esse o retrato de sua turma na praia do Pontal do Sul, para onde Leandro se mudou aos 18 anos, quando saiu da casa da mãe para seguir a carreira de surfista; ele já competia há dois no circuito paranaense, com bons resultados. Depois passou a disputar o campeonato brasileiro e a viajar para etapas na Bahia, no Rio de Janeiro, em Santa Catarina – às vezes dando carona em seu fusquinha para o conterrâneo Peterson Rosa. Foi nessa época que sua turma adotou o codinome Pontal Surf Cruel Maniacs. “A gente fez um adesivo. A galera achou irado e quis ter um. Daí a gente fez um bonezinho. A galera quis. Daí a parada começou a crescer”.

EMPRESÁRIO DE 21 ANOS
A carreira de surfista custava a decolar. “Eu estava de saco cheio. Ia para os campeonatos e os caras tiravam notas maiores porque vestiam uma roupa que o patrocinador queria. Eu não estava nessa”, ele diz. Mas uma nova carreira se apresentava para Leandro. “A Cruel Maniac cresceu e virou uma coisa cultural. As bandas de Curitiba queriam usar as roupas, os artistas queriam desenhar para a gente. E eu descobri que eu gostava de fazer roupa, costurar, me envolver com esses artistas”, conta Grilo. “Virei um empresário de 21 anos.”

Em 1998, a Cruel tinha dez lojas próprias e era vendida em multimarcas de surf no Brasil todo. Faturava algo mais que R$ 1 milhão por ano, mas tudo era reinvestido no negócio – para criar camisetas mais loucas, agitar a cena punk, patrocinar campeonatos de surf e skate e, claro, fazer festas. Quem era jovem e morava no Paraná nos anos 90 se lembra da Chacina, a festa que abria o verão no litoral do estado. Foram dez edições; a maior delas, em 98, teve duas tendas na praia, mini ramp, 2 mil pessoas e shows dos Ratos de Porão e da Aliança Incorruptível (a banda de Dadá Figueiredo).

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O sucesso da Cruel, porém, fez o menino selvagem de Cascavel se sentir “encurralado pelo sistema”. “Eu tinha virado um megaempresário”, diz Leandro, que trabalhava das 7 às 23 horas, viajava para feiras nos fins de semana e nunca tinha tempo para surfar. Nessa época, nasceram seus dois filhos: Yago, em 96, e Ysa, dois anos depois. A responsabilidade aumentava. E, para complicar, Leandro começou a descobrir desvios de dinheiro na Cruel. “Vi como tudo aquilo era frágil e pensei: vou mudar de vida. Vou ser pequeno de novo.”

Em 2000, Grilo inicia uma série de mudanças: geográfica (para Florianópolis, onde sempre sonhou morar); profissional (começou a se desligar da Cruel); e principalmente mental, em busca de uma vida equilibrada (ioga, meditação e alimentação saudável passaram a ser seus mantras). “Desde 2000, nem baseado fumei mais. Já não curtia muito... E eu notava que, quando fumava perto do Yago pequenininho, ele parecia não gostar também.”

QUE SINA
Um dos primeiros pupilos de Grilo, como técnico de surf, seria Ricardinho dos Santos. “Ele se tornou um filho para mim, meio que morava com a gente”, lembra. O treinador conhecia o garoto de sessões de surf na praia da Guarda do Embaú, mas a aproximação definitiva se deu quando Ricardinho começou a treinar no Anágua, um centro para surfistas onde o Leandro passou a trabalhar, em Florianópolis.

Ricardinho não tinha pai e se apegou a Grilo, a quem pedia conselhos e com quem viajava pelo mundo para pegar onda. “Fizemos um trabalho emocional. Ricardinho era um cara explosivo, seco, rude. Eu tentava fazê-lo gastar aquela fúria no momento certo, no surf. E estávamos tendo um êxito grande”, lembra Leandro. “Ele tinha se tornado um gentleman, um cara culto, respeitado lá fora, embaixador do surf brasileiro, querido por todos”, conta Grilo.

O surf de Ricardinho evoluía nitidamente. Em 2011, aos 21 anos, ele venceu as triagens da etapa de Teahupoo, a onda mais poderosa do circuito mundial; no ano seguinte, repetiu o feito e, no evento principal, eliminou nomes como Jordy Smith, Taj Burrow e Kelly Slater. No fim daquele ano, se tornou o primeiro brasileiro a ganhar o prêmio de Wave of the Winter, no Havaí, além de estampar uma capa da tradicionalíssima revista Surfing.

Os dois dividiam o mesmo teto no Havaí em 2013, quando, em um dia de surf pequeno em Pipeline, Ricardinho bateu no fundo da bancada de corais e quebrou a clavícula. Impedido de surfar, ele decidiu voltar ao Brasil e terminar a casa que estava construindo na Guarda do Embaú. Leandro pediu que ele ficasse, mas não foi ouvido. Dias depois, o técnico acordou com a notícia: Ricardinho tinha sido covardemente assassinado por Luís Brentano, um policial militar que passou a noite bebendo e ouvindo música alta perto da casa do surfista.

A relação com Ricardinho foi determinante para o momento atual de Grilo. Não fosse o pupilo, a parceria com Mineirinho não existiria e, sem ela, provavelmente a carreira de Leandro como treinador não teria tanta projeção. Uma carreira que teve um ponto alto – e meio surreal – em 17 de maio deste ano, em Saquarema, Rio de Janeiro. Sentado ao lado da mulher, Michelle, no palanque reservado a atletas e equipes, manejando uma câmera de vídeo (a videoanálise das baterias é um dos pilares de seu trabalho), Leandro observava dois competidores se alternarem nas ondas na semifinal daquela etapa do circuito. Um era Mineirinho, seu atleta; o outro, Yago Dora, seu filho, que aos 20 anos tinha eliminado três campeões do mundo nos dias anteriores – John John Florence, Gabriel Medina e Mick Fanning.

NO TEMPO CERTO
Yago começou a surfar tarde, aos 11 anos. Desde o início, ele e o pai criaram uma relação saudável e racional. Leandro não queria ser aquele “paizão incentivador” e, quando criança, Yago não gostava muito de surfar. “Ele soube exatamente como agir. A gente vê muitos pais que o filho nasce e eles botam uma prancha no pé dele, querendo que ele vire um Gabriel Medina”, diz Yago. “Meu pai soube levar isso de uma maneira leve. Comecei a surfar por diversão e tento me lembrar disso todo dia: surfo porque é o que eu amo”, pondera, com um tom seguro incomum para a idade.

Leandro, que em 2017 deu bastante atenção ao treinamento do filho, irá focar agora seu trabalho em Tatiana Weston-Webb, por acreditar que ela pode conquistar o título feminino. Mas a eventual distância não seria um problema nem para o pai nem para o surfista. “É bom deixar ele achar o caminho dele. Senão fica uma coisa muito ‘paizão’”, explica Grilo. “Ele sabe a hora exata de me cobrar, e o jeito certo de chegar”, completa Yago.

As cobranças que Grilo faz aos atletas, normalmente, têm a ver com foco. Ele é crítico de uma atitude comum entre jovens surfistas da elite: passar muito tempo no Instagram ou no WhatsApp. (Não é  caso de Yago, que não curte nem videogames, prefere ensaiar com sua banda, em que toca guitarra e canta.) O treinador se impõe os mesmos cuidados. Ao acordar, ele nunca checa o celular: prefere meditar, criar o que chama de silêncio mental da manhã. A força mental e a psicologia equilibrada parecem ser a chave de sua evolução. “Para um competidor estar 100%, precisa ter a mente plena”, ele diz. “Mas você não decide do nada: ‘Ok, agora quero estar com a mente plena’. É uma coisa que você precisa construir a cada dia.”

Esse método baseado em serenidade, que conseguiu induzir um foco descomunal em Mineirinho, começa a fazer de Yago o próximo fenômeno do surf brasileiro. “Surf é uma coisa muito energética. Às vezes, seu dia a dia não está tão organizado e isso reflete no seu surf. Se você está fazendo tudo certo fora da água, seu surf vai fluir mais. Está tudo meio conectado”, conclui Yago.

Créditos

Imagem principal: Cíntia Domit Bittar

Fotos: Cíntia Domit Bittar

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