por Janaína Pedroso

As associações não bancam o esporte, porque o mercado não tem interesse; já o mercado culpa as surfistas que não consomem. Mas mais que nunca é certo: é preciso salvar o surf feito por elas

É o velho papo do sexo frágil. Fomos criadas para esperar o príncipe encantado e, enquanto ele não chega, devemos ser meninas boazinhas, recatadas – e do lar, de preferência; nada de pegar onda, tubo, dar batidas, cutbacks nem dropar.

É certo que o surf feminino reflete a realidade do que ocorre com a maioria das modalidades esportivas do país: do futebol ao basquete, o salário e reconhecimento às mulheres parece estar a anos-luz do que é oferecido aos homens. Só que dentro d’água o buraco é mais embaixo. As surfistas parecem nunca ter nadado a favor da maré. “No surf, essa história da diferença de gênero é gritante. Fatos não faltam ao longo da história para comprovar”, afirma Alexandra Iarussi, fundadora da a.Mar, ainda hoje, das poucas marcas dedicada às surfistas. Alexandra, que também surfa, se refere, por exemplo, às décadas de 80 e 90, muito significativas pro esporte no Brasil. Durante os grandes festivais, que reuniam milhares de espectadores e surfistas, enquanto os atletas homens eram consagrados por suas performances mar adentro, a presença das mulheres se resumia aos concursos de beleza pé na areia, como o “Musa do Bikini”, o “Gata da Praia” e por aí vai. Isso que as mulheres já surfavam ondas no Brasil dos anos 30 (a americana Margot Rittscher foi precursora, em Santos).

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De lá pra cá, pouco parece ter mudado. Gerente de marketing da Neutrox, marca que dá nome à etapa do QS Feminino (divisão de acesso para a elite mundial que acontece entre 20 e 22 de outubro no Rio de Janeiro), Nicole Mandil explica que falta incentivo do mercado: “O surf feminino no Brasil é carente de iniciativas privadas. São poucas as marcas que enxergam o potencial das atletas e valorizam o poder feminino do esporte”. Pior: o que se vê é que nem as próprias marcas de surfwear feminino estão dispostas a ajudar a bancar a modalidade. De acordo com Karol Lopes, gerente de marketing da Roxy, a surfista não representa seu target (o público-alvo, na linguagem marqueteira). “Apenas 5% das consumidoras praticam o esporte. Os outros 95% são simpatizantes do esporte ou da marca.”

É difícil falar sobre o assunto sem levantar polêmica. As variações de musa, gata etc. que batizavam os concursos de beleza na areia outrora ainda parecem pautar o interesse dos investidores quando o assunto reúne mulher e prancha. “As marcas se preocupam demais em apoiar meninas bonitas, que fotografam bem e têm milhares de seguidores na rede. Enquanto surfistas talentosas que arrasam nas ondas, mas muitas vezes nem postam fotos, perdem espaço e oportunidade”, diz Tatiana da Mata, fundadora da Sicrupt, única marca nacional e exclusivamente feminina com um stand na maior feira de surf do país, a The Board Trader Show. Essa hiperssexualização da modalidade risca muito além do bolso dos patrocinadores – chegou à cabeça: em pleno 2017, a homossexualidade ainda é um imenso tabu dentro do universo do surf feminino. “Acredito que uma marca que lucra com o mercado do surf deveria ter o mínimo de comprometimento com o esporte, fazer algo por ele, e não apenas incentivar o consumo de produtos, aproveitando-se do status que o surf dá. Falta mais alma no Mercado do surf”, completa a executiva, que investiu cerca de R$ 15 mil no stand da marca para participar em um dos raros eventos focados no esporte no país.

Se por um lado não há entidades, associações nem representantes brasileiros promovendo esforços significativos para alterar a realidade do surf feminino no Brasil, a World Surf League (WSL) organiza cerca de 40 eventos femininos do QS ao ano. E as surfistas Carissa Moore (Havaí) e Stephanie Gilmore (Austrália) estão entre os dez surfistas mais bem pagos do mundo. (Segundo a Stab Magazine, Carissa faturou US$ 1,1 milhão; e Gilmore, US$ 1,4 mi, em 2016.) Vale lembrar que, atualmente, quem ocupa o cargo mais alto da maior liga do surf mundial é também uma mulher, Sophie Goldschmidt.

“É inadmissível que o Brasil, com o potencial que tem de atletas, eventos e fãs no surf masculino, não tenha isso também no feminino”, pontua Xandi Fontes, diretor-geral da WSL da América do Sul. O executivo garante que o cenário do surf feminino precisa de mudanças urgentes e que uma das diretrizes da WSL é para que as regionais fomentem a realização de mais eventos para as mulheres. Enquanto isso, a associação nacional, Abrasp, não é capaz de organizar sequer um circuito de abrangência nacional para a modalidade – pelo terceiro ano consecutivo. “Não precisamos ir muito longe para ver como toda essa engrenagem funciona. No Peru e no Chile, a categoria está bem mais fortalecida que no Brasil”, completa Fontes.

E não à toa o mercado externo cobra investimentos na modalidade. Ao longo do nosso vasto território litorâneo, temos inúmeros picos de surfe (imagine quantas mulheres surfistas podem surgir ainda!). Por aqui, já brilham talentos como Tainá Hinckel, Pamella Mel, Sophia Medina, Pamela Lopes e tantas outras surfistas mirins que ainda têm anos e anos pela frente – além de uma geração de empreendedoras realmente inseridas no contexto do esporte e que vêm renovando a mentalidade das marcas especializadas (Tatiana Da Mata, da Sicrupt, e Alexandra Iarussi, da a.Mar, são só alguns exemplos).

Enquanto entristece ver inúmeras surfistas que se tivessem um patrocínio estariam brilhando nas etapas do QS (caso da talentosíssima Júlia Santos), o otimismo e a vontade de reverter o jogo são latentes. Eis a nova era do surf feminino. E quem trará a salvação, ao que tudo indica, são elas mesmas: surfistas empoderadas, de corpo e alma, muita alma. 

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Créditos

Imagem principal: Ed Sloane/WSL/REX/Shutterstock

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