por Janaína Pedroso

Veloz e consistente. Assim é o surf de Júlia e Gilvanilta, duas brasileiras que têm o aéreo no repertório de manobras

No surf, o aéreo é de extrema dificuldade, exige força e velocidade - as chances de contusão são altíssimas. Poucas mulheres se sentem à vontade de realizar essas manobras durante as competições. Júlia Santos e Gilvanilta Ferreira estão ao lado de nomes de peso no surf mundial, como a brasileira Silvana Lima, que normalmente abusa das “decolagens” (é uma das suas principais armas), e a havaiana Carissa Moore.

Provavelmente, se os campeonatos femininos de surf no Brasil não tivessem ficado tantos anos sem acontecer, hoje Gilvanilta, a Gil, estaria competindo no circuito mundial. Natalense de 26 anos, ano passado ela ficou em terceiro lugar no ranking geral logo na primeira primeira vez que participou de uma etapa da WSL, liga mundial, no Peru. Em 2011, foi campeã brasileira profissional, além dos inúmeros primeiros lugares que conquistou nos campeonatos regionais em João Pessoa e Fortaleza.

Já Júlia cresceu surfando nas ondas de São Vicente na raça e sem patrocínio. Aos 20 anos, ela é tricampeã santista, bicampeã vicentina invicta, tricampeã do torneio A Tribuna de Surf Colegial, vice campeã do VQS Surf Tour e venceu a única etapa que conseguiu competir do Rip Curl Grom Seach, aos 15 anos. Ela coloca pressão e plasticidade nas manobras clássicas. O aéreo é sua carta na manga e dá 360 como as surfistas profissionais. Só não tem mais título por causa da falta grana para competir.

Nenhuma das duas conhece o pai e foram criadas apenas pelas mães. A de Gil vende coco na praia de Ponta Negra, em Natal, e dava as tampas das caixas de isopor para a filha brincar na água, pegando onda. A primeira prancha veio aos onze, quando começou a competir nos campeonatos estaduais. A de Júlia faz faxina em casas da baixada santista. Quem “levou” a menina para as ondas foi a igreja Surfistas de Cristo. “Depois dos cultos de domingo eu ia para escolinha de surf”, lembra. Também aos onze, em cima da primeira prancha, começou a competir contra os meninos e se destacar. “Passei por momentos muito complicados em que tive que vender as pranchas que tinha pra comprar comida”, conta Gil, que hoje mantém uma pequena escola de surf e tem orgulho do que enfrentou ao lado da mãe. “Como é que uma atleta vai conseguir apoio se ela não tem circuito para competir?”, questiona Rogério Melo, técnico de Júlia. “Para mim, a palavra que resume a falta de apoio às atletas mulheres no surf é uma só: preconceito”, completa. Enquanto esperam a certeza da volta do circuito nacional feminino, Júlia está focada em conquistar o Pro Junior e Gilvanilta treina nas aulas de surf que dá.

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