O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
Um estudo inédito brasileiro testou doses mínimas de THC e CBD em pessoas que vivem com a doença. Os resultados são discretos, mas apontam para uma nova forma de cuidado usando canabinoides
Uma microdose de alívio: o que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer / Créditos: Unsplash
em 27 de novembro de 2025
E se fosse possível envelhecer sem esquecer de quem a gente é? O Alzheimer ainda é um mistério – e um medo – que ronda milhões de famílias mundo afora. A medicina tenta entender uma das doenças que mais afetam a dignidade do envelhecimento, mas curar, não cura. Tratar, trata mais ou menos. Remediar, talvez. Prevenir? Pouco se fala. Mas e se uma planta que já foi símbolo de rebeldia e hoje briga por seu lugar na farmácia pudesse proteger o cérebro? Sem promessas milagrosas e nem barato: só com ciência.
Um novo estudo brasileiro apostou em microdoses de cannabis. Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), do qual faço parte, testou um extrato com THC e CBD em idosos com Alzheimer leve. É o que se chama de microdose: quantidades tão pequenas que não causam nenhum efeito psicoativo e tem uma atuação sutil, porém significativa.
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Desde 2017, estudos com animais mostravam que doses baixíssimas de THC melhoram memória e rejuvenescem o cérebro idoso. Mais recentemente, um case brasileiro mostrou melhora clínica em 22 meses de uso contínuo. E, agora, temos finalmente um ensaio clínico humano confirmando: dá pra modular o cérebro sem “chapar” ninguém.
O grupo tratado estabilizou a cognição ao longo de dois anos, enquanto o grupo placebo piorou. Os resultados são discretos, mas simbólicos. Os participantes que receberam o extrato apresentaram menos agitação, menos ansiedade e noites de sono mais tranquilas. E não foram registrados efeitos adversos significativos: nem enjoo, nem confusão mental, nem risada fora de hora. Só moléculas discretas fazendo o trabalho sujo por dentro e segurando a onda da degeneração.
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Usando a escala Mini-Mental (padrão ouro para cognição):
- Após 24 semanas, quem usou microdose de cannabis manteve a função cognitiva
- Quem não usou, teve queda na função cognitiva
- O efeito apareceu apenas em uma das escalas – mas foi estatisticamente relevante
Mais do que um tratamento, talvez seja o início de uma nova forma de encarar a cannabis: não como remédio de última linha, mas como suplemento de primeira camada. Um protetor neural, uma espécie de óleo essencial da memória. Mais do que curativo, este tratamento pode ter potencial preventivo – e isso é ainda mais difícil de testar. Tudo nesse achado é inédito.
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O sistema endocanabinoide regula a inflamação, plasticidade sináptica e humor. E ele declina com o envelhecimento. Estudos já mostram que compostos como THC podem compensar esse déficit. É como dar um suporte bioquímico ao cérebro – sem intoxicar, sem sedar, sem delírio e nem motivo para ter medo.
Este é o primeiro estudo clínico humano com microdose de cannabis para Alzheimer e pode ser um primeiro passo rumo ao uso preventivo de canabinoides contra o declínio natural da cognição que vem com o envelhecimento. É um marco, e talvez o início de uma nova classe de prevenção neural. Uma curiosidade é que ela evita de cara o maior freio cultural para o tratamento de idosos com a planta: a ideia de que eles podem ser “prejudicar” ficando chapados. Na dose certa, o veneno vira remédio.
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Por que esperar o cérebro falhar para começar a cuidar dele? Cannabis medicinal pode ser mais que tratamento: pode ser neuroproteção. Isso é radicalmente oposto à ideia de que ‘maconha mata neurônio’. Ao invés disso, a planta pode trazer um novo envelhecer mais saudável.

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