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Não deixe a noite morrer

Na era do smartwatch, das metas de produtividade e dos shakes de proteína, a noite resiste como espaço onde o erro e o improviso ainda são possíveis

Nos últimos tempos, virou moda dizer que a noite acabou.

Nos últimos tempos, virou moda dizer que a noite acabou. / Créditos: Vinícius Rocha (@vinicomfritas)


em 12 de fevereiro de 2026

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Nos últimos tempos, virou moda dizer que a noite acabou. Que as pessoas não querem mais sair, que a geração Z prefere cafés, matcha e rolês diurnos. Que o álcool perdeu o encanto, que a madrugada já não é o que era. Mas será mesmo que a noite acabou – ou estão tentando acabar com ela?

A noite é um conceito atemporal, um lugar de contracultura. Foi nas madrugadas que nasceram movimentos, estilos e comportamentos que o dia jamais aprovaria de primeira. A noite é resistência cultural e política. Talvez seja justamente por isso que ela incomode tanto: não só porque insiste em existir, mas porque oferece um tipo de liberdade que o dia não comporta.

Que as pessoas não querem mais sair, que a geração Z prefere cafés, matcha e rolês diurnos.
Em um manifesto contra a vilanização da vida noturna, Pedro H. Jasmim defende a madrugada como um dos últimos territórios de liberdade. / Créditos: Vinícius Rocha (@vinicomfritas)

A ideia de que dormir cedo e acordar produtivo é o ápice da evolução humana parece mais uma tentativa de disciplinar o prazer do que de deixar as pessoas mais saudáveis.

Enquanto o dia pertence à produtividade, à meta, à cafeína e ao neoliberalismo, a noite pertence ao humano. O sistema funciona muito bem durante o dia: regula, cobra, mede, cronometra. Mas à noite o controle escapa. A ideia de que dormir cedo e acordar produtivo é o ápice da evolução humana parece mais uma tentativa de disciplinar o prazer do que de deixar as pessoas mais saudáveis.

A noite é liberdade. E liberdade assusta quem precisa que tudo esteja sob controle. Ela é o que resta de espontâneo em um mundo obcecado por eficiência, o espaço do improviso, do encontro, da pausa. A noite é onde a gente desopila. Já experimentou dançar até o sol nascer com os amigos? Pode funcionar melhor do que muita terapia.

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Que o álcool perdeu o encanto, que a madrugada já não é o que era.
“A noite é onde corpos dissidentes, desejos desviantes e vozes fora do padrão encontraram refúgio, palco e comunidade”, escreve Pedro H. Jasmim. / Créditos: Vinícius Rocha (@vinicomfritas)

A noite não é o oposto da saúde, é o contraponto da rigidez. É onde corpos dissidentes, desejos desviantes e vozes fora do padrão encontraram refúgio, palco e comunidade.

E não estou falando do consumo de álcool e drogas ou exaltando excessos, mas do conceito de um espaço simbólico de liberdade, expressão e contracultura, um território onde o instinto e o desejo voltam a ser permitidos. Todo mundo fala em correr pra aliviar a cabeça, mas também há outras maneiras de descarregar que dispensam tênis, preparo físico ou smartwatch.

A indústria do wellness tenta vender a ideia de que o fim da noite é sinônimo de evolução. Que a única maneira de viver bem é acordar cedo, meditar, correr no sol, dormir oito horas, tomar compostos vitamínicos e fazer skincare. É esse discurso simplista que transforma a noite em vilã, como se tudo que acontece fora do horário comercial fosse errado, improdutivo ou perigoso.

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“A noite não acabou e nunca vai acabar. Enquanto houver gente querendo se encontrar, se perder e se reinventar, ela continua viva”, escreve Pedro H. Jasmim. / Créditos: Vinícius Rocha (@vinicomfritas)

Mas a noite não é o oposto da saúde, é o contraponto da rigidez. É onde corpos dissidentes, desejos desviantes e vozes fora do padrão encontraram refúgio, palco e comunidade. Os corpos que não cabem na estética do wellness, que não tomam shakes proteicos nos restaurantes da moda e nem usam conjuntinhos combinando para se exercitar encontram ali um espaço de acolhimento.

Na noite ninguém precisa performar, basta estar. É um território onde ainda é possível ser espontâneo e não há algoritmo, meta nem aprovação. A noite permite que a gente assuma outra versão de si, um papel diferente do horário comercial. Não necessariamente melhor, só mais livre. É um lugar de autoencontro, porque nos permite experimentar versões imperfeitas. A noite não acabou. Ela nunca vai acabar. Porque enquanto houver gente querendo se encontrar, se perder e se reinventar, a noite continua viva.

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