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Ouro olímpico, melhor jogador do mundo e cego: a vida iluminada de Mizael

Bicampeão paralímpico, Mizael Conrado fala sobre a vida sem visão, o futebol de cegos e o paradoxo brasileiro entre leis avançadas e inclusão ainda limitada

Mizael Conrado (@mizaelconrado), convidado do #TripFM. Bicampeão paralímpico de futebol de cegos e eleito melhor jogador do mundo em 1998.

Mizael Conrado (@mizaelconrado), convidado do #TripFM. Bicampeão paralímpico de futebol de cegos e eleito melhor jogador do mundo em 1998. / Créditos: Divulgação


em 6 de março de 2026

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“A visão é o sentido dominante. Isso faz com que a pessoa com deficiência visual tenha que se provar o tempo todo. Ou é um herói, ou um pobre coitado. Há um preconceito que generaliza todos os cegos, quando na verdade cada um é único, com suas próprias características, como qualquer outra pessoa”, diz Mizael Conrado, convidado do Trip FM desta sexta-feira (6). Bicampeão paralímpico de futebol de cegos e eleito melhor jogador do mundo em 1998, Mizael foi presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro entre 2017 e 2024, período em que o Brasil bateu recordes de medalhas em Tóquio 2020 e Paris 2024.

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No programa, Mizael compartilhou sua trajetória de um menino nascido em Santo André (SP) que perdeu completamente a visão aos 13 anos e realizou muito mais do que sonhou. No papo com Paulo Lima, o advogado e mestre em administração pública, que foi peça-chave na aprovação da Lei de Inclusão da Pessoa com Deficiência, falou sobre os paradoxos do Brasil no campo da acessibilidade: “Temos uma das melhores legislações das Américas para pessoas com deficiência, mas avançamos lentamente na cidadania. Falta equidade, que é oferecer condições para que todos possam fazer as mesmas coisas”, afirmou.

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Compartilhando suas vivências dentro e fora do esporte, Mizael também refletiu sobre como a falta da visão ressignifica o contato com o outro. “A maneira da gente se relacionar é diferente, porque não há a possibilidade da troca de olhares. Quando acontece uma interação, no nosso caso, o que atrai é o que se ouve, o perfume, as ideias. A sensualidade faz mais sentido que o conceito de beleza, porque é como a gente percebe o outro como um todo.”

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Você pode ouvir o programa no play nesta página, no SpotifyDeezer e todas as plataformas de áudio. Confira um trechinho a seguir!

Mizael Conrado (@mizaelconrado), convidado do #TripFM. Bicampeão paralímpico de futebol de cegos e eleito melhor jogador do mundo em 1998.
Mizael Conrado (@mizaelconrado), convidado do #TripFM. Bicampeão paralímpico de futebol de cegos e eleito melhor jogador do mundo em 1998. / Créditos: Divulgação

O sofrimento, o trauma, a dor muitas vezes fazem a pessoa amadurecer. Quando você olha para a sua história, você contou que teve um momento muito duro quando criança. Como foi aquilo?

Mizael Conrado. Esse era o meu grande sonho. Quando eu chego lá no consultório médico, diz o seguinte: “Olha, esse menino não vai enxergar. Ele vai ter que viver o resto da vida dele como uma pessoa cega”. E a única coisa que eu tenho para recomendar é que vocês procurem uma escola onde ele possa estudar para que pelo menos ele seja alfabetizado.

Foi uma paulada muito contundente na minha cabeça. Imagina o que é uma pessoa imaginar uma vida sem um sonho? Isso é o que nos move. A inspiração está muito relacionada ao sonho. Para mim foi difícil imaginar a vida sabendo que o meu sonho existiria, mas eu não teria nenhuma capacidade de realizar.

Aí o médico indicou uma escola no Ipiranga, o Instituto Padre Chico. Eu fui lá conhecer o colégio onde os cegos estudavam. E a gente passa em frente a uma quadra de futebol, todo mundo correndo, gritando, o barulho do guizo. Eu fiquei curioso e perguntei: “Mas pera aí, eu não estou numa escola de cego?”. Ela falou: “Sim, são eles que estão jogando”. Aquilo marcou a minha vida. Eu pensei: “Cego pode jogar bola? Então quer dizer que eu posso sonhar”.

A gente evoluiu muito no esporte, mas talvez pouco na convivência e no respeito às pessoas com deficiência. Como você vê isso? A gente vive uma situação paradoxal no Brasil. De um lado, a gente tem uma legislação extremamente atual, moderna e vanguardista. O Brasil teve sua legislação considerada uma das melhores das Américas para a população com deficiência. Mas, por outro lado, a gente avança muito lentamente no respeito às pessoas.

É a falta da percepção do que vem a ser equidade. Equidade está relacionada a ofertar condições para que as pessoas possam fazer as mesmas coisas com as mesmas oportunidades.

Vou dar um exemplo: as maquininhas de pagamento nos restaurantes. O cego nunca teve acessibilidade plena porque a máquina não tem síntese de voz, mas sempre dava um jeito ali com o garçom e digitava a senha. Agora começaram a trazer esses terminais todos sem botão. O que acontece? O cego, além de não ter acesso ao valor que está pagando, não consegue digitar sua própria senha.

Então eu adotei uma regra: se eu chegar num estabelecimento e não tiver como eu digitar minha senha, eu não pago a conta. Deixo meu telefone e digo: quando chegar a máquina acessível, você me liga que eu volto aqui e pago.

Você falou agora há pouco sobre preconceito. Muitas vezes as pessoas colocam a pessoa com deficiência como herói ou como vítima. Como você enxerga isso? Todas as pessoas têm limitações. Algumas limitações são perceptíveis, outras não. Muitas vezes as limitações ocultas são até mais complexas, porque você não consegue perceber que é uma limitação.

Então a gente precisa entender que cada pessoa é única. Às vezes se cria uma generalização sobre a pessoa com deficiência que não corresponde à realidade, porque cada indivíduo tem suas próprias características e capacidades.

Quando a gente pensa em relacionamento afetivo, a visão parece ter um papel importante na atração. Como é isso para quem não enxerga? A falta da visão dificulta a aproximação com as pessoas. Muitas vezes você se aproxima de alguém porque viu a pessoa e trocou olhares. No caso do cego, isso não acontece. Muitas vezes as pessoas estão olhando para o cego e ele não tem a menor ideia de que isso está acontecendo.

Entretanto, quando você tem a possibilidade de interagir com as pessoas, a forma muda. O que chama atenção normalmente é aquilo que você vê. No nosso caso, o que chama atenção é o que você ouve, o que você toca, a percepção olfativa.

Então é difícil falar de beleza, porque é um conceito abstrato. Eu diria que a sensualidade talvez seja um conceito mais amplo. Ela compõe o indivíduo como um todo — tem a ver com o perfume, com as ideias, com aquilo que se pode tocar.

Falando em olfato, você gosta de perfume? Eu gosto muito de perfume. E isso é mágico, porque você tem as essências que são criadas, mas no final das contas essa essência sozinha não quer dizer muita coisa. O processo químico da interação da essência com a química do indivíduo é que produz uma identidade única.

Pode observar: se você usar o mesmo perfume do seu colega, o seu cheiro vai ser diferente do dele, porque tem essa reação de cada indivíduo com aquela essência.

Então o perfume é muito mais do que um líquido que exala um cheiro específico. Ele compõe a personalidade da pessoa.

Quando você começou no esporte paralímpico, a realidade era bem diferente da atual. O que mudou? Na minha época eu estudava, trabalhava e jogava. Era uma época muito difícil porque não existiam patrocinadores. Os apoios eram bastante escassos e a gente tinha muita dificuldade até para parar para treinamento, porque precisava conciliar com outras atividades.

Depois de Atenas, em 2004, surgiu o Bolsa Atleta em 2005. Depois vieram patrocínios, leis de incentivo ao esporte e a construção do Centro Paralímpico.

Hoje a realidade é muito diferente. Todos os jogadores da seleção brasileira são profissionais, vivem do esporte, treinam todos os dias e têm uma equipe multidisciplinar acompanhando — fisioterapia, medicina do esporte, fisiologia. Hoje tem muita ciência aplicada ao esporte paralímpico.

Então a gente tem hoje uma condição bastante adequada para que os atletas possam se desenvolver no alto rendimento.

Antigamente era o médico que dizia quem tinha deficiência. Isso mudou? Até 2008 era o médico que dizia se você tinha deficiência ou não, a partir de um código internacional de doenças.

Hoje não é mais assim. Para definir se você tem deficiência, você é avaliado por uma equipe multidisciplinar — tem assistente social, médico, psicólogo.

O que é considerado hoje é a capacidade de interação da pessoa com o ambiente onde ela está inserida. Então a condição econômica também entra nessa equação, porque dependendo dos recursos que a pessoa tem, o acesso dela ao ambiente pode ser muito mais facilitado.