Fabi Fregonesi: a fotógrafa que trocou o Google pelo fundo do mar
A primeira brasileira a subir no pódio do 'Oscar' da fotografia subaquática encarou o medo do mar e uma transição de carreira radical
Fabi Fregonesi: a fotógrafa que trocou o Google pelo fundo do mar / Créditos: Divulgação / Luciana Aith
Entre estar em uma rua deserta qualquer ou rodeada de tubarões no fundo do mar, Fabi Fregonesi não hesita em escolher a segunda opção. “Sem dúvida alguma, me sinto mais segura com os tubarões. No mar, se você respeita o espaço e entende os sinais dos animais, existe harmonia. Na cidade, como mulher, o perigo é maior e gratuito”, diz a fotógrafa subaquática carioca. Mas sua relação com o oceano nem sempre foi pacífica. Aos 13 anos, uma experiência traumática despertou nela um medo de peixes que durou anos e se manifestou, inclusive, como crise de pânico no primeiro mergulho em mar aberto.
A reconexão com o mundo submerso foi lenta, construída em camadas de autoconhecimento, estudo e presença. “Aos poucos, fui entendendo que meu medo era fruto de uma situação pontual e não da natureza do mar em si. Em algum momento, o fundo do mar deixou de ser perigoso e passou a ser um abrigo que me ensina a desacelerar, observar e respeitar o tempo das coisas”, afirma Fabi. Mergulhadora desde 2009, ela registra a vida marinha há 14 anos, mas só há dois o hobby virou profissão.
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Formada em publicidade e administração, Fabi esteve por duas décadas no mercado corporativo antes de a vocação vir à tona. Os últimos anos foram vividos em um cargo de liderança no Google, até que uma situação grave de saúde a obrigou a rever tudo. Em 2023, durante uma viagem a trabalho para a África do Sul, Fabi teve um quadro de diverticulite com perfuração intestinal, com risco real de morte. “Isso reorganizou completamente as prioridades. ‘Sucesso’ deixou de estar ligado ao crachá e passou a ter a ver com autonomia sobre meu tempo”, conta.
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No ano seguinte, ela se tornou a primeira brasileira no pódio do Underwater Photographer of the Year 2024 – considerado o Oscar da fotografia subaquática –, conquistando o terceiro lugar na categoria Naufrágios. Isso a encorajou a reorientar sua bússola para se dedicar inteiramente à fotografia subaquática aos 40 anos. Em menos de dois anos, Fabi acumulou mais de 20 prêmios em competições nacionais e internacionais. Mas ela não romantiza as correntezas da transição de carreira. “Eu evito a narrativa do ‘persiga seu sonho’ a qualquer custo. Só consegui mudar de rota porque tive uma estrutura e a possibilidade de planejamento. A independência financeira foi decisiva nesse processo e sei que essa não é a realidade da maioria.”

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Na conversa com a Tpm, Fabi fala sobre os caminhos que a levaram para o fundo do mar, a fotografia como ferramenta em tempos de crise climática e como se tornou amiga dos tubarões.
Tpm. Você já contou que, na adolescência, viveu uma experiência traumática que te afastou do oceano por anos, e que seu primeiro mergulho em mar aberto foi marcado por uma crise de pânico. O que mudou para que o fundo do mar deixasse de ser ameaça e virasse abrigo e vocação?
Fabi Fregonesi. Minha relação com o mar não foi linear ao longo da minha vida. Sempre tive uma conexão forte, frequentava muito a praia quando pequena, mas essa relação estremeceu aos 13 anos. Vivi uma experiência traumática que me trouxe um medo de peixes, algo que carreguei por muitos anos e que acabou me afastando do oceano. Esse medo estava presente, inclusive, no início da minha vida como mergulhadora e foi o grande gatilho para a crise de pânico que tive no meu primeiro mergulho em mar aberto. Não houve um único evento de reconexão, mas um processo gradual de cura e experimentação. Aos poucos, fui entendendo que meu medo era fruto de uma situação pontual e não da natureza do mar em si. O que mudou foi essa escuta interna e o conhecimento: entender o ambiente marinho, aprender sobre os animais, sobre meu próprio corpo e minhas reações foi fundamental. Em algum momento, o fundo do mar deixou de ser um lugar onde eu projetava meus medos e passou a ser um espaço de presença, silêncio e conexão. Hoje, ele é abrigo porque me ensina a desacelerar, a observar, a respeitar o tempo das coisas. A vocação nasceu quando percebi que minha história pessoal e minha fotografia podiam se transformar em uma ferramenta para comunicar o oceano de forma mais humana, acessível e responsável.

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Passar por um quadro grave de diverticulite com perfuração intestinal, com risco real de morte, virou uma chave na sua vida. O que essa experiência te ensinou sobre tempo, sucesso e propósito? Você acha que a partir daí conseguiu colocar a própria vida em primeiro plano ou você ainda sente a pressão de dar conta de tudo? Passar por uma situação tão delicada de saúde reorganizou completamente as prioridades. A noção de tempo mudou: ele deixou de ser infinito e passou a ser precioso. Aprendi que o tempo é um recurso não renovável. “Sucesso” deixou de ter qualquer relação com cargo ou crachá e passou a ter tudo a ver com autonomia sobre as minhas horas e cada vez mais coerência com o que eu acredito. Entendi, também, que propósito não precisa ser algo grandioso ou distante, mas tem relação com a forma como a gente escolhe viver o cotidiano. Passei a colocar minha vida em primeiro plano, mas isso é, sobretudo, um exercício diário. A pressão para ‘dar conta de tudo’ é um fantasma que ainda me visita, mas hoje eu tenho um termômetro interno muito mais sensível com relação a isso e me permito me cobrar muito menos. Hoje, percebo alguns sinais mais rápido e tento fazer ajustes antes que o corpo precise gritar de novo.
Depois de quase 20 anos no Google, você abriu mão da estabilidade, da carteira assinada e de um salário confortável para seguir outra carreira. O quanto a independência financeira foi decisiva nessa escolha? A independência financeira foi decisiva e eu faço questão de dizer isso com muita honestidade. Foram quase 20 anos em uma empresa que me permitiram construir uma base para mudar de rota. Mesmo assim, essa transição nunca foi sobre um salto no escuro, e sim sobre construir, com cuidado, uma travessia possível. Demorou mais de um ano entre a minha primeira internação até a coragem de seguir um novo caminho. Planejamento, reserva financeira, entendimento claro dos riscos e a consciência de que nada estava garantido caminharam ao meu lado por bastante tempo, e continuam comigo até hoje. Sei que essa não é a realidade da maioria, reconheço meu privilégio. Muitas mulheres dependem da renda dos parceiros, desempenham a maternidade de forma solitária, vivem no limite do orçamento e não têm margem para errar. Por isso, eu evito a narrativa do “persiga seu sonho” a qualquer custo. A realidade pode ser dura e decisões grandes precisam de estrutura. Mas o que talvez possa ser útil para outras pessoas, cada uma dentro da sua realidade, é a importância de ter algum norte. Quando você começa a entender para onde quer ir, mesmo que ainda esteja longe, fica mais possível se planejar, fazer escolhas mais intencionais e criar pequenos degraus. Nem sempre o caminho acontece no tempo que a gente gostaria, mas ter direção ajuda a não se sentir completamente à deriva.

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Seu trabalho revela uma conexão muito íntima com o mar, mas também com a crise climática e a ameaça aos ecossistemas. Ver de perto espécies e paisagens que podem desaparecer te atravessa mais como angústia ou como combustível para seguir fazendo o seu trabalho? Lidar com a beleza extrema e, ao mesmo tempo, com as consequências da nossa relação desequilibrada com a natureza não é simples. Dói, mas também traz responsabilidade. Ver um recife saudável, um animal em comportamento natural, uma interação rara traz um alívio profundo. Esses momentos lembram por que vale a pena continuar. Ao mesmo tempo, eu também vejo de perto os impactos das escolhas que fizemos como humanidade: degradação, poluição, ecossistemas fragilizados. Esse contraste é constante. Transformar essa dor em narrativa visual e informação acessível é a forma que encontrei de lidar com isso. A fotografia, para mim, não é sobre estética vazia. Eu não fotografo apenas o que é bonito, mas também o que é vital. Se eu consigo fazer alguém se apaixonar por uma imagem, talvez essa pessoa se importe em preservar aquele ecossistema. Minha câmera é a ferramenta que encontrei para sustentar esse equilíbrio entre admiração e urgência.
Você se sente mais segura no fundo do mar e entre tubarões do que em uma rua deserta qualquer? Essa resposta é a mais fácil de todas: sem dúvida alguma me sinto mais segura no fundo do mar e com os tubarões. No mar, existem regras claras e um comportamento biológico previsível. Se você respeita o espaço e entende os sinais dos animais, existe harmonia. Na cidade, principalmente como mulher, o perigo é infinitamente maior, imprevisível e gratuito. Entre tubarões, eu sou uma observadora atenta; em uma rua deserta, eu sou possivelmente um alvo. O mar me trouxe uma sensação de segurança, presença e paz que o asfalto raramente oferece.

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Por que você acha que existe tanto medo e preconceito em torno dos tubarões? Você acha que algum dia poderemos ter tanto apreço por eles quanto temos pelos golfinhos, por exemplo? Assim como a maioria das pessoas, eu cresci ouvindo que tubarões eram ‘comedores de gente’, mas no meu primeiro mergulho com eles, presenciei um comportamento completamente diferente do esperado. Ali, percebi como esse título de vilão é injusto e me apaixonei. Eles são animais essenciais para o equilíbrio dos oceanos, extremamente sensíveis e, na maioria das vezes, indiferentes à nossa presença. Entendi, então, a necessidade de usar minhas imagens para desmistificá-los. Não se trata de romantizar e nem desconsiderar o fato de serem grandes predadores, mas de entender que eles não representam esse grande risco. Na verdade, nós é que somos os ‘grandes matadores’: matamos entre 80 e 100 milhões de tubarões por ano e várias espécies estão à beira da extinção. O medo e o preconceito vêm de décadas de desinformação e sensacionalismo. Eu acredito profundamente na empatia através do conhecimento. Quando você entende que eles são os guardiões da saúde dos oceanos e que nós somos os intrusos, o medo vira respeito. Talvez não precisemos que todos amem os tubarões como os golfinhos, mas precisamos urgentemente que todos os respeitem e os protejam.
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