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A primeira vez que eu mostrei a barriga no carnaval

Como uma fotógrafa que ajuda mulheres a amarem seus corpos superou a vergonha de mostrar a própria barriga em público

Demorei 30 anos pra sair de barriga de fora no Carnaval

Demorei 30 anos pra sair de barriga de fora no Carnaval / Créditos: Aline Capobianco


em 13 de fevereiro de 2026

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Quem não odeia sua barriga é privilegiada, sim. Isso vale pra nós, mulheres, que sofremos com a pressão estética e a gordofobia antes disso ter nome. O sonho de consumo é a barriga negativa, chapada – aquela que eu nunca tive. Lembro da inveja ao ver as meninas na escola de barriga de fora, magérrimas, sem nenhuma dobra. Aqueles eram os corpos que podiam ser mostrados – o meu, precisava ser escondido.

No meu caso, comecei a ter sintomas de hipotireoidismo com 14 anos, mas como a medicina não é feita para as mulheres, só fui diagnosticada aos 28. Resultado: tive períodos na vida de engordar dez, 15 quilos sem motivo aparente.

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A primeira “engordada” foi na adolescência e meu mundo caiu: as roupas não serviam mais. Eu dançava ballet – um ambiente de cultura da magreza – e me sentia um hipopótamo de collant. Passei a ficar de calça e moletom o tempo todo, não usava regata, não colocava biquíni, não deixava que tirassem fotos de mim. Lembro do último dia de aula do ensino médio: houve uma excursão para um sítio e eu menti dizendo que estava menstruada para não ter que entrar na piscina.

Cresci me achando gorda, sonhando com os corpos das capas de revistas. Mal sabia eu que eles não existem. Nem a modelo da capa se parece com a modelo da capa.

E assim eu cresci me achando gorda, grande, larga, sonhando com aqueles corpos das capas de revistas: magros e longilíneos, delicados, sem nenhuma gordura, estria, celulite… Mal sabia eu que esses corpos não existem. Nem a modelo da capa de revista se parece com a modelo da capa de revista.

O destino calhou que, já adulta, fui trabalhar como assistente de moda e publicidade em estúdios e sets de filmagem. Eu vi as modelos, as atrizes da globo, as celebridades e posso afirmar que, embora elas sejam mulheres magras, dentro dos padrões, geralmente com traços eurocêntricos, elas têm sim rugas, celulites, estrias, dobras, marcas, como todo mundo. Nos bastidores da criação dos padrões de beleza que consumimos, fui percebendo que aquilo tudo é uma grande mentira.

Demorei 30 anos pra sair de barriga de fora no Carnaval
A fotógrafa Maria Ribeiro conta como superou a vergonha e se permitiu exibir a barriga no Carnaval. / Créditos: Angélica Alves / Arquivo Pessoal

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Essa descoberta me motivou a fazer o trabalho que faço hoje como fotógrafa: uma arte verdadeira, visceral, que mostra a verdade sobre nossos corpos, nossas narrativas e nos coloca em um lugar de protagonismo em nossas imagens e histórias.

Um outro acontecimento muito importante foi ler e começar minha pesquisa sobre O Mito da Beleza (1990) , de Naomi Wolf. Trata-se de um estudo que nos mostra que essa opressão que sentimos – nunca somos belas, magras, jovens ou gostosas o suficiente – não é realmente sobre a nossa aparência, mas uma estratégia patriarcal para nos enfraquecer e minar nossa potência.

A primeira frase que li desse livro foi esta:

“A obsessão da sociedade com a magreza feminina não é sobre beleza, é sobre obediência. As dietas e restrições alimentares são o sedativo político mais poderoso das ultimas décadas, pois uma população passivamente insana é muito mais fácil de ser controlada”

Trecho do livro O Mito da Beleza (1990)

Desde então dedico meu trabalho, que chamo de Photomedicina, ao processo de curar as mulheres desse adoecimento em relação aos nossos corpos, à pele que habitamos, à imagem que projetamos no mundo, porque isso influencia em todas as áreas da nossa vida: carreira, relacionamentos, vida sexual, amorosa, familiar… Enfim, tudo.

Entretanto, isso não quer dizer que eu estava imune às pressões. Mesmo hoje, que estou em uma fase infinitamente melhor em relação ao meu corpo, não posso dizer que nada me afeta – afinal somos bombardeadas o tempo inteiro com a mensagem de que precisamos nos encaixar em padrões cada vez mais irreais e impossíveis. Mas no começo eu ainda me sentia mal, pois me julgava uma “impostora”. Afinal, como pode uma mulher que faz palestras sobre O Mito da Beleza, que dedica sua arte à cura da relação das mulheres com seus corpos, ter vergonha de mostrar a barriga por aí?

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Mas eu tinha. Aprendemos que nossos corpos não estão autorizados a ocupar determinados espaços. Aprendemos a julgar as mulheres que se expõem, pensando: “Ela não tem corpo pra isso aí, não”. Adiamos nossas libertações, prometendo a nós mesmas que “quando emagrecer, eu faço”. E isso, não só em relação a roupas, mas também a viagens, tatuagens, ensaios fotográficos e tantas outras experiências que nos privamos por vergonha e insegurança.

Demorei 30 anos pra sair de barriga de fora no Carnaval
“Mesmo hoje, numa fase melhor em relação ao meu corpo, não posso dizer que nada me afeta. Mas estarei de barriga de fora no Carnaval de novo – e recomendo muitíssimo”, escreve Maria Ribeiro. / Créditos: Maria Ribeiro (@mariaribeiro_photo)

Descobri o carnaval de rua, os bloquinhos tocando marchinha, me joguei de corpo todo e saí de alma lavada – e barriga de fora.

Em 2016, eu tinha 30 anos, acabado de me separar e o carnaval estava chegando. Não estava no clima, mas uma amiga de infância de Belo Horizonte insistiu para que passássemos o carnaval lá. “É a sua cara! Não é micareta, só bloquinho com música boa. Você vai adorar!”

Eu fui. E adorei. 

Descobri o carnaval de rua, os bloquinhos pequenos tocando marchinha, me joguei de corpo todo e saí de alma lavada – e de barriga de fora. Me senti tão livre, leve e solta que chegou um momento, naquele calor, que tirei a camiseta e fiquei o dia inteiro com a barriga à mostra pra quem quisesse ver. E problema de quem julgasse.

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Na verdade, o maior julgamento vem da gente. Ninguém estava se importando com isso naquele momento: todos os corpos, o brilho, as cores, estavam numa apoteose carnavalesca de festa e resistência. E assim, uma grande barreira se foi. Um problema que acabou.

Todas as minhas inseguranças desapareceram como um passe de mágica?

Claro que não.

Mas estarei novamente de barriga de fora no carnaval e recomendo muitíssimo!

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