Tem um minuto para a palavra do lazer?
A jornalista e artista Alessandra Santos mostra que ter hobbies é uma questão de sobrevivência para mulheres e ensina atividades fáceis de colocar na rotina
A jornalista e artista Alessandra Santos mergulha em sua memória e na ciência para mostrar que abrir uma brecha para os hobbies é, antes de tudo, uma questão de sobrevivência / Créditos: Bruna Costa (@brunacosta.photo)
“De quem será que você puxou isso?”, diz minha mãe, percebendo que estou há horas trancada no quarto fazendo colagem, escrevendo e me divertindo com coisas que ela nunca entendeu por que acho tão interessantes. Por “isso”, ela quer dizer essa minha mania de colocar meus hobbies em um lugar de prioridade. Eu respondo que também não sei de quem eu puxei esse costume, mas não consigo parar de buscar a resposta na memória. E, quanto mais busco, mais percebo o quanto cultivar hobbies ainda é um ato quase revolucionário para mulheres.

Meu pai brincava, minha mãe cuidava
Quando penso na minha infância, chego à conclusão de que meu pai tinha mais hobbies do que a minha mãe. O Playstation 1, quadrado e reluzente, exposto na estante de casa, era a maior prova disso. Lembro claramente de vê-lo à frente da TV, jogando um jogo de corrida hipnotizante todos as noite depois do trabalho. Também tenho lembranças dele saindo à noite para jogar futebol e sendo um grande apreciador de música.
Por outro lado, não consigo resgatar nenhuma memória de minha mãe praticando esportes ou se dedicando a qualquer atividade criativa. Não consigo nem me lembrar de qualquer cena em que ela estivesse descansando. A mãe da minha infância eu só consigo lembrar na frente da pia, do fogão ou do varal. Sempre sobrecarregada, exausta e estressada.
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Com meu pai, tenho ótimas lembranças de brincadeira. Era ele quem pegava minha motinha de plástico cor-de-rosa e saía fazendo manobras radicais pelo quintal, enquanto eu morria de rir em cima dela. Também era ele quem montava as melhores barracas de cobertores na sala e inventava as brincadeiras improvisadas mais legais do mundo. Esse foi o pai que tive na infância.

Com minha mãe, não me lembro de brincar. Ela nunca tinha tempo, nem disposição. Porém, lembro com nitidez de uma noite em que tive uma forte dor de barriga e só conseguia dormir se ela pressionasse meu abdômen com as mãos. Eu era tão pequena que a mão dela cobria quase toda a minha barriga, e aquele calor fazia a dor diminuir. Toda vez que ela pegava no sono e parava de pressionar, eu a cutucava de volta. Ela passou a noite em claro para que eu não sentisse dor. Essa foi a mãe que tive na infância.
Meu pai brincava. Minha mãe cuidava.
Tempo para cuidar de tudo, menos de si mesma
Isso não é só uma memória pessoal, é um retrato do Brasil. Uma pesquisa do IBGE mostra que, em 2022, as mulheres dedicaram 9,6 horas semanais a mais do que os homens aos afazeres domésticos e ao cuidado de outras pessoas. Eles até participam, sobretudo em pequenos reparos da casa, mas, segundo o levantamento, o trabalho de manutenção da vida continua ficando, em grande parte, com as mulheres.
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Ainda assim, o cenário é um pouco melhor do que em 2019, quando as mulheres dedicavam 10,6 horas a mais do que os homens às tarefas domésticas e ao cuidado de outras pessoas. Além disso, um estudo de 2025 do IBOPE Repucom, chamado Women and Sports, mostra que o interesse feminino por esportes cresceu 20% desde 2020. Ou seja, juntos, esses dados sugerem que, aos poucos, sinais de mudança começam a aparecer. E ainda bem, porque cultivar hobbies é uma questão de saúde.

Fazer arte faz bem para a saúde
Uma pesquisa publicada no Australian Occupational Therapy Journal analisou 19 estudos com adultos envolvendo diferentes atividades manuais como cerâmica, bordado e tricô. Em muitos casos, os resultados mostraram redução significativa de ansiedade e depressão, além de melhora no bem-estar psicológico e aumento de confiança, sociabilidade e qualidade de vida. Um dado legal que confirma aquilo que quem faz arte com frequência sente na prática: ela faz bem para a saúde.
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“Sinto que é a primeira vez que consigo respirar de verdade esta semana”, foi o que eu disse depois de finalmente arranjar tempo para me dedicar a um novo projeto artístico de colagem. E quando digo isso, não é no sentido figurado: eu literalmente sinto que me concentrar em atividades manuais regula o ritmo da minha respiração e me faz desacelerar.
Talvez isso também tenha relação com o fato de que, quando me dedico às práticas criativas, deixo de lado o atual maior inimigo da minha – e provavelmente da sua – ansiedade: o celular.

Um estudo sobre detox digital, publicado pela Universidade de Ciências Aplicadas da Alta Áustria, discute como o tempo distante das telas é importante para mitigar o que pesquisadores chamam de “lado sombrio” das tecnologias, que inclui estresse digital, ansiedade e alterações fisiológicas causadas pelo uso excessivo delas.
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Assim, se dedicar a atividades offline como cerâmica, bordado, colagem ou escrita é uma forma cientificamente comprovada de amenizar os impactos da tecnologia no nosso bem-estar. Sim, de novo: fazer arte faz bem para saúde
Como arranjar tempo para hobbies?
Essa é uma pergunta que recebo com frequência, e eu entendo. Hoje, não tenho filhos e trabalho remotamente, o que me coloca numa posição privilegiada para encaixar esses momentos artísticos na rotina. Mas, mesmo que esse não seja o seu caso, existem formas simples de começar. Portanto, aqui vão algumas dicas:
3 hobbies fáceis de incorporar no dia a dia
- Escrita: reserve alguns minutos antes de dormir ou logo ao acordar para escrever. Conte sobre o seu dia, desabafe ou até xingue alguém que está sendo uma pedra no seu sapato, se precisar. Não foque em escrever bem, apenas em coloque para fora o que sente.
- Junk journal: esse é um estilo de caderno que mistura colagem e memória. A ideia é guardar pequenos fragmentos do cotidiano como embalagens, folhas secas, ingressos, notas fiscais, recortes e colar tudo em um caderno da maneira que você achar melhor, criando uma espécie de diário visual. O resultado fica muito legal.
- Desenho com giz pastel oleoso: é uma ótima porta de entrada para quem quer incorporar arte na rotina. O material é barato, fácil de usar e há vários tutoriais para iniciantes na internet. Até os desenhos feios ficam fofos – então, sem pressão.
No fim das contas, cultivar hobbies não precisa ser algo complexo ou que ocupe horas do dia. Às vezes, dez minutos já são suficientes para lembrar o corpo de respirar melhor.
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