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Te vi no Instagram e brochei

A escritora Mariana Bittencourt analisa por que saber demais sobre alguém pelas redes sociais está matando o tesão antes do primeiro beijo

Te vi no Instagram e brochei

Créditos: Unplash


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Antes do primeiro beijo, te vi de sunga em 2021. Foi naquela viagem que você fez com os amigos pra Floripa, com a legenda: elite. Você estava gostoso no Instagram, mas o seu jeito de abrir os braços em frente a todos os pontos turísticos me fez pensar que você seria meio bobo, um desses caras que só acessa emoção em dia de jogo do Flamengo e responde “suave” pra tudo. 

Vi o seu story fazendo rosca martelo na academia e cancelei o date.

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Minha amiga psicóloga diz que estamos vivendo um tempo antierótico. A antecipação digital mata o mistério e o tesão. O tanto de informação que a gente pode ter sobre alguém antes de conhecê-lo atrofia a nossa capacidade de fantasiar sobre ele. 

Se você, por exemplo, concluiu a partir do meu instagram que eu sou uma vagabunda e perdida, você acertou.

Estamos vivendo um tempo antierótico. A antecipação digital mata o mistério e o tesão.

Na cultura do mise-en-scène, a prévia tem virado a própria vida. Todo mundo arruma a mesa mas ninguém almoça. A festa ruim que foi pensada pra virar post. O bar meia bomba de cerveja quente e batata murcha que está mais preocupado com o feed (desde que surgiu o mural com asas, nunca mais fomos os mesmos). É muito gelo e pouco whisky, né, Safadão. 

“A antecipação digital mata o mistério e o tesão”, escreve Mariana Bittencourt. / Créditos: Unplash

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Semana passada, fui a um restaurante que, na internet, os pratos eram bonitos, fotogênicos, sedutores. Pessoalmente, não tinham muito sabor. O meu prato alegrou mais o meu rolo de câmera que o meu buchinho. Fiquei me perguntando por que o restaurante era tão bem avaliado, até que veio o garçom e me ofereceu desconto caso deixasse um review. Absurdo, dei nota 10. 

No fim, também somos um restaurante louco por avaliação positiva. A nossa imagem online vale mais que o que servimos?

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Quando a preocupação em ser interessante ronda tudo o que fazemos, caminhamos pra um narcisismo sem precedentes e uma insegurança na mesma proporção. A sensação de estar sendo avaliada o tempo todo acanha ao mesmo tempo que nos deixa na defensiva: de tudo, à minha imagem serei atenta. Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto.

Na cultura do mise-en-scène, a prévia tem virado a própria vida. Todo mundo arruma a mesa mas ninguém almoça.

Talvez seja um tempo não só antierótico, mas antipático: ao bater o olho no outro online, já desenhamos mentalmente o seu perfil e decidimos se ele nos agrada ou não. Vi o seu instagram e brochei. Esquecemos que todo mundo pode nos surpreender. Taí o Zé Gotinha no terreiro, que não me deixa mentir.

Dizem que o Instagram é um recorte. É mesmo. Te segui e te recortei da minha vida.

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