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Amor em baixa

A escritora Mariana Bittencourt reflete sobre relacionamentos na era do heteropessimismo e do ressentimento de gênero

Mosaico triplo com retrato de mulher branca de cabelos ondulados castanhos e loiros, blusa vermelha e argolas de madeira. Ela sorri e usa piercing no septo. O fundo da montagem apresenta padrão geométrico de retângulos em laranja e vermelho. No ambiente interno, há cadeiras de madeira e luminária.

"As heteropessimistas têm optado pelo detox, mas sou uma heterofatalista, viciada em amar, então vou logo pra redução de danos", escreve Mari Bittencourt em coluna para Tpm. / Créditos: Arquivo Pessoal


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“Mantenha seu coração aberto”. Essa frase, do filme Hamnet, ficou ecoando na minha cabeça por dias, como um megafone, como uma música do Psirico, wee-oo-wee-oo. Esse é mesmo um bom conselho pra vida. É o tal do mientras uno esté vivo debe amar lo máximo que pueda. E de não perder a ternura jamais (a minha não sei onde foi parar, acho que perdi no bolso de algum casaco).

É que, sendo mulher, como posso viver com alguma doçura se o caminho é tão amargo? (Para amar, então, está salgado). Em linguagem shakespeariana: ohhh, estimada e ausente leveza, como faço para terdes a vossa companhia nesta atribulada travessia, sem que te percas no meu próprio ódio? Ser ou não rancorosa, furiosa e trevosa: eis a questão.

Pegamos a era dos homens que não conseguiram ser melhores que seus pais e nós vivemos melhores que nossas mães.

Me disseram que o caminho mais fácil pra ser leve é caneta emagrecedora, mas não era bem isso que estava buscando. O que quero é conseguir transitar pela vida com gaiatice. Me divertir, tirar onda, brincar. Me relacionar de guarda baixa. Sair da defensiva. Viver o amor sem pensar: que horas esse cara vai me ferrar?

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Acompanho a reforma masculina como um fiscal de obra que vai lá todo dia e volta falando: “Senhoras, a pintura atrasou”. É o mal da minha geração, acompanhar de perto uma reforma que começou tarde e não tem data pra acabar. Pegamos a era dos homens que não conseguiram ser melhores que seus pais e nós vivemos melhores que nossas mães. Quem disse isso foi Manuela d’Ávila, em uma entrevista, explicando o termo “ressentimento de gênero”: é o tempo dos machos feridos.

Na entrevista, ela explica o seguinte: se a avaliação social do homem gira em torno da sua capacidade de prover, ele falhou (afinal a economia piorou da época dos nossos pais pra cá). Enquanto isso nós, mulheres, conquistamos coisas que nossas mães não podiam: a liberdade, o trabalho, a autonomia. Ou seja, temos uma sensação de avanço. Eles não. E esse orgulho ferido dos homens fere as mulheres.

Heteropessimistas têm optado pelo detox, mas sou uma heterofatalista, viciada em amar, então vou logo pra redução de danos.

São muitas as teorias pra tentar explicar o inexplicável (que mulheres passem por tudo o que passam e no fim quem estão feridos são eles????), mas essa é uma das que mais gostei de ouvir. Não que dê pra fazer muita coisa com essa informação (talvez imprimir este texto e criar um origami maneiro). O que me resta é estar consciente de que o amor hétero na era das reformas envolve duas feras feridas se relacionando: um cheio de dores geracionais e a outra cheia de traumas atuais.

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As heteropessimistas têm optado pelo detox, mas sou uma heterofatalista, viciada em amar, então vou logo pra redução de danos. Com tudo isso imposto, além das dores que trazemos da infância, da relação com nossos pais e todo esse combo que forma a nossa disponibilidade afetiva, COMO MANTER O MEU CORAÇÃO ABERTO, assim, em caixa alta, sem medo?

Parece que o amor nunca esteve tão em baixa, me lembra o cruzeiro na época do Collor. Será que confiscaram o nosso direito de amar? Dá até um pouco de vergonha de investir no amor, me sinto como se estivesse comprando uma franquia de frozen yogurt, de paleteria mexicana, de cupcake. Vai querer mexer com amor logo agora, não era melhor virar sócia de um clube de corrida?

Bem, melhor investir no amor hoje que está barato, logo logo ele valoriza e vai ter um monte de gente querendo comprar. Ou talvez ele continue perdendo valor até sumir do mercado, como a temakeria que eu ia em 2008.

Shakespeare, uma dúvida: se o amor fechar as portas, é pra gente continuar de coração aberto? Ohhh, amado amor, não podes ruir! Não te deixes escorrer ao desprezo e à mesquinharia! Não faças com que nós, poetas e colunistas, fiquemos sem assunto.

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