Morrer de rir não mata
A atriz e roteirista Julia Tavares lembra a maior lição que aprendeu com Vovó Canivete
Autora de textos para cinema, TV e teatro, Julia Tavares investiga as raízes do próprio humor. / Créditos: Arquivo pessoal
Não sei se é efeito colateral dos cromossomos XX, mas mulheres aprendem desde cedo a se defender. No meu caso, comecei a entender isso na segunda série, mais especificamente na turma 21 no colégio Palácio Infantil, no Grajaú (bairro da zona norte do Rio de Janeiro, onde cresci), com a minha avó me dizendo que a única coisa que doía em homem era falar do tamanho de algo que eu não sabia o que era, mas que ficava no meio das pernas deles.
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E assim eu fazia cada vez que algum deles falava do tamanho do meu nariz, algo que doía muito nela, já que ela dizia que essa era, literalmente, a minha maior herança de família. Eu discordo: além de muitas dívidas, minha família também me deu senso de humor suficiente para, inclusive, poder aguentar ceias de Natal com muita briga e farofa ressecada.
Passei a infância inteira ouvindo dos outros que eu parecia um menino. Nunca entendi por que, já que eu, além de tomar banho todo dia, demonstrava habilidades claramente incompatíveis com o universo masculino, como ouvir uma frase inteira antes de interromper.
Levei anos pra descobrir que é porque eu era engraçada ou, ao menos, era o que me acusavam de ser. Só que pra ser engraçado você precisa ser livre, e ser livre era coisa de menino. Hoje, aos 42 anos, eu sigo tomando banho todo dia, mas infelizmente não posso mais dizer que não interrompo pessoas antes que elas concluam suas sentenças. Minha terapeuta diz que não é culpa minha, e sim da minha ansiedade crônica, mais um artigo de luxo da minha extensa herança de família.
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Minha avó, uma mulher simples e de princípios sólidos, atendia pelo carinhoso apelido de Vovó Canivete, uma homenagem às pequenas medidas de segurança que ela adotava na vida cotidiana, como carregar um na bolsa para lidar com taxistas estranhos e pessoas que ousassem furar a fila da Caixa Econômica. Enquanto minhas amiguinhas herdavam das avós cadernos de receitas de bolo e goiabada, eu cresci com o receio de um dia abrir a gaveta da minha e encontrar um caderno de anotações com dicas práticas de sutura para cortes profundos.
Talvez tenha sido ali que eu tenha aprendido uma coisa importante: o constrangimento é uma matéria-prima extraordinária.
Até tentei ser uma pré-adolescente misteriosa e blasé, mas meu plano foi por água abaixo no exato momento em que decidi, de forma despretensiosa, perguntar para minha mãe, durante o jantar, se sexo oral era de hora em hora e anal de ano em ano – e assim me tornei a maior piada da família. Talvez tenha sido ali que eu tenha aprendido uma coisa importante: o constrangimento é uma matéria-prima extraordinária. Algumas pessoas tentam evitá-lo. Eu, aparentemente, comecei a colecioná-lo, e talvez tenha nascido com vocação para produzi-lo em escala industrial. Meu item mais raro é um arroto que dei sem querer na cara da Paula Lavigne em uma festa onde eu certamente fui convidada por engano.
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Famílias costumam deixar algum tipo de legado. Há quem herde imóveis, joias, casas de praia. Há quem herde receitas. Na minha família, parece que herdamos uma habilidade específica: reagir ao absurdo com uma mistura de deboche e instrumentos improvisados de defesa. Herdei algumas coisas da minha avó. O canivete, infelizmente, não. Em compensação, aprendi a nunca sair de casa sem dois itens de defesa pessoal na bolsa: uma tesourinha de unha e uma piada cretina.
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