Logo Trip

A voz de uma mãe surda

Miriam Garlo, primeira atriz com deficiência auditiva a ganhar o Prêmio Goya, e a diretora Eva Libertad falam sobre o filme Surda, que colocou a maternidade invisível em cena

A voz de uma mãe surda

Créditos: Divulgação


em 22 de maio de 2026

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

Quando Miriam Garlo subiu ao palco do Prêmio Goya 2026 em fevereiro com o troféu de Melhor Atriz Revelação nas mãos, ela não apenas fez história como a primeira mulher surda a receber o prêmio mais importante do cinema espanhol. Ela aproveitou o microfone para falar sobre algo maior que a própria conquista. “À violência obstétrica devemos acrescentar a violência da não comunicação ou a violência da invisibilidade. Sem comunicação, somos meros objetos. Sem comunicação não há respeito. Sem respeito, somos um fracasso como sociedade. E lembrem-se, nenhuma pessoa surda é muda. Temos nossa própria voz, mas ela nem sempre é oral.” O discurso, aplaudido de pé, resumia o que ela e sua irmã, a diretora Eva Libertad, levaram anos construindo: Surda, o primeiro longa-metragem espanhol protagonizado por uma atriz com deficiência auditiva.

/ Créditos: Divulgação

“Pessoas surdas têm voz própria, mesmo que ela não seja oral”, diz Eva Libertad

LEIA TAMBÉM: Crisálida, primeira série brasileira de ficção em Libras

O filme, que chegou este mês aos cinemas brasileiros, acompanha Angela, uma mulher surda que enfrenta pela primeira vez a maternidade ao lado de Héctor, seu parceiro ouvinte. Com a chegada do bebê, ela precisa navegar os desafios de criar uma filha em um mundo que simplesmente não foi pensado para pessoas como ela. A trama nasceu de um curta-metragem homônimo que Miriam e Eva fizeram juntas, baseado em dilemas da própria atriz em relação à maternidade, que Miriam decidiu não protagonizar na vida real. O sucesso do curta convenceu as duas a aprofundar a história. Surda foi premiado em três categorias no Goya: além de Miriam, Eva levou o prêmio de Melhor Diretora Estreante e Álvaro Cervantes, que interpreta Héctor, ganhou como Melhor Ator Coadjuvante.

O projeto carrega a intimidade de duas irmãs que investigam e criam uma história. Mas Miriam faz questão de separar o filme de sua biografia. “A minha personagem, Angela, e eu não temos nada a ver e isso foi intencional. Queremos mostrar que uma atriz com deficiência também pode construir personagens. Mesmo não ouvindo, eu posso mudar minha forma de falar, de pensar, de agir, de sentir, como qualquer atriz pode”, disse a espanhola.

/ Créditos: Divulgação

LEIA TAMBÉM: O mundo silencioso das tentantes

Ainda que seja ficção, as situações do filme foram construídas a partir de depoimentos de mães surdas reais. “Descobri que, assim como acontece com as mães ouvintes, as maternidades surdas são diversas”, conta a cineasta. “O que me impactou foi saber que todas as mães surdas tiveram um parto traumático. Por isso, essa cena precisava estar no filme.” 

A sequência retrata todo o caos do trabalho de parto em um hospital com o peso adicional das falhas de comunicação entre Angela e uma equipe médica despreparada para recebê-la. É disso que Miriam falava no palco do Goya: não apenas sobre um aspecto da violência obstétrica que raramente é considerado, mas o que significa não conseguir se fazer entender num momento de extrema vulnerabilidade. 

“O que me impactou foi saber que todas as mães surdas tiveram um parto traumático”, diz Eva Libertad

LEIA TAMBÉM: Violência obstétrica: até quando?

Na conversa com a Tpm, as duas falam sobre o que ainda precisa mudar para que a comunidade surda ganhe visibilidade dentro e fora das telas.

Tpm. Miriam, você protagoniza o primeiro longa espanhol com uma atriz surda no papel principal. O que precisa mudar no cinema para que esse filme não seja uma exceção?

Miriam Garlo. Estou muito feliz de ser a primeira atriz surda a ganhar um Goya, mas não quero ser o único referencial. Na Espanha, há várias outras atrizes e atores surdos tentando abrir caminho, fazendo cursos de atuação, buscando estar nas telas. Faltam facilidades desde a formação até os castings. É muito importante que os diretores entendam o que é a surdez e quais histórias podem ser contadas sobre ela.

Acho que qualquer set pode ser acessível. É só dar prioridade à comunicação. Se há atrizes e atores surdos no set, cuide disso, há recursos. O que falta são políticas que facilitem que esses espaços sejam de fato diversos.

As histórias que temos hoje são muito inspiradoras, mas as pessoas surdas são retratadas como seres fora da realidade. Nós não somos coalas, somos pessoas. A gente não ouve, mas temos muitas camadas como qualquer ser humano. Qualquer personagem pode ser surdo. Por exemplo: uma bióloga num filme poderia ser surda. Existem pessoas surdas no dia a dia, então essa realidade precisa chegar às telas, para que todos saibam mais sobre essa condição e haja de fato uma reflexão.

Por trás das câmeras, quase sempre o diretor é homem, o que define o que aparece nas telas. As mulheres retratadas são lindas e jovens, porque os diretores só dão visibilidade ao que lhes interessa. Mas há todo um outro olhar, uma outra maneira de estar no mundo, que agora a gente está começando a produzir no cinema.

LEIA TAMBÉM: Já parou pra pensar em como é o mundo sem som? Mergulhamos no universo de mulheres surdas

/ Créditos: Divulgação

“Quase sempre os diretores são homens, então as mulheres retratadas são lindas e jovens, porque eles mostram o que lhes interessa. Mas há outro olhar que estamos começando a produzir no cinema”

O filme Surda é inspirado na sua vida? Não, tudo no filme é ficção. Antes dele, fizemos um curta-metragem também chamado Surda, esse sim baseado em fatos reais. Na época, eu estava pensando em ser mãe, então retratamos os medos e dúvidas que isso me gerava. Quando vimos o impacto do curta, resolvemos fazer o longa-metragem para aprofundar o tema. Mas neste segundo filme, a gente quis se afastar da minha vida real, inclusive porque eu decidi não ser mãe no fim das contas. A minha personagem, Angela, e eu não temos nada a ver. Ela perdeu a audição aos dois anos, então ela não tem linguagem verbal, oral incorporada. Eu perdi aos sete, quando já falava muito bem. São diferenças pequenas, mas que mudam completamente o desenvolvimento cognitivo, as habilidades sociais, a forma de se relacionar de uma pessoa surda. Trabalhei muito para encontrar a voz da Angela, porque ela não tem a fala articulada como a minha. Para fundamentar o roteiro, minha irmã, a diretora Eva Libertad, se reuniu com mães surdas que contaram suas experiências no parto e na maternidade. Mas a gente quis que a biografia da Angela fosse totalmente diferente da minha para mostrar que uma atriz com deficiência também pode construir personagens. As pessoas tendem a achar que a deficiência limita atores. E não, como qualquer atriz, mesmo não ouvindo, eu posso mudar minha forma de falar, de pensar, de agir, de sentir.

“Uma atriz com deficiência também pode construir personagens. Mesmo não ouvindo, posso mudar minha forma de falar e agir”, afirma Miriam

Eva, o que mais te surpreendeu nessas entrevistas com as mães surdas? Na verdade, o que eu descobri é que não tem uma única experiência de mãe surda, assim como não tem uma experiência única de mãe ouvinte. Existem muitas experiências comuns na maternidade, mas cada mãe vive a relação com os filhos de um jeito, dependendo do contexto de vida, do grau de surdez, do entorno familiar. O que me impactou demais nos depoimentos foi que todas as mães surdas tinham tido um parto traumático. Por isso eu decidi que tinha que ter uma cena de parto no filme. Tudo o que acontece em Surda está baseado em situações reais que essas mães viveram. Claro que a maternidade está atravessada por muitas pautas sociais, a pressão por ser uma mãe perfeita é comum entre mães ouvintes e surdas. O medo de que o parceiro tenha um vínculo maior com o filho também. Muitas mães ouvintes me disseram que se identificaram com a Angela mesmo sem serem surdas.

/ Créditos: Divulgação

VEJA NO TRIP TV: A expressão de Edinho, poeta surdo que extrapolou o circuito de libras

No início do filme, Angela evita interagir com pessoas ouvintes que ela não conhece. No final, ela marca seu espaço no aniversário da filha na creche cantando parabéns em língua de sinais diante de todos os outros pais e mães ouvintes. Qual conselho você daria para mães e mulheres surdas que estão no começo dessa jornada de autoconfiança?

Miriam Garlo. Com respeito às diversas identidades femininas surdas, eu não poderia dar um conselho para uma mãe surda, porque acho que é uma coisa muito pessoal. Cada uma tem que seguir seu caminho e todos são válidos, na minha opinião. A Angela viveu situações que muitas mulheres surdas ou ouvintes reconhecem: maternidade, depressão pós-parto, crises na relação com o companheiro. Quando ela decide cantar parabéns para a filha, é porque atravessou tudo isso e encontra, no amor pela criança, a energia para reivindicar seu lugar como mãe surda. Não sei se todas as mulheres surdas vão chegar lá, e tudo bem.

O meu conselho seria para pessoas que nunca pensaram o que é a surdez e para um sistema que invisibiliza pessoas surdas. Toda a sociedade ouvinte do planeta Terra precisa de informação e de sensibilização para entender o que é não ouvir num mundo que está pensado para as pessoas que ouvem. Sempre vai existir conflito emocional dentro de nós, pessoas surdas, mas a gente se esforça para se adaptar e criar vínculos. E criar um vínculo com sua criança, se você é mãe, é uma necessidade vital.

Nós, da comunidade surda, conhecemos nossa cultura e nossas línguas de sinais. Mas no fim das contas, tudo tem a ver com políticas e recursos para que a gente possa se desenvolver a nível cognitivo, profissional e social. Não há tanta distância entre quem não ouve e quem ouve. E a qualquer momento, uma pessoa ouvinte pode deixar de ouvir. Então, é uma questão de empatia, de entender que a diferença nos enriquece como humanidade.

“Não há tanta distância entre quem não ouve e quem ouve. A qualquer momento, uma pessoa pode deixar de ouvir. É preciso entender que a diferença nos enriquece como humanidade”, diz Miriam

O filme retrata situações em que a família trata a Angela como se não fosse capaz de tomar decisões ou cuidar da própria filha, mesmo com boas intenções. O que vocês diriam para ouvintes que convivem com pessoas surdas, para que elas consigam respeitar a autonomia dessas pessoas?

Miriam. Bom, não é todo mundo que quer escutar isso. As pessoas têm uma mentalidade cada vez mais individualista. Mas o que ajudaria muito seria ter espaços de acolhimento psicológico e emocional para mulheres surdas, onde a gente possa falar sobre o que acontece com a gente, como a gente se sente. E que houvesse intérpretes nos espaços públicos do dia a dia. Eu sou adulta, tenho 41 anos, por que minha mãe precisa me acompanhar nas consultas médicas? Nos hospitais e outros lugares, tem que haver alguém que fale língua de sinais, ou profissionais de saúde com formação básica em língua de sinais. Isso geraria muita liberdade e alívio. Falta informação e interesse. A pessoa surda não é incapaz, ela só não ouve. Tem direito de viver a vida como quiser. Se precisar de ajuda, ela pode pedir. Mas o outro não pode tomar decisões por ela nem omitir informações.

“Falta interesse em nos acolher nos espaços. Eu sou adulta, por que minha mãe precisa me acompanhar em consultas médicas?”, diz Miriam

Eva. Como irmã da Miriam, vi esse tipo de situação a vida inteira. Quando a acompanho em algum lugar público, as pessoas passam a se comunicar só comigo quando percebem que ela é surda. Ela simplesmente desaparece. O que eu diria é: respeite a forma como a pessoa surda quer se comunicar. Se ela quer aprender língua de sinais, ótimo. Se prefere leitura labial, tudo bem. É a escolha dela. Pessoas surdas têm voz própria, mesmo que ela não seja oral. O que acontece muitas vezes é que as pessoas tomam decisões por delas por preocupação. Mas o que a pessoa surda precisa é de possibilidades e liberdade para ter autonomia. O que eu aprendi no meu contato com a comunidade surda é que a língua de sinais é o que permite o desenvolvimento de relações mais profundas. É muito difícil criar vínculos reais sem essa ferramenta. Depende do grau de surdez, mas num contexto totalmente oral, é muito desgastante para a pessoa surda ser obrigada a fazer leitura labial o tempo todo.

LEIA TAMBÉM: Virei mãe, e agora?

/ Créditos: Divulgação

Eva, o filme parece que foi pensado também para espectadores da comunidade surda. Essa foi uma decisão consciente desde o início? Como a comunidade surda está recebendo o filme? Desde o princípio, eu tinha muito claro que queria explorar a sensorialidade da Angela e queria que o filme ajudasse o público ouvinte a entrar na pele da protagonista. Então, não mexemos só no som: mudamos também a planificação, a forma de ver e entender o que a Angela sente. E sobre a comunidade surda, cada país tem um contexto específico, mas há uma coisa que todos compartilham: as barreiras de comunicação e os problemas de acessibilidade. No geral, a recepção tem sido muito boa. As comunidades surdas sentem gratidão por ter uma representação na tela grande, mas querem mais. Faltam muitas referências e muita diversidade ainda. Angela não é uma personagem que representa todas as pessoas surdas, essa nunca foi a nossa intenção. Assim como não existe uma personagem ouvinte que represente todas as pessoas ouvintes.

LEIA TAMBÉM: Mãe não é tudo igual