O mundo silencioso das tentantes
A atriz e roteirista Tóia Ferraz divide sua jornada de perdas gestacionais, medos, dúvidas e a pressão de uma sociedade que não sabe lidar com os tropeços no caminho da maternidade
Créditos: Naná Curti
Por Tóia Ferraz
em 19 de novembro de 2025
Quando decidimos ter filhos, nunca pensamos que o nosso caso vai ser daqueles complicados, cheios de altos e baixos. A sensação é de que sim, outras mulheres passam por experiências dolorosas, mas você não: você é saudável, faz esporte, come bem, faz terapia. Como as coisas poderiam dar errado?
Engravidei uma semana depois do meu casamento e descobri que o bebê não tinha batimento cardíaco um dia antes de embarcar pra lua de mel. Fiquei tão ‘ameba’ com a notícia que, no dia seguinte, perdemos o voo mesmo estando em frente ao portão de embarque. De repente, o mundo tinha parado – ou, pelo menos, o meu mundo.

Na Bahia, no meio de uma lua de mel repleta de amor, melancolia e frustração, me despedi do bebê que ainda estava na minha barriga: “Foi muito bom estar com você durante essas semanas. Agora pode ir, meu filho”. De volta a São Paulo, curetagem. Três meses depois, grávida de novo: uma nova vida, uma nova esperança e o mundo que vira de ponta cabeça – sonhos, medos, expectativas, tudo outra vez.
LEIA TAMBÉM: Grávida de três, um relato de violência obstétrica
No primeiro ultrassom, um alívio: batimentos normais. “Que bebezão lindo, ele é perfeito”, disse a médica. Em um domingo, véspera do segundo exame, algo estranho. Cadê o sono que eu vinha sentindo? No laboratório o médico me explica sem olhar nos meus olhos: “Infelizmente, o coraçãozinho parou de bater”. Mais uma vez, o chão se abre. “Como assim isso está acontecendo? Eu não era a super saudável da turma?”.

Segunda curetagem. Enquanto segura o feto numa espécie de guardanapo, a médica pergunta se eu quero ver. “Sim, quero me despedir.” Depois da segunda perda, mergulhei em uma espécie de busca espiritual, queria ouvir de médiuns, padres e líderes religiosos que na próxima ia dar certo. Para minha alegria, ou para o que eu escolhi acreditar, deu: grávida de novo, três meses depois. “A terceira é a vez da sorte”, disse minha sogra, me lançando uma piscadinha. Mas essa terceira gestação já começou dominada pelo medo. Logo no primeiro ultrassom: ausência de batimentos cardíacos. Terceira curetagem. “Doutora, quando acabar eu quero me despedir do feto, ok?”
A volta pra casa com a barriga vazia é uma das partes mais duras: para onde foram todas aquelas imagens de família comercial de margarina que permeavam a minha mente? Quando a gente passa por perdas, é natural que venha o pensamento: “Será que não é pra mim?”. Eu fui atravessada por essa dúvida, mas ser mãe é um desejo genuíno meu, não um protocolo a ser seguido. É, sim, pra mim. É uma jornada solitária em muitos momentos, mas ter uma rede de mulheres ao meu redor, me inspirando e me dando força, foi essencial.
LEIA TAMBÉM: Por que falamos tão pouco sobre as mulheres que não podem engravidar?

Na tal sociedade do espetáculo que vivemos, tudo é glorioso, bonito, digno de ser mostrado. O chá revelação é um evento no Instagram, o parto é registrado por uma equipe de vídeo, o corpo “recupera” seu peso ideal em tempo recorde… A perda gestacional, a infertilidade e o luto não têm espaço num mundo que só celebra o sucesso e esconde os desafios. Quando você “falha” em qualquer uma dessas etapas, vem a sensação irracional e injusta de fracasso – eu sei, mas ela vem. Como muita gente não está preparada pra falar sobre esses temas, acabam dizendo besteiras como “já já vem outro” ou coisas que machucam ainda mais uma mulher que já está atravessando um processo de dor. Então, muitas vezes, a gente se cala pra se poupar.
Por preconceito ou ignorância, nunca imaginei que eu teria que fazer uma Fertilização in Vitro (FIV). “Se FIV, tem menos chance de passar por outro aborto. A tecnologia permite que a gente coloque em você só um embrião que seja saudável”, disseram. Foram seis meses de injeções, remédios, horários e exames infinitos. Quando finalmente tivemos um embrião saudável, começamos o preparo para a transferência. Três dias antes do procedimento, esqueci de tomar um comprimido. Avisei a médica, tranquila, achando que ela diria para dobrar a dose seguinte. “Vamos ter que cancelar”, disse, fria. “Cancelar?”, tentei entender.

Foto: Naná Curti
Ela explicou que sem o remédio, o endométrio não estava mais perfeito para receber o embrião. E como só tínhamos um, a recomendação era cancelar, esperar alguns meses e iniciar tudo de novo. Mas algo em mim disse não: “Esse bebê está pronto e eu quero seguir.” Ela insistiu: “As recomendações médicas internacionais dizem que…” Mas eu já tinha decidido. Na verdade, eu tinha sentido. “Eu sei que vai dar certo. E vou respeitar o que eu estou sentindo. Esse bebê está pronto. Agora, ele está pronto.” Decidi ouvir o meu corpo.
Escrevo esse texto grávida de 18 semanas desse embrião implantado no dia 1º de agosto. Descobri o positivo na mesma noite que estreei meu primeiro grande filme nos cinemas e vi dois sonhos tomando forma e ganhando o mundo. Hoje entendo com mais clareza que não temos controle de absolutamente nada, mas também aprendi que, por mais experiente que seja, ninguém sabe mais sobre a sua vida do que você.
Os medos ainda estão aqui, mas agora eles dividem espaço com um orgulho imenso de poder dizer: confie no que você sente.
LEIA TAMBÉM