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Ana Paula Xongani: as dores e delícias de ser uma mãe influencer

A comunicadora revela os desafios de blindar as filhas da exposição e de fazer ativismo nas redes sociais na era da compulsão digital

Ana Paula Xongani: as dores e delícias de ser uma mãe influencer

Créditos: Divulgação


em 14 de maio de 2026

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Ana Paula Xongani construiu ao longo de dez anos um canal reconhecido pelo que ela mesma chamou de ativismo afetivo: em vez de focar no confronto, a designer, empresária e criadora de conteúdo aposta no diálogo acolhedor, capaz de desarmar quem se propõe a ouvir. Foi assim que construiu um canal no Youtube com mais de 94 mil inscritos e um perfil no Instagram com 335 mil seguidores falando sobre raça, parentalidade, gênero, moda e comportamento sem provar do veneno dos haters. Na era do cancelamento nas redes sociais, isso é uma façanha e tanto. “Não posso dizer que sou impactada por um discurso de ódio desqualificado. Há discordância nos meus canais, mas ela acontece dentro de um limite saudável”, afirmou.

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Fora das telas, Xongani é mãe de Ayoluwa, de 12 anos, e de N’weti, de 23, sobrinha que acolheu como filha há três anos. É nessa fronteira entre o público e o privado que mora um dos seus maiores exercícios: proteger as filhas tanto da exposição que o próprio trabalho gera quanto do uso excessivo de telas. “A compulsão digital é o grande dilema da nossa geração e, lá em casa, essa conversa se faz presente. A mais nova não tem celular ainda e as redes sociais dela são 100% controladas por mim”, conta.

“Minhas filhas têm um ponto de partida muito diferente na construção da autoestima. Isso cura a minha infância”

Contra o fluxo de um mercado que lucra com a exposição da privacidade, Ana Paula aprendeu a centralizar a narrativa em si mesma, reservando a aparição das filhas apenas para momentos oportunos e consensuais. “Falar sobre maternidade é tentador, porque o engajamento é alto, mas busco fazer isso de forma consciente”. Ela recorda que, no início da carreira, tornou público um episódio de racismo envolvendo a caçula, algo que hoje não repetiria. “Para mim, é inegociável que minhas filhas não sejam personagens do racismo.”

Apesar dos perigos, Ana Paula reconhece que as redes sociais trouxeram algo que sua geração não teve: mais referências negras, mais possibilidades de se ver representada. “De alguma forma, isso cura a minha infância também. É muito lindo ver que elas têm um ponto de partida muito diferente do meu na construção da autoestima.”

“Para criar conteúdos sobre assuntos sensíveis, é preciso se atualizar com a comunicação do momento”

Na conversa com a Tpm, a comunicadora detalha como preserva as filhas sem apagá-las e defende que o entretenimento pode, sim, ser um meio eficaz para debates sociais profundos. “Para criar conteúdos que falem sobre racismo, desigualdades ou qualquer assunto sensível, é preciso se atualizar com a comunicação do momento.” 

/ Créditos: Reprodução

Tpm. Em 2019, você disse para a Tpm que o embrião para o seu canal na internet foi um vídeo em que você aborda a solidão da mulher negra a partir de um relato da sua filha. Depois de anos criando conteúdo sobre negritude, maternidade e autoestima, esse é ainda um tema que você conversa com suas filhas? Elas te ajudam a revisar questões que você achava que já tinha resolvido em si mesma?

Ana Paula Xongani. Solidão é um assunto constante, sem dúvida, entre eu e minhas filhas, eu e minhas amigas e comigo mesma. E é muito importante essa conversa continuar existindo. Acho que a oportunidade de ter duas meninas remonta alguns espaços de solidão, mas, como mãe, a gente não pode suprir todas as solidões dos filhos. Elas são muitas e acontecem em várias relações, então é importante a gente elaborá-las e não compensá-las, como quando a nossa mãe fala: ‘Você é bonita, sim, é a lindinha da mamãe’. Sinto que, conforme as fases das minhas filhas vão passando, novos pilares de relações começam a existir, logo, novos pilares de solidão também ficam visíveis. Criar um ser humano tem uma beleza e, até mais cedo do que eu imaginava, uma relação de troca começa a acontecer. Tanto a minha filha mais nova, Ayo, quanto a minha sobrinha N’weti, que há três anos mora comigo, trazem para mim o tempo todo muitos assuntos complexos e dolorosos, mas também leves e gostosos. Eu tô sempre muito disposta a ouvi-las como pessoa e como mãe. Então, é uma troca pulsante que me oportuniza um processo de elaboração muito maior.

“Para mim, é inegociável que minhas filhas não sejam personagens do racismo”

Como mãe e criadora de conteúdo, você vivencia de perto as potencialidades e os perigos da internet, especialmente para crianças e adolescentes. Como você negocia, no dia a dia, os limites do uso de redes sociais com suas filhas? Como criadora de conteúdo, eu entendi que falar sobre maternidade é muito tentador, porque o engajamento é alto, mas nesses 12 anos de vida da Ayo, fiz isso de uma forma muito consciente. Muitas vezes, abri mão de expor coisas sobre ela ou a imagem dela. Por exemplo, no início da carreira, eu tornei público um episódio de racismo envolvendo a Ayo, hoje eu não faria isso. Tive muita consciência de que é inegociável que a minha filha não seja a personagem, a imagem do racismo. Aprendi muito com isso e consegui centralizar o conteúdo em mim, falando a partir da minha perspectiva. Isso faz com que as minhas filhas possam estar nos meus conteúdos nos momentos ideais tanto para elas quanto para mim, emocionalmente falando. A conversa sobre os limites de uso das redes sociais se faz presente, mas talvez seja mais fácil do que a que acontece em outras famílias, porque elas entendem que é meu trabalho. A mais nova, que está com 12 anos, não tem celular ainda, mas ela gosta de rede social como a maioria dos pré-adolescentes. Mas sinto que a gente vem fazendo bons combinados. As redes sociais dela são 100% controladas por mim. E mesmo quando eu faço publicações com Ayo no meu perfil, o que é cada vez mais raro, eu filtro ainda mais os comentários e compartilhamentos. É um controle grande que tem que ser feito, por causa dessa exposição acima da média.

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/ Créditos: Reprodução

Você acha que hoje, com mais referências de mulheres negras na mídia, é mais fácil construir a autoestima de meninas negras? Sem dúvida, a gente tem hoje muitas referências positivas que fazem parte dessa teia de autoestima que construímos para as nossas filhas. Há influenciadoras como a Ella Tascine, a MC Soffia, atrizes como a Clara Moneke, entre outras meninas e mulheres que aparecem na internet, na televisão e nas novelas que são fundamentais. São cabelos, penteados possíveis de reproduzir, roupas que conversam com o ideal estético das minhas filhas, maquiagens que elas vêem sendo experimentadas por outras meninas negras, livros, danças e corpos que criam referências diretas para elas. De alguma forma, isso cura a minha infância também, sabe? É muito lindo ver que elas têm a oportunidade de partir de um outro lugar na construção da autoestima.

“A compulsão digital é similar à compulsão alimentar. É preciso controlar o que se consome nas redes”

A gente vive um momento em que a relação dos usuários com as redes sociais é muito debatida: a compulsão digital, falta de regulamentação, disseminação de desinformação e discurso de ódio. Como você, que faz do digital seu trabalho, sente esse clima de questionamento? A compulsão digital é o grande dilema da nossa geração. E isso atravessa inclusive a nossa criação de conteúdo, o modo que a gente colabora para uma curadoria que incentiva as relações a partir da própria internet. É uma matemática complexa, mas que precisa acontecer para que a produção de conteúdo melhore. Acho que a compulsão digital se assemelha muito com a compulsão alimentar: você precisa comer para sobreviver e o digital hoje é fundamental para as relações, infelizmente. Então, precisamos ter um autocontrole sobre o que consumimos nas redes. E você tem que ensinar para os filhos esse consumo consciente de conteúdos antes que a compulsão digital aconteça. Com as minhas filhas, o debate segue constante: eu as incentivo a fazer as refeições sem telas, a conversar, a sair das telas.

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Como você lida no dia a dia com a pressão por engajamento, a exposição e ataques nas redes sociais? Você tem estratégias para manter a saúde mental no trabalho com o mundo digital? Eu tenho a sorte de não ter haters. Há discordância nos meus canais, mas ela acontece dentro de um limite que eu considero saudável. Então, não posso dizer que eu sou impactada por um discurso de ódio desqualificado, porque discordância não é ódio, mesmo que ela seja severa. Nesses 10 anos de trabalho, aprendi a lidar com as redes sociais de uma forma que não gera ódio e isso me dá um alívio muito grande. Agora, a pressão do engajamento é posta o tempo todo. Você precisa estar atenta para não cometer erros que vão te trazer prejuízos, incluindo haters, e, ao mesmo tempo, estar intensa nas redes para gerar engajamento que vai te trazer recursos e visibilidade. Achei que, com o passar do tempo e com as provas de qualidade do meu conteúdo, o engajamento seria menos cobrado. Mas esses números ainda são cobrados, faz parte da minha profissão. Talvez esse seja o ponto mais negativo do meu trabalho como figura pública. O que eu faço é aprender a jogar esse jogo da forma mais saudável possível, criando estratégias dentro e fora das redes sociais para que, em algum momento, a máquina do engajamento não seja a que me impulsione. Eu desejo me aposentar em breve, não para parar de criar conteúdo, mas para criar a partir de outros objetivos e sem pressões de engajamento.

“Provar a qualidade do conteúdo não reduz a pressão pelo engajamento. É o ponto mais negativo do meu trabalho”

A gente vive num país polarizado, onde a conversa sobre racismo e desigualdade de gênero ainda é evitada por muita gente. Você acha que ainda é possível criar conteúdos que promovam debates saudáveis sobre temas complexos e que alcancem pessoas de diferentes ideologias? Nossa, que delícia de pergunta! Eu tenho certeza absoluta que é possível. Tem que mudar algumas estratégias, os movimentos sociais precisam se adaptar constantemente, faz parte. Para a gente criar conteúdos que falem sobre racismo, desigualdades ou qualquer assunto sensível, é preciso, o tempo todo, estar atualizado com o modus operandi da comunicação do momento. Há 10 anos, vou aplicando os meus estudos sobre comunicação no meu trabalho. Por exemplo, eu entendo que hoje o entretenimento é um meio para debates sociais importantes porque ele acolhe e traz gente. Na minha experiência de comentar o BBB [Big Brother Brasil 2026], fiz conteúdos extremamente politizados com atravessamentos sobre questões de gênero, raça e afetividade. Eles geraram um engajamento absurdo: milhões de pessoas impactadas por essa conversa, a partir do entretenimento e de um debate popular. Então, sim, há pessoas interessadas nesses assuntos, que desejam aprender. O letramento racial ainda se faz necessário, porque o Brasil ainda é analfabeto nas questões sociais e até nas questões afetivas. Então, se tem analfabetismo, ainda tem muito letramento a ser feito. Eu nasci no ativismo, sou extremamente otimista e muito feliz de conseguir fazer isso nas minhas redes.

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