Rir da própria desgraça para não pifar
No livro "Bug nos Millennials", Aquela Miranda destrincha com humor o esgotamento de uma geração que cansou de tentar vencer na vida
Créditos: Divulgação
Boa parte dos millennials, geração dos nascidos entre 1981 e 1996, cresceram acreditando que esforço mais qualificação era a equação para conquistar o mundo aos 30 anos. O tempo passou, a internet bombou, o mercado de trabalho mudou e, apesar dos títulos acadêmicos acumulados, os boletos chegaram sem trégua. Assim, os sonhos da casa própria e da estabilidade financeira foram adiados para um futuro nem tão próximo.
Hoje, acumular trabalhos que mal cobrem o custo de vida é a dura realidade para adultos entre 30 e 40 anos. Os millennials representam a maior parcela da população brasileira segundo o Censo 2022 do IBGE, mas também lideram os afastamentos do trabalho por questões de saúde mental. Dados do Ministério da Previdência Social indicam que a idade média dos trabalhadores afastados por transtornos mentais é de 41 anos, atingindo em cheio o coração dessa geração.
“A expectativa de que millennials já tenham alcançado uma vida muito melhor gera uma sensação de fracasso. Mas não é culpa nossa”
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É exatamente sobre esse colapso coletivo que a atriz, comunicadora e criadora de conteúdo Aquela Miranda escreve em seu livro de estreia, Bug nos Millennials. A obra é um desdobramento de sua crônica publicada na Folha de S. Paulo em 2025, que viralizou no Instagram com 2 milhões de visualizações e 70 mil compartilhamentos.

No livro, porém, Miranda também dedica um capítulo a quem não se identifica com essa narrativa de decadência. Ela lembra que millennials originários de famílias de baixa renda se reconhecem vivendo melhor do que seus pais e avós. “No fim das contas, é possível que a crise dos millennials seja muito mais uma crise da classe média urbana ocidental do que, necessariamente, uma crise de todos os indivíduos que nasceram nas décadas de 1980 e 1990”, escreve, em um livro que mistura dados estatísticos, relatos nostálgicos e uma autocrítica ácida.
A Trip acompanhou o lançamento do livro e bateu um papo com a autora. Na entrevista, Miranda fala sobre o humor como válvula de escape, o que mudou na relação com o próprio trabalho após um burnout e por que rir da própria desgraça pode ser, no fundo, um ato político.
Trip. Vou começar perguntando sobre seu nome artístico curioso: Aquela Miranda. Como ele surgiu?
Aquela Miranda. Miranda é meu sobrenome e o “Aquela” veio porque era o único nome de usuário disponível no Instagram. Aí ficou “aquela.miranda” e as pessoas passaram a me chamar assim. Eu sei que é estranho, mas registrei esse nome como minha marca, por questões de direito autoral e de segurança de propriedade intelectual. Quando fiz o livro, a editora me perguntou se eu queria assinar como Viviane Miranda, que é o meu nome do RG, mas eu decidi manter o Aquela Miranda que já estava registrado.
“Entendi que trabalhar tanto não necessariamente me daria mais dinheiro. Então comecei a fazer o que eu gostava, não só o que o algoritmo prefere”
Você é formada em Comunicação e em Teatro. Como esses dois caminhos te levaram até a criação de conteúdo? Foi uma escolha ou uma necessidade? Cara, eu acho que foi mais uma necessidade de me comunicar. Criar conteúdo na internet acabou juntando um pouco das duas formações. Da Comunicação, eu trago essa habilidade de elaborar sobre um tema e do teatro, trago os meus personagens. Acho que o artista, quando não se comunica ou não produz, fica um pouco deprimido. Isso aconteceu comigo, num momento em que eu fiquei sem trabalho. Então, as redes sociais surgiram como uma alternativa, porque eu passaria a não depender de alguém me chamando para trabalhos como atriz. Na internet, eu sou minha própria produtora, roteirista, diretora e editora, então posso fazer o trabalho da forma que eu quero. Claro que tem muitas coisas difíceis em trabalhar na rede social, mas tem essa independência para criar. Eu sou muito ruim de networking, mas, na internet, as pessoas me conhecem por causa do meu perfil. Então, foi um caminho orgânico que eu encontrei.
Você conta no livro que teve burnout mesmo trabalhando com o que gosta e sendo reconhecida por isso. A sua relação com o trabalho mudou depois disso? Você encontrou uma forma de continuar gerando renda com conteúdos nas redes sem se destruir no processo? A minha relação com o trabalho mudou, sim, porque entendi que eu não queria mais ficar cumprindo um ritmo exagerado de produtividade. Entendi que trabalhar tanto não necessariamente me daria mais dinheiro, mais seguidores ou mais visualizações nas redes sociais. Com isso, acho que fiquei muito mais cética e até um pouco antipática com a rede social. Me deu um pouco de ranço. Só que, como criadora de conteúdo, eu não podia simplesmente não estar lá. Então, entrei num ritmo que fazia mais sentido para a minha saúde mental. Comecei a escolher temas e personagens que eu realmente gostava de fazer e não só pensando no que iria viralizar ou no que o algoritmo prefere.

No livro, você diz que millennials foram muito influenciados por filmes dos anos 90 e 2000 que vendem a ideia de que o trabalho seria a grande fonte de sentido da vida. Você conseguiu se livrar um pouco dessa ideia? Cara, eu gostaria de estar um pouco mais liberta dessa crença de que o trabalho é a nossa fonte de realização primária, de que a gente só vai ser feliz se tiver um trabalho bom. Eu ainda acredito um pouco nisso, mas tento me descolar da ideia de que eu só vou ser uma pessoa realizada se eu realizar os meus sonhos profissionais. Associar sonho com trabalho é uma cilada muito neoliberal, é uma uma crença capitalista. É difícil, mas eu tento não pensar assim para não ficar frustrada. Tem coisa que não depende de mim, então se eu não realizar esse projeto, esse objetivo profissional, eu vou morrer frustrada? Às vezes é a vida acontecendo, tem que aceitar.
“Não dá para ser 100% em tudo. Se cobrar menos leva a uma vida mais realizada”
O que, afinal, pode trazer realização para os millennials, uma vez que eles não estão bem no trabalho, nas finanças e muitas vezes nem nos relacionamentos? Boa pergunta. Acho que é uma coisa que a gente tá tentando entender, esse é um dos motes do livro. É difícil falar que não se sente realizado em nada. Você vai sentir alguma satisfação em pelo menos uma coisa. Mas talvez as gerações anteriores entenderam que está tudo bem não estar muito realizado em tudo. Nós, millennials, nos cobramos muito nesse aspecto. Então, acho que o processo não é buscar essa realização, mas entender que não dá para ser 100% em tudo. Se cobrar menos talvez seja um caminho para uma vida mais realizada.
O livro é uma descrição bem-humorada da triste realidade dos millennials. Você acha que fazer graça da própria desgraça pode ser um jeito de tentar sair da crise? É essa a sua intenção com o livro? Eu acho que sim. É muito ingênuo e romântico achar que eu vou criar uma revolução popular, que as pessoas vão sair com a foice e o martelo querendo uma vida melhor. Mas o livro, de algum modo, busca acender uma autocrítica. A gente reclama, reclama, reclama, mas em quem a gente está votando? Quem a gente está escolhendo para nos representar nesse mundo que está tão difícil de viver? Por exemplo, o debate do fim da escala 6×1 atravessa muito a nossa saúde mental. Precisamos entrar nessas discussões de alguma forma para melhorar a perspectiva de vida da nossa geração, que vai trabalhar pelos próximos 20 anos pelo menos. E o mercado de trabalho ainda tá muito insalubre. Acho que o humor é uma válvula de escape, uma forma de não sucumbir ao desespero e não ficar só no ressentimento. Uma das tentativas do livro é trazer mais consciência para essas dores e questionar: o que a gente pode fazer? Vamos mobilizar alguma coisa, seja politicamente, seja no seu dia a dia, no trabalho, na sua relação com o seu chefe, com a sua família ou com os seus amigos.
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“O humor é uma forma de não sucumbir ao desespero e não ficar só no ressentimento”
No livro, você aborda a “síndrome do protagonismo” e a dura descoberta de que não somos tão especiais assim. Você acha que aprender a se dar a devida desimportância é um dos maiores desafios da geração millennial? Acho que sim. Eu tô generalizando, porque também há pessoas bem desapegadas. Mas, no geral, acho que a gente está muito preocupado com os fracassos, com as nossas faltas. E tirar essa importância do que a gente fez ou não traz um grande alívio. Eu ainda não consigo fazer isso, mas é um exercício diário. É uma prática de ponderar, tipo: Eu não consegui aquele emprego ou aquele salário maravilhoso, mas quem consegue, sabe? Existe, talvez, uma expectativa de que a gente já tenha alcançado um patamar muito melhor em determinado momento da vida e isso gera uma sensação de fracasso. Mas não é culpa nossa. O mercado de trabalho mudou, o capitalismo se sofisticou, e muita coisa está diferente de quando a gente foi preparado para entrar no mercado. Então, talvez um caminho seja realmente tentar esvaziar um pouco essa alta importância que a gente se dá.
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