A revolução discreta da cannabis
A maconha levou décadas para sair da delegacia e entrar no consultório. Com a nova regulação da Anvisa, ela chega agora à farmácia de manipulação
Créditos: Unplash
A maconha passou décadas tentando sair da delegacia e entrar no consultório médico. Agora, com a nova regulação da Anvisa, ela começa a bater na porta da farmácia de manipulação. Talvez seja ali, nesse lugar tão “brasileiro quanto uma jabuticaba”, meio laboratório, meio balcão de mercearia, que a cannabis medicinal encontre seu caminho.
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“Nenhum paciente deveria precisar escolher entre subir o morro, entrar em um grupo de WhatsApp duvidoso ou enfrentar uma importação complexa para tratar dor”
O debate sobre cannabis no Brasil ainda está preso a duas imagens: de um lado, a planta; de outro, o paciente. Pelo menos evoluímos no contraste que costumava ser de um lado a polícia e, do outro, o traficante. Nenhum paciente deveria precisar escolher entre subir o morro, entrar em um grupo de WhatsApp duvidoso ou enfrentar uma importação complexa para tentar tratar dor, epilepsia, ansiedade, insônia ou sintomas de uma doença crônica. Finalmente chegamos nesse ponto de equilíbrio através da ciência e da regulamentação feita com um pinguinho de consciência e respeito à sociedade em que está inserida.
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Vou fazer aqui uma colocação pessoal e, sem citar nomes, dar parabéns à Anvisa, que colocou um diretor com cabelo black power para liderar a regulamentação desse tema. Cheira a justiça histórica e coerência social. Talvez não seja à toa que finalmente temos uma atualização relevante nas 3 frentes que compõem esse mercado: produtos importados, associações e farmácias) – provavelmente o passo mais importante desde que essa pauta foi regulamentada.
No Brasil de 2026, já temos quase 1 milhão de pacientes usando cannabis medicinal. Não é mais assunto de militante hippie, “universitário baderneiro”, nem de famílias desesperadas buscando autorização na Justiça. Virou assunto de saúde pública de verdade, com um mercado concreto, e que agora se abre para as farmácias magistrais.
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A farmácia de manipulação já está acostumada a transformar prescrições médicas em soluções sob medida para os pacientes, o que combina muito bem com a cannabis medicinal. A própria natureza do tratamento pede ajustes individualizados da dose, via de administração, e tudo o mais. Um produto industrializado pode ser excelente quando há uma indicação clínica muito bem definida, mas nem sempre ele resolve o problema de quem precisa deste ajuste fino.
“A farmácia de manipulação transforma prescrições médicas em soluções sob medida para os pacientes, o que combina muito bem com a cannabis medicinal”
Na manchete do jornal, uma foto de farmácia parece bem menos sexy do que as imagens – ainda fictícias – de hectares de cannabis substituindo a soja no cerrado brasileiro ou da legalização do plantio no município de Cabrobró, em Pernambuco, no chamado Polígono da Maconha. Mas talvez, discretamente, seja mais revolucionário porque amplia o acesso de maneira racional, traz conforto para a agência regulatória, cria demanda por trabalho qualificado e de quebra tira parte da demanda da informalidade. Não por moralismo, mas por conveniência: quando o caminho legal é seguro e próximo, o ilegal gradativamente perde a função.
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