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Ela tem o antídoto para um país sem graça

A atriz e diretora Debora Lamm fala sobre humor como ferramenta política, feminismo, envelhecimento e a série Juntas e Separadas do Globoplay

Ela tem o antídoto para um país sem graça

Créditos: Orlando Ávila Kilesse


em 22 de maio de 2026

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Com mais de 30 anos de carreira entre teatro, televisão e streaming, a atriz e diretora Debora Lamm é uma das vozes mais consistentes do humor e da dramaturgia brasileira. Em cartaz com a peça A Pediatra no Rio de Janeiro e no elenco de Juntas e Separadas, nova série do Globoplay, ela defende o retorno das produções cômicas à TV aberta: “O humor atrai audiência, faz pensar e descansar ao mesmo tempo. Não é uma arte menor, de jeito nenhum.” Na entrevista ao Trip FM, ela reflete sobre sua trajetória, o humor em um mundo cada vez mais sem graça e o que significa envelhecer com liberdade.

/ Créditos: Divulgação

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Na conversa com Paulo Lima, Debora Lamm conta como a coragem de dizer sim transformou sua trajetória profissional: “Nunca tinha me imaginado como diretora até que, em 2013, me ofereceram a oportunidade e eu simplesmente aceitei. Por que dizer não podendo dizer sim? Desde então, já dirigi mais de 20 espetáculos.”

Ela faz questão de desmontar um equívoco que ainda persiste sobre as artes cênicas: “Associam a nossa profissão à vaidade porque ficamos colados à imagem da celebridade. Mas nem sempre estamos sendo remunerados”. Além disso, ela reforça o caráter coletivo do ofício: “Nunca é sobre a gente. É sempre sobre o encontro, sobre quem está do teu lado em cena, sobre a plateia e, principalmente, sobre o que está sendo discutido no mundo naquele momento.”

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Porém, chegar a essa clareza levou tempo. No início da carreira, a pressão externa gerava resistência: “Era muito novinha e as pessoas ficavam falando: ‘Você tem que ser atriz’. Aquilo me enchia o saco. Deixa eu respirar”. Assim, quando decidiu por conta própria, Debora começou pela tradicional escola de teatro O Tablado, no Rio de Janeiro. Ela entrou com a ajuda (e uma mentira bem sustentada) do ator Guilherme Karam. “Tive que dizer que era sobrinha do Karam durante anos. Às vezes eu esquecia, mas a mentira foi longe.”

/ Créditos: Arquivo pessoal / Reprodução

No plano pessoal, a atriz e diretora também atravessa transformações. Chegando aos 50 anos, ela reflete sobre os modelos impostos à geração de sua mãe e que foi vendo se desfazer ao longo da vida: “Quando eu nasci, o ideal de sucesso feminino estava muito ligado a casar e ter filhos. Hoje, esse não é o único caminho possível para uma mulher, e isso é libertador.”

No papo, ela também fala sobre os avanços e retrocessos das pautas feministas e sobre a relação pessoal e profissional de longa data com o ator Bruno Mazzeo.

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Você pode ouvir o programa no play nesta página, no Spotify, Deezer, YouTube e outras plataformas de áudio, ou ler alguns trechos da entrevista a seguir.

/ Créditos: Reprodução

Você falou do humor, né? E eu queria voltar nisso. A Globo deu um tempo nesse território do humor na TV aberta. Como você viu esse movimento?

Débora Lamm. Eu acho uma pena. Porque o humor, além de tantas mil qualidades, atrai muito público. E é isso sobre tudo que eu falei aqui: o humor é uma ferramenta política que faz pensar, que descansa, distrai. Dentro do humor você tem mil vertentes. Não é uma arte menor, de jeito nenhum. Eu acho uma pena porque, além de tudo, atrai audiência também. E eu espero que volte o mais rápido possível. O humor é um aliado, um aliado pra tudo, principalmente pra audiência.

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O que credencia um ator a virar diretor? Quando você virou diretora? Eu virei diretora simplesmente porque eu não disse não a uma oportunidade. A princípio eu nunca me imaginei nesse lugar. Mas umas meninas me ligaram e falaram: ‘Debinha, a gente quer que você dirija a gente’. E eu simplesmente não disse não. Eu falei: ‘Por que eu vou dizer não podendo dizer sim?’. Muito corajosamente, disse sim. E me encantei também com esse outro lugar, esse espaço de organização entre as funções para que uma obra possa se concretizar. A partir dali eu não parei. Isso foi em 2013 e eu já dirigi mais de 20 espetáculos.

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/ Créditos: arquivo pessoal

Como está sendo essa fase perto dos 50 anos? O quanto fazer a série Juntas e Separadas ajudou? A série só ajudou. Quando eu nasci, a geração da minha mãe tinha uma ideia de sucesso feminino muito ligada a casar e ter filhos. Se você não casasse e não tivesse filhos, parecia que estava devendo alguma coisa. E eu fui vendo isso se modificar, e isso é libertador. Eu chego nessa idade, beirando os 50 anos, sabendo que isso não é a única opção de felicidade, de êxito feminino. Antigamente a gente tinha essa ideia de que, chegando aos 50, os sonhos tinham ficado pra trás. E nada disso. A série diz: ‘Amores, agora vocês estão começando. Agora vocês deixaram algumas ilusões pra trás’.”

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/ Créditos: arquivo pessoal

Como é esse lado da grana? Porque existe uma fantasia de que quem aparece na televisão é rico, que a profissão tem muito glamour. Associam muito a nossa profissão à vaidade, né? Tem esse lado de ficar colado na imagem da celebridade. Muitas vezes chamam a gente pra um trabalho que nem sempre está sendo remunerado, como se estivessem dando a oportunidade de você mostrar o seu trabalho. E não. É um trabalho. Acho que quem relaciona a profissão só a isso praticamente não entendeu a profissão. Quem acha que a profissão é sobre si está interpretando de um jeito ingênuo o que é ser ator e o ofício das artes. Porque é um ofício totalmente coletivo. Nunca é sobre a gente, é sempre sobre o encontro, sobre quem está do teu lado, sobre aquela plateia daquele dia e, principalmente, sobre o mundo.