As 7 vidas de Evandro Mesquita, o embaixador do Brasil solar
Artista relembra a praia como escola de vida, a contracultura dos anos 70 e uma carreira marcada por humor, coletividade e pé no chão
Evandro Mesquita (@evandromesquitaoficial), convidado do #TripFM. Ator, cantor e vocalista da Blitz (@blitzoficial) / Créditos: Divulgação
“O humor sempre foi uma forma muito séria de falar das coisas. A gente usava humor, mas estava falando de comportamento, de convivência, de sociedade. Nunca foi só brincadeira”, diz Evandro Mesquita. Ator, cantor e vocalista da Blitz, uma das bandas mais icônicas do rock brasileiro, ele atravessou décadas embalando gerações com sua mistura inconfundível de irreverência e pop rock. No ano passado, a banda lançou o álbum “NuDusOutros”, que revisita a própria trajetória e apresenta releituras de clássicos da música brasileira.
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Na conversa com Paulo Lima, Evandro relembra a juventude no Rio de Janeiro durante a ditadura militar, quando a praia se tornou território de resistência e criação. “A praia foi a minha universidade. A gente não tinha dinheiro, mas aprendia a cozinhar, a dividir comida, a trocar ideia, a ouvir música, a criar. Ali estava nascendo uma convivência muito forte. Um fazia sanduíche, outro consertava prancha, outro fazia revista. Era tudo coletivo”, conta.
Do teatro com o grupo Asdrúbal Trouxe O Trombone nos anos 1970 aos personagens marcantes como Valdo e Poliana Jones de “Armação Ilimitada” (1985) e Paulão de “A Grande Família” (2001), Evandro refletiu sobre décadas de carreira sem perder a energia. Prestes a completar 73 anos, ele revela a rotina de rockstar: “Tem shows que eu saio exausto, sim, mas eu gosto dessa entrega.”
Você pode ouvir o programa no play nesta página, no Spotify, Deezer e no YouTube da Trip, ou ler um trechinho a seguir!
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Trip. Queria te perguntar sobre um assunto que não vejo muito nas entrevistas: suas origens libanesas. Me conta um pouquinho dos seus pais, da sua família, da sua conexão com o Líbano.
Evandro Mesquita. A minha mãe era sensacional, minha ídola maior. Ela foi a primeira mulher decana de Letras da UFRJ. Em frente à faculdade tem uma praça, Praça Samira Mesquita, e um mural enorme com o rosto dela. Eu tenho muito orgulho. Volta e meia encontro alguém que foi aluno da minha mãe e diz como ela mudou sua vida. Sempre com palavras muito carinhosas. Eu fui ficando cada vez mais fã dela. Ela morreu em 1998, mas sempre foi muito presente na nossa vida.
Você viveu essa cultura de praia nos anos 70, muito forte no Rio de Janeiro: Arpoador, o píer, a praia, o surf, as ondas. Quando a praia começou a correr no seu sangue e de que maneira você carrega isso? Eu morava na Lagoa. Em frente tinha um campinho de futebol de salão, rinque de patinação, pracinha, ladeira pra descer de carrinho de rolimã, e a praia era perto. No meu edifício morava a irmã da Leila Diniz. Eu cruzava com Tom Jobim, Ziraldo, Jaguar. A Banda de Ipanema ensaiava no Veloso. Foi minha segunda infância ali no Arpoador, os amigos descobrindo a vida. Os surfistas migraram pro píer, ali era um oásis no meio da ditadura. Tinha uma mistura enorme de gente: poetas, músicos, surfistas. Era uma troca de informação. Você chegava de manhã, tomava um suco pra encher a barriga porque não tinha almoço, voltava pra praia e ficava até o pôr do sol.
Apareciam os poetas do mimeógrafo, os livrinhos vendidos na praia, na porta dos shows. Novos Baianos começaram a aparecer ali. Aquilo tudo foi um combustível de vida, de arte, de jazz. Eu desenhava, fazia história em quadrinho, queria participar de tudo. Ali foi a minha universidade. Depois a gente descobriu Saquarema. Chegávamos de noite, dormíamos na praia, alugávamos uma casinha de pescador. À noite tinha fogueira, troca de informação. A gente fazia nossa comida, aquele arroz integral duro pra caramba. Era uma universidade mesmo. Tinha um puteiro do lado da casa que era o único lugar com cerveja gelada. Tinha microfone, amplificador, a gente tocava ali. Ângela Ro Ro tocou com a gente. A gente queria cerveja e microfone. Foi assim que eu fui ganhando força pra confiar nas minhas músicas. Foi essa universidade de vida que eu aprendi na beira da praia.
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Você fez um sobrevôo excelente sobre a cultura de praia, essa formação contracultural que não aparece tanto quando se fala da Blitz. Ali tinha uma política de praia nascendo. Um fazia sanduíche, outro fazia calção, outro consertava prancha. Vieram as revistas de surf. Teve um dia que uma repórter da Veja falou comigo no píer por causa das histórias em quadrinhos que eu fazia. Era uma reportagem sobre o último verão da contracultura. Eu fiz um desenho que acabou sendo capa da Brazil Surf. Até hoje eu tenho esse desenho, vendo pôster nos shows. Eu gosto muito de desenhar. A gente fazia parafina em Saquarema, dormia na oficina, enrolava parafina pra sobreviver. Eu fiz rótulo de parafina. Foi ali que eu descobri Bob Marley, a primeira vez que ouvi reggae. É um ritmo que entra organicamente na gente.
Agora, falando de você, como é que lida com a beleza? O meu pai foi quem me apresentou isso tudo. Ele era vegetariano, fazia yoga, lutava judô. E a gente tinha essa ligação com a natureza. Minha avó tinha um sítio e a gente ia desde garoto. Pisar na lama, andar a cavalo, jogar bola. Meu pai me passava tudo isso. Eu fiz judô, fazia essas coisas todas. Depois vi como isso foi fundamental na minha vida.
A grana da primeira peça eu juntei com um amigo e comprei um terreninho em Friburgo, com um rio maravilhoso. Depois fui comprando do lado. Quando começou a entrar mais grana com a música, eu senti que isso tudo era herança do meu pai. Yoga, produtos naturais, essa vida ao ar livre. Eu gosto muito de fazer o que eu gosto. Seja na dramaturgia, na música ou na televisão. Gosto de coisas que me desafiem, que tenham a ver com o meu universo, onde eu possa contribuir organicamente. É acreditar na vida, na solidariedade, na saúde, na paz, no amor. Meio hippie ainda.
Você sentiu uma coisa meio Beatles cult com o sucesso do grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone e depois com a banda Blitz? Chegou a pirar com a fama, a se sentir um John Lennon? Não, cara. Não. Por tudo que eu tinha passado, pelos mestres que tive, pelos amigos que tive, eu não era nada mais do que nenhum deles. Eu me sentia muito privilegiado de estar contribuindo. Eu nunca quis ser o melhor surfista nem o mais genial. Eu era bom de desenho, então eu desenhava rótulos, fazia história em quadrinho. Eu queria contribuir de alguma maneira. Eu era bom de bola, joguei em seleção juvenil, futebol de praia, joguei com amigos que são jogadores até hoje. Então eu nunca me deslumbrei. Sempre fui muito próximo da galera, dos amigos e dos desconhecidos também.
A Blitz sofreu discriminação por ser alegre, colorida, pop demais? Um pouco, sim. Tinha essa coisa de “alegrinho demais”. Mas a gente estava adorando ter aquele Brasil das cores. A Blitz tinha um lado teatral, meio escola de samba, que ninguém fazia. Nos shows tinha carro entrando no palco, truques circenses, dublê, figurino, objetos de cena. Era teatro e música sem perder a porrada sonora pop. A gente foi esse combo.
Do ponto de vista de grana, foi a época em que você ganhou mais dinheiro? A Blitz me sustenta até hoje. São 44 anos. A gente continua enchendo festivais, casas grandes. Eu sinto muito prazer. Às vezes tem briga de membros e isso me arrasa, porque eu torço para que fique maneiro no nosso time. A gente tem prazer nas roubadas de ônibus, nos lugares brabos, e também no privilégio de tocar em grandes casas e festivais muito legais. Então eu acho que eu nunca me deslumbrei. Sempre tive o pé no chão.
Quero falar agora da Grande Família, da TV Globo. Me conta um pouco dessa fase. Eu fiquei nove anos no programa. Eu já tinha trabalhado com a Andréa Beltrão, fiz uma participação num episódio e eles gostaram muito da química. Minha mulher estava grávida e eu estava viajando muito com a Blitz, então foi uma coisa boa. Era sensacional, cara. Era um jazz sincero. Tinha texto, mas você improvisava. A gente se divertia muito. Era uma cidade cenográfica afastada do Projac, com aqueles mestres: Nanini, Marieta, Andrea, Lúcio, Pedro. Era muito maneiro.
Como está sendo pra você a passagem do tempo, chegar aos 73 anos? Eu sempre fui um cara muito de esporte. Fiz muita coisa e continuo fazendo dentro das limitações. Tenho marcas das atividades: judô, futebol, surfe. Procuro me adaptar. Fui tentando outras coisas. Golfe não deu. Futebol também fui parando. Hoje faço futebol-golfe, nado, musculação básica pra não mancar nos shows. Cuido da alimentação, nunca fui de beber muito. Meu pai sempre mandava a gente provar beterraba, essas coisas.
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