Regina Braga: Arte, ditadura e a resistência no teatro
Aos 80 anos, a atriz reflete sobre a vida com Drauzio Varella, a herança de grandes mestres e a luta pela cultura
A atriz Regina Braga é uma das vozes mais lúcidas e sensíveis da cena cultural brasileira. / Créditos: Globo/Fábio Rocha/Divulgação
Referência central da dramaturgia e dona de uma das vozes mais lúcidas da nossa cena cultural, Regina Braga carrega o DNA de uma geração que acreditou na arte como ferramenta de transformação. Com uma trajetória que se confunde com a própria história do teatro brasileiro, ela viveu de perto o impacto da ditadura militar e como tantas coisas projetadas pela arte ficaram pelo caminho.
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Convidada do Trip FM desta semana, Regina mergulha em memórias que ajudam a entender o Brasil de hoje. Da adolescência inquieta sob a influência de Simone de Beauvoir aos palcos do Teatro de Arena, sua caminhada é marcada por encontros com gigantes. Ela recorda a estreia profissional em 1970 com A Cantora Careca, sob a direção provocadora de Antônio Abujamra, e a convivência transformadora com o cenógrafo, arquiteto e artista plástico Flávio Império.

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Regina fala com franqueza sobre a economia do teatro e sobre o que significa fazer sucesso de público em um país onde, muitas vezes, nem isso garante a sobrevivência dos artistas. Lembra também do Teatro Oficina, a companhia mais antiga em atividade em São Paulo: um edifício que se mistura à alma da cidade, abriga a obra de Lina Bo Bardi e que, ainda assim, não tem o apoio governamental necessário para sua conservação.
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Atualmente, Regina empresta sua força à “louca da família” em Senhora dos Afogados, clássico escrito por Nelson Rodrigues em 1947 que adapta a tragédia grega ao inconsciente brasileiro. Além dos palcos e de papéis marcantes na TV e no cinema, a atriz abre a intimidade da vida ao lado do médico Drauzio Varella, com quem divide a jornada há mais de 40 anos. “Nós dois estamos entrando nos 80. Temos algumas prioridades que começam a se revelar pela própria idade. Alguns sonhos que eram supérfluos, e agora estou começando a botar em primeiro lugar”, reflete.
Entre a resistência política, a defesa do patrimônio cultural e a maturidade que o tempo traz, o papo com Regina ajuda a pensar o país através dos olhos de quem nunca parou de criar.
Você pode ouvir o podcast no play nesta página, no Spotify, Deezer, YouTube e outras plataformas de áudio, ou ler alguns trechos da entrevista a seguir.
Como foi sua adolescência, antes de vir para São Paulo?
Regina Braga. Eu vivi uma adolescência muito atormentada, sabe? Eu era muito bonita, muito cheia de vida, muito alegre, mas os meus valores, eu sentia que faltava alguma coisa. Eu queria mais, eu queria estudar, eu queria ir para a Europa. Eu tinha sonhos assim, eu lia Simone de Beauvoir, entende?
Como é que foi esse lado aí, o começo da ditadura? Como era estar lá, jovem? Naquele momento da ditadura, em 64, a gente perdeu tantas coisas maravilhosas que estavam se projetando. Eu achava que o Brasil era o país do futuro. Acreditava na arte, acreditava em tudo… Existia Paulo Freire falando de educação, e tinha uma turma que fazia a gente achar que íamos fazer uma coisa cada vez melhor. Acho que foi ali o primeiro aperto de falar: não é bem assim, né? E só foi piorando. Eu acho que perdemos mesmo. Sinto que perdi esperança com o Brasil, de ser um país mais justo, menos desigual, e que tenhamos menos burrice no poder, menos bandidagem. Não me conformo de a gente ter tanto e não conseguir fazer as pessoas não passarem fome.
Como é que é sua relação, que já passa dos 40 anos, com o Drauzio? Eu e o Drauzio passamos por várias coisas, algumas dificuldades, mas sinto que a gente não ficou botando o outro para baixo, conseguiu não entrar nesse lugar de atrapalhar, sabe? Aquilo que envolve cobrança, mágoas e coisas assim. Conseguimos entrar num canal bom, e é nesse canal que permanecemos. O tempo também vai dando pra gente uma sabedoria.
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