Senna, Agente Secreto e Hamlet: as muitas vidas de Gabriel Leone
Ator volta ao teatro em SP, reflete sobre maturidade, morte e escolhas, e fala do equilíbrio entre vida pública e privada em conversa no Trip FM
Créditos: Divulgação
Gabriel Leone tem 32 anos e vive um momento importante da carreira. Depois de brilhar em O Agente Secreto e nas séries Dom e Senna, ele volta ao teatro em São Paulo com Hamlet, em cartaz no futuro Nu Cine Copan — um espaço ainda em reforma que é incorporado à encenação.
O ator já queria fazer esse papel há algum tempo, mas esperava o momento certo. A ideia era chegar com maturidade suficiente para sustentar o texto, sem perder o frescor de quem ainda está em processo. “É um texto que exige maturidade, mas eu queria chegar nesse momento ainda com algum frescor da juventude. Porque ele é um príncipe, e existe ali uma virada muito clara. Quando ele encontra o fantasma, ele diz que vai deixar para trás as impressões e formas da juventude.”
LEIA TAMBÉM: Wagner Moura em três tempos
No Trip FM, Leone também fala sobre a relação com a morte a partir de experiências pessoais. Ele perdeu o diretor Breno Silveira e o ator Domingos Montagner, e comenta como essas partidas impactaram sua forma de perceber o tempo e as escolhas. “O que mais bate é justamente a imprevisibilidade da vida, por mais clichê que isso seja. Lógico que temos que nos cuidar, fazer o melhor que der em relação ao nosso corpo, à nossa saúde, à nossa vida. Mas tem coisas que a gente simplesmente não controla, que são maiores do que a gente, como as fatalidades. O que fica realmente é a gente aproveitar ao máximo as experiências e as oportunidades que temos na vida.”
A conversa passa ainda por Wagner Moura, que também interpretou Hamlet aos 32 anos — e de quem Leone recebeu incentivo para seguir com o projeto. A tradução utilizada pelo ator, aliás, é a criada por Wagner, junto a Aderbal Freire-Filho e Barbara Harrington, para sua montagem de 2008.
Sobre a peça, Leone destaca um aspecto central do trabalho: Shakespeare escrevia para um público amplo, e não apenas para elites. Por isso, a proposta foi construir uma encenação que se aproxime das pessoas, sem abrir mão da complexidade do texto. “Acho que é um ganho quando você consegue se aproximar do público.”
LEIA TAMBÉM: Gabriel Leone: Levei muito ‘não’ antes de começar na TV
Fora do palco, ele comenta também sobre o lugar de pessoa pública e a tentativa de manter a vida privada preservada. Entende essa separação como um processo contínuo, que precisa ser construído ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, valoriza o contato com o público, especialmente no teatro, onde a experiência é direta.
LEIA TAMBÉM: Marcus Preto: Como um garçom virou o produtor top da MPB
Você pode ouvir o programa no play desta página, no Spotify, Deezer, Apple Podcasts e no YouTube. Confira um trechinho a seguir!
Como você enxerga o impacto dos personagens na sua vida?
Gabriel Leone. Meu ofício passa por viver outras histórias, por emprestar meu corpo, meus sentimentos a outros personagens, e não tem como não se afetar. O processo passa por um lugar de você se conectar, de você se ceder, de alguma forma, aos personagens. Isso, naturalmente, já tem uma influência mútua, tanto da gente para os personagens, e dos personagens pra gente”
Você teve duas mortes importantes na sua trajetória: Breno Silveira e Domingos Montagner. Como isso o afetou? O que mais bate é justamente a imprevisibilidade da vida, por mais clichê que isso seja. Lógico que temos que nos cuidar, fazer o melhor que der em relação ao nosso corpo, a nossa saúde, a nossa vida. Mas tem coisas que a gente simplesmente não controla, que são maiores do que a gente, como as fatalidades. O que fica realmente é da gente aproveitar ao máximo as experiências e as oportunidades que temos na vida. Entendendo cada vez mais essa consciência de que nem tudo está no nosso controle, e a partir disso, naturalmente damos um valor maior ao que a gente tem, ao que a gente vive, a quem está perto da gente”
Como foi a troca com Wagner Moura nesse momento da sua carreira? O Kleber Mendonça brinca que eu e o Wagner Moura parecemos irmãos. Um irmão mais velho implicando com o mais novo, mas sempre com muito carinho e afeto. Comentei com o Wagner sobre Hamlet, que eu ia fazer a peça, e ele foi um grande incentivador. É uma coincidência eu estar com a mesma idade que ele tinha quando fez. Inclusive, a tradução contemporânea que estamos usando na peça é a que ele fez com o Aderbal Freire Filho e a Bárbara Harrington.
Qual foi a sua visão para montar Shakespeare hoje? Tem um elemento muito importante, que é o fato de o Shakespeare ter sido um autor absolutamente popular na sua época. Ele se comunicava com multidões, com o povo, não só com as elites. Então, quando a gente pensa em linguagem ou em montagens que distanciem o público, na minha opinião, a gente está se afastando da própria essência do Shakespeare. Todas as escolhas do espetáculo foram feitas nesse sentido. E isso não significa perder a poesia ou a complexidade do texto e dos personagens, muito pelo contrário. A tradução é lindíssima e não tem nenhum nível de perda. Eu acho que é um ganho quando você consegue se aproximar das pessoas porque isso está totalmente ligado à essência do Shakespeare de ser popular.

Como você lida com exposição e vida pessoal? Por mais que o meu trabalho me coloque como uma pessoa pública, eu tenho muito claro que a minha vida privada é privada. Diz respeito a mim e a quem eu escolho que faça parte dela. Tento manter isso justamente para não misturar as coisas. Uma coisa é o trabalho, a exposição, encontrar pessoas que acompanham o que eu faço, que vêm conversar, que vão assistir ao espetáculo. Essa experiência, inclusive, tem sido incrível. Muita gente que me acompanhava nas telas agora consegue me ver ao vivo, no palco. Esse contato direto faz parte e eu fico muito feliz. No fim das contas, eu sempre penso nisso, o que a gente faz só existe porque tem gente assistindo.
Por que Hamlet agora? É um texto que exige maturidade para você conseguir compreender. Não à toa, muitos atores mais velhos fazem Hamlet. Eu falava com o diretor da peça que queria chegar nesse ponto no momento em que me sentisse maduro o suficiente para dar conta do texto, mas ainda com algum frescor da juventude. Porque ele é um príncipe, e existe ali uma virada muito clara. Quando ele encontra o fantasma, ele diz que vai deixar para trás as impressões e formas da juventude. A partir dali, tudo muda. Então acho que esses dois polos convivem dentro dele. Eu brincava que queria fazer antes dos 30. Estou com 32, desconta dois anos da pandemia, acho que deu certo. Desde o início do processo, me sinto maduro para encarar esse texto e encontrar com ele de outra forma, em outro momento.”

Você tem refletido sobre masculinidade? Esse é um momento muito importante para nós, homens, de nos encararmos e entendermos que, em muitos aspectos, a gente deu errado. A prova está no que vemos hoje na sociedade, inclusive nas novas gerações, atravessadas pela internet e por dinâmicas que podem ser muito nocivas. Venho, há um tempo, tentando fazer um exercício de escutar mais do que falar. Acho que esse já é um primeiro passo importante. Abrir os sentidos, prestar atenção no que está acontecendo, receber mais, processar mais, observar mais. E isso passa também por um processo de autoconhecimento, de olhar para dentro. A terapia, nesse sentido, é fundamental. Não só para você enquanto indivíduo, mas também para entender o seu lugar enquanto homem dentro da sociedade, das relações mais próximas até o coletivo.”
A paternidade muda essa perspectiva? Hoje, eu estou criando um menino. Por menor que ele seja ainda, é colocar mais um homem nesse mundo. E isso é uma responsabilidade enorme. É um processo que começa desde agora, na forma como você educa, como você cria, no entendimento que você constrói. Ao mesmo tempo, eu penso muito na minha própria infância. Muitas das questões que hoje parecem óbvias, simplesmente não eram discutidas. Isso não fazia parte do processo de educação, de criação. E hoje a gente entende o quanto isso faz diferença.
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip FM
A batida leve e poderosa da maior percussionista do Brasil
-
Trip FM
Nos últimos dias da Eldorado, a visão de quem faz a rádio dos melhores ouvintes
-
Trip FM
Dias antes do fim da Eldorado FM, um papo reto com o diretor artístico da rádio
-
Trip FM
A incrível trajetória do arquiteto que projetou Itamambuca
-
Trip FM
Senna, Agente Secreto e Hamlet: as muitas vidas de Gabriel Leone
-
Trip FM
Mohamad Hindi, o chef que retemperou a linguagem da gastronomia
-
Trip FM
Regina Braga: Arte, ditadura e a resistência no teatro